Memória

Reginaldo Moraes, uma baixa irreparável

 

27/08/2019 16:25

 

 
Com muita tristeza, comunicamos o falecimento do cientista e filósofo político Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes, vítima de um enfarto nesta segunda-feira, 26 agosto, na capital paulista. O corpo será velado no Cemitério do Araça, hoje, das 8 às 12 horas. Posteriormente será levado para o Cemitério da Vila Alpina, onde será cremado.

Graduado e pós-graduado em Filosofia pela USP, Reginaldo lecionou durante vinte e seis anos no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); atuou em várias instituições, como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-Ineu); foi também um dos fundadores do Fórum 21, em 2014, participando ativamente da denúncia contra o golpe de 2016.

Defensor intransigente da democracia – e desde os tempos de resistência à ditadura, em sua juventude –, Reginaldo dedicou boa parte de sua produção intelectual às pesquisas em ciências políticas e sociais, em particular o estudo do Império, tornando-se referência em questões relacionadas aos Estados Unidos.

Recentemente, Reginaldo publicou pela Fundação Perseu Abramo (clique nos títulos e baixe as obras) “Capitalismo, Classe Trabalhadora e Luta Política no Início do Século XXI” (2017) (em coautoria com Márcio Pochmann), “Bloco de Esquerda e Podemos: dois experimentos de organização na nova esquerda europeia” (2016) e “Rural, Agrário, Nação: reflexões sobre políticas e processos de desenvolvimento na era da globalização” (2015).

Também publicou pela Editora Unesp: “Educação superior nos Estados Unidos” (2015), “O peso do Estado na pátria do mercado” (2013) e “As cidades cercam os campos” (2008, em coautoria com Maitá de Paula e Silva e Carlos Henrique Goulart Árabe), “Estado, desenvolvimento e globalização” (2006).

Era membro do Conselho Editorial da Carta Maior e colaborador assíduo tendo publicado inúmeros textos, sua inteligência mordaz, seu humor ácido, sua imensa capacidade de análise e síntese farão muita falta a todos nós neste momento. Sua morte é uma baixa irreparável.

Nos próximos trinta dias Carta Maior publicará uma seleção especial de textos, por ele produzidos ao longo dos anos e aqui publicados.

Aos seus familiares, amigos, orientandos, toda nossa solidariedade. E ao Regis, assim chamado por muitos de nós, nossa eterna gratidão.

Abaixo, seu último grito de indignação – em um tom mais alto do que o habitual –, encaminhado por ele a nós, neste domingo, 25 de agosto.

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Depois das panelas

Reginaldo Moraes

Passado o panelaço, pensemos mais a frio. O psicopata machão sujou a cueca. A frase é vulgar, como convém ao personagem. Até agora, a reação do panaca diante de qualquer crítica ou dificuldade era o padrão bozo de qualidade: ia para aquela câmera de vídeo, gravava uma "live" tendo ao lado um ministro e um general idiota. Falava espontaneamente para a sua galera. Era ele, sem tirar nem por. O autêntico idiota.

Lançava mais alguns insultos, umas piadas daquelas de manchão de padaria. Muito convencido de sua própria figura.

Agora, não. Mudou o padrão. Radicalmente, Foi à rede nacional de TV, isto é, da mídia do "sistema "como diria Carluxo, o pavão misterioso de Rio das Pedras.

E para dizer o quê? Contar alguma piada? Inventar alguma estória de ONGs incendiárias e motoqueiros fantasmas? Não, foi pedir arrego. Afinal, diz o chorão, gaguejando: incêndios florestais ocorrem em todo o mundo. E todo o mundo quer ajudar o Brasil, somos amigos de todos, o que aconteceu não justifica sanções, pelo amor de Deus! Só faltou o "Mamãe, não fui eu!"

Em suma, o psicopata sentiu o golpe? Médio, médio. Na verdade, está na cara que recebeu ordens para fazer o que fez. Quem deu a ordem para ir à TV e recitar esse discurso evidentemente escrito por outra pessoa? Banqueiros, generais? Ou, quem sabe, o papai Trump, que telefonou para puxar a orelha do banana?

O psicopata foi enquadrado e alguém (quem?) mandou que dissesse o que disse. Não era ele, ali, exposto na TV, inseguro e acuado. Por alguns minutos, pelo menos, o bozo-mito acabou. Quem falava, ontem, era a voz do dono. Não era o boneco.

Talvez, aliás, se a escalada de desgaste continuar nesse ritmo, não haverá mais ele, haverá o "sistema", agora, sim, botando o porco na coleira. Pode até acontecer uma transfiguração no governo.

Pode ser que Eduardo tenha que se despedir do sonho de embaixador. E Flavio perca a chance de nomear o chefe da PGR. Talvez Carluxo continue suas férias estreladas e se mude para Floripa com o primo. Pode ser que Micheque se dedique às obras de Deus. Não resolveria essa crise, o desmanche do país que protagonizaram. Mas seria um avanço. Pelo menos o ambiente ficaria menos fedido.



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