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''Gilberto Gil fez o Ministério da Cultura existir''

A sinergia entre as ações do Teatro do Oprimido e Os Pontos de Cultura, a preocupação com o patrimônio da humanidade que se deteriora no Brasil, um balanço do ministério Gil e as perspectivas em relação ao segundo mandato do presidente Lula estão nesta segunda parte da entrevista com Boal

13/11/2006 00:00

Leia a seguir, a segunda parte da entrevista exclusiva que Augusto Boal concedeu à Carta Maior no dia 7 de novembro. A primeira parte foi publicada no dia 10 (veja link ao fim desta matéria).

CM – Antes que me esqueça, quero transmitir o agradecimento do Emir Sader por você ter assinado o manifesto em sua defesa no caso da condenação em processo movido pelo senador Bornhausen (leia aqui)...
AB – Eu tive uma idéia, que acho até melhor do que simplesmente assinar o manifesto. Deveríamos pegar o artigo do Emir que gerou esta condenação e republicá-lo, assinado não mais pelo Emir, mas por todos os que aderiram ao manifesto. Começar, por exemplo, com Antonio Candido, este emblema da intelectualidade brasileira, ou com juristas, como o Fábio Konder Comparato. Isso para mostrar que não se trata de um arroubo de jovens românticos, ou até mesmo de velhos românticos, mas para mostrar que é algo baseado na lei, para mostrar se temos ou não o direito de falar o que o Emir expressou! Podemos, assim, assinar como co-autores. O que fará o juiz? Processará todo mundo? Condenará todos a perderem seus empregos? A mim me parece que um político que chama um milhão de petistas de “raça” da qual se quer livrar, esse sim, me parece que comete uma falta grave, passível de punição por lei.

CM – Como está a crise que envolve o risco de o Teatro do Oprimido perder sua sede no corredor cultural da Lapa?
AB – Eu soube, não estava lá, pois estava viajando por ai, que o Sérgio Cabral, governador eleito do Rio, foi ao corredor cultural da Lapa e disse ao Amir Haddad, que o recebeu, que seu primeiro ato seria resolver este problema um tanto intricado, pois envolve pastas diversas, como a da Secretaria da Cultura e outras. Parece que o compromisso é o de mais 10 anos de concessão de uso, pois todos os ocupantes fizeram várias reformas, muito caras, que embelezaram e melhoraram a Lapa, potencializando o caráter de atração turística e cultural da região. Tenho absoluta certeza de que, diante do empenho pessoal do Sérgio Cabral, esta questão será resolvida com rapidez.

CM – Recentemente o Centro de Teatro do Oprimido passou a ser um dos Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura...
AB – Na verdade, é o chamado “pontão” de cultura. Nós temos a obrigação de apoiar outros centros de cultura pelo Brasil afora. Há oito regiões nas quais estamos dando este apoio, e isso inclui Moçambique e Guiné-Bissau; os pontos de cultura de cada uma delas inscrevem-se e mandam representantes para que ensinemos todas as técnicas de Teatro do Oprimido para que eles próprios as desenvolvam em seus pontos de cultura. Assim, somos um ponto de cultura propriamente dito, com atividades dentro de nosso centro, e também somos um “pontão de cultura”, como fomos apelidados por este caráter multiplicador.

CM – Como isso impacta o trabalho de vocês?
AB – Este convênio veio absolutamente ao encontro dos nossos objetivos que passam pelo desejo de multiplicar tudo aquilo que é bom do ponto de vista artístico e social. Se o Teatro do Oprimido está sendo útil em 50 países, no Brasil ele tem que ser mais útil ainda, tem que se multiplicar e disseminar-se. Neste sentido, estamos inteiramente sintonizados com o Ministério da Cultura.

CM – A iniciativa partiu de vocês ou do Ministério da Cultura?
AB – Partiu do MinC. Nós já tentávamos fazer isso sem meios nem recursos para tanto. O Gilberto Gil teve, então, a idéia luminosa de colocar em prática aquilo que era um desejo nosso desde 1989, na primeira campanha do Lula: todo mundo queria locais para a cultura, que eles chamavam de “barracões de cultura”, “centros de cultura” e outros nomes . O Gil batizou de Pontos de Cultura esta iniciativa democrática, diferente dos CPCs [Centros Populares de Cultura] que eram formados de cima para baixo. O que o Gilberto Gil fez foi verificar quais os pontos de cultura que já existiam sem recursos no Brasil inteiro e deu-lhes recursos para que se desenvolvessem.

CM – Extrapolando esta questão dos Pontos de Cultura, qual avaliação você tem da administração do Gil frente ao Ministério da Cultura durante este primeiro mandato do Lula?
AB – O Gil finalmente fez com que o Ministério da Cultura passasse a existir. Pois, antes, o MinC era uma organização burocrática que só existia no papel. Eu me lembro, por exemplo, de um fato ocorrido há cinco anos, que ilustra esta questão: em um quartel em São Paulo, havia a obrigatoriedade de um vigia ficar em uma torre sem fazer nada, só olhando. Um belo dia, o vigia teve a brilhante idéia de colocar um boneco com a farda em seu lugar e deixou-o lá com espingarda e tudo e desceu, com roupas de civil, para tratar da vida. O Ministério da Cultura, até a entrada do Gil, funcionava como aquele vigia, ou seja, não tinha ninguém lá, só figurativamente, nada se fazia, ou muito pouco se fazia. E o Gil veio e revelou-se uma surpresa maravilhosa, pois muitos achavam que ele não ia dar certo, mesmo sendo o grande compositor e cantor que é, muitos julgavam que ele não teria o mesmo brilho em uma função administrativa.

CM – Em termos de projetos e programas, o que você destacaria na atuação do Gil no Minc?
AB – Além dos Pontos de Cultura que, ao meu ver, foi a ação mais importante, eu destacaria a mudança que se observa no cenário do cinema nacional. Passamos a ver filmes baianos, pernambucanos etc. Uma verdadeira descentralização no eixo da produção cultural. Agora, eu gostaria de ver também filmes do Amazonas, do Tocantins, do Mato Grosso, do Ceará, do Piauí etc. Mas o simples fato de já termos visto boas produções nordestinas já é um enorme avanço.

Para não ficar num discurso apenas laudatório, acho que faltou uma atenção especial à Serra da Capivara, no Piauí. Trata-se de um inestimável patrimônio da humanidade que se encontra sem recursos de preservação e estudo. Torço para que, neste segundo mandato do Lula, e do Gil, pois espero que ele continue, uma atenção especial seja dada ao Parque Nacional da Serra da Capivara e ao Museu do Homem Americano, além de outros patrimônios semelhantes que se espelham pelo Brasil, como em Minas Gerais, com suas cavernas também ricas em inscrições rupestres que se constituem patrimônio da humanidade, além de oferecer um grande potencial de exploração econômica. Quem saberia, por exemplo, da existência de Altamira, na Espanha, ou Lascaux, na França, se não fossem as cavernas conservadas e preparadas para a exposição pública?

CM – Quais suas perspectivas para o segundo mandato do Lula?
AB – Bem, o Lula já prometeu, logo depois de reeleito, portanto não é promessa de campanha, que este mandato será muito melhor do que o primeiro. Acho que o primeiro, só com a bolsa família e outros programas sociais que ele implantou, já representou um passo gigantesco se pensarmos que 11 milhões de famílias, traduzidas num montante de 40 milhões de indivíduos, passaram a comer... isso é algo inestimável! Agora ele promete que será muito melhor. Isso deve significar que haverá mais desenvolvimento, mais cultura, mais reforma agrária, mais de tudo aquilo que estamos há tanto tempo esperando...

CM – Você julga que, no primeiro mandato, ele não teve condições de atender a estas demandas que promete contemplar agora no segundo?
AB – No primeiro mandato ele teve condições de arrumar a casa, seja no campo da cultura, das relações exteriores, da educação, da Polícia Federal, do Ministério da Justiça, da economia... Agora, como a casa está arrumada, a expectativa é a de que o avanço seja mais rápido e contemple questões que ainda não foram cabalmente resolvidas.

CM – Se você fosse recebido pelo presidente Lula em audiência e pudesse apresentar uma pauta mínima de reivindicações pontuais, quais seriam?
AB – Na cultura, que o Gil permaneça e multiplique sua ação, se possível com mais recursos. No campo da Relações Exteriores, que continue a aproximação com a África, com a Ásia e com a América Latina. Que se faça a Reforma Agrária com urgência e que se preste atenção especial ao caso da Serra da Capivara. São tantas coisas urgentes!

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