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''Boa sorte, senhor Assange!''

Neste sábado, o fundador do WikiLeaks comemorou 50 anos sozinho, em sua cela, na Grã-Bretanha. O filósofo esloveno Slavoj Zizek apela a não esquecermos Julian Assange, declarado inimigo público pelos Estados Unidos

04/07/2021 13:17

Stella Morris, advogada e companheira do fundador do WikiLeaks Julian Assange, e seu filho, diante de uma faixa com a imagem do seu pai, em 29 de junho de 2021 (Tolga Akmen/AFP)

Créditos da foto: Stella Morris, advogada e companheira do fundador do WikiLeaks Julian Assange, e seu filho, diante de uma faixa com a imagem do seu pai, em 29 de junho de 2021 (Tolga Akmen/AFP)

 
Neste 3 de julho, Julian Assange comemora 50 anos sozinho, em prisão de isolamento, sem qualquer condenação, mas aguardando extradição. Suprema ironia, seu aniversário chega na véspera do 4 de julho, comemorado nos Estados Unidos da América como o Dia da Independência - é como se o dia do nascimento de Assange estivesse aqui para nos lembrar dos aspectos sombrios não somente do "país da liberdade", mas da maioria das democracias ocidentais .

Quando a Bielorrússia forçou um avião da Ryanair, que deveria voar de Atenas a Vilna, a pousar em Minsk no dia 24 de maio para agarrar o dissidente bielorrusso Roman Protassevich, esse ato de pirataria foi condenado em todo o mundo. No entanto, não se deve esquecer que há alguns anos a Áustria fez exatamente a mesma coisa - forçou um avião que passava por seu espaço aéreo a pousar - com o avião do presidente boliviano Evo Morales; e isso por ordem dos Estados Unidos, que suspeitavam que Edward Snowden estivesse em seu interior tentando fugir da Rússia para a América Latina. (O cúmulo é que Snowden não estava no avião.)

Símbolo do lado negro das democracias ocidentais

Contra sua vontade, Assange se tornou um símbolo do lado negro das democracias ocidentais, um símbolo de nossa luta contra novas formas de vigilância digital e controle de nossas vidas que são muito mais eficazes do que as velhas formas "totalitárias". Muitos liberais ocidentais apontam que há países no mundo que exercem opressão direta muito mais brutal do que o Reino Unido e os EUA - então, por que tanto alvoroço por causa de Assange? Isso é verdade, mas nesses países a opressão é ostensiva e evidente, enquanto o que vemos hoje no Ocidente liberal é uma opressão que deixa nosso senso de liberdade praticamente intacto. Assange lançou luz sobre este paradoxo da não-liberdade experimentada como liberdade.

É por isso que todos os golpes baixos foram usados %u20B%u20Bcontra Assange. Medidas de opressão estão sendo tomadas contra aqueles considerados perigosos para o establishment: somente no Reino Unido, temos o MI6 controlando discretamente o recrutamento de funcionários públicos e dos órgãos de educação, sindicatos sob vigilância policial secreta, um controle oficioso dos conteúdos publicados pela mídia ou transmitidos pela televisão, menores de idade de famílias muçulmanas interrogados por supostas ligações com o terrorismo, até acontecimentos isolados, como a prisão ilegal contínua de Julian Assange ... Essa forma de censura é muito pior do que os "pecados" da "cultura do cancelamento" - por que então a vigilância da "cultura Woke" e do “politicamente correto” se concentra nos detalhes de nossas expressões, em vez de denunciar essas coisas muito maiores que acabamos de mencionar?

Acima de tudo, um homem que sofre há dez anos

Mas Assange não é apenas um símbolo, é uma pessoa que vive e sofreu muito na última década. O Dia da Independência é geralmente celebrado com fogos de artifício, desfiles, cerimônias e reuniões familiares ... mas uma família não se reunirá, a de Assange.

Segundo a fábula (e certamente não mais do que isso), as primeiras palavras ditas por Neil Armstrong após dar o primeiro passo na lua, em 20 de julho de 1969, não foram as oficialmente relatadas "É um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade", mas esta observação enigmática, pronunciada pouco antes de entrar na cápsula:" Boa sorte, senhor Gorsky!" Muitas pessoas na NASA imaginaram que esta era uma observação irreverente sobre um cosmonauta soviético rival. Mas, após verificarem, não havia Gorsky nos programas espaciais russo ou americano. Foi só em 5 de julho de 1995, respondendo a perguntas após um discurso, que Armstrong explicou o enigma: em 1938, quando criança, em uma pequena cidade no meio-oeste, estava jogando beisebol com um amigo no quintal. Seu amigo rebateu a bola, que caiu no quintal de seus vizinhos perto da janela do quarto. Seus vizinhos eram o Sr. e a Sra. Gorsky. Ao se abaixar para pegar a bola, o jovem Armstrong ouviu a Sra. Gorsky gritar para o Sr. Gorsky: “Sexo! Voce quer sexo? ! ... Você fará sexo quando o garoto ao lado andar na lua!" Isso é o que literalmente aconteceu trinta e um anos depois ...

Do morto-vivo ao herói do nosso tempo

Escutando essa anedota, imaginei uma versão com Julian Assange. Eis o que a cena poderia ser: durante uma visita à prisão de sua parceira, Stella Morris, e quando eles se encontram separados pela divisória de vidro espessa de costume, Julian Assange se vê sonhando com um contato íntimo com Stella, e ela responde: "Sexo! Você quer sexo? ! … Você fará sexo quando caminhar livremente pelas ruas de Nova York, celebrado como um herói de nosso tempo!" - uma perspectiva não menos utópica do que imaginar em 1938 que um humano andaria na lua. É por isso que devemos colocar toda a nossa energia para alcançar este objetivo, com a esperança de que daqui a trinta e um anos possamos dizer com toda a sinceridade: "Boa sorte, Sr. Assange!"

De acordo com o título da música dos Rolling Stones ("Time is on my side"), aqueles que estão no poder presumem que o tempo está do seu lado - eles apenas teriam que continuar a manter Assange naquela situação de morto-vivo para que terminemos esquecendo-o. É nosso dever provar que estão errados.

Nascido em 1949 em Liubliana, Slavoj Zizek é um dos filósofos mais influentes da esquerda radical. Inspirado por Hegel, Marx e Lacan, é autor de uma importante e prolífica obra. Recentemente, publicou na Actes Sud: "Dans la tempête virale" , traduzido do inglês por Frédéric Joly, e cuja integralidade dos direitos autorais serão doados a Médicos Sem Fronteiras.

*Publicado originalmente em 'L'Obs' | Tradução: Aluisio Schumacher

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