Mídia

Edição extra - LITERATURA LANÇAMENTO
O Primeiro Filho

15/05/2002 00:00

Sinto-me inchado, os pés doem, os enjôos que já foram mais intensos hoje são esporádicos. Sinto-me quase a explodir, qual a mãe no oitavo mês. Falta pouco: dias separam-me do rebento. Ansiedade, dificuldade para dormir... todos me acham chato-insuportável pois só falo nisso, e quando não falo, para não aborrecer os que estão em volta, invariavelmente estou pensando no assunto.



E meu filho não é de carne, não corre sangue em suas frágeis veias, mesmo porque ele não as tem. Não tem ossos, não tem olhos nem a penugem que caracteriza os bebês. Minha produção independente é de papel. Na capa, uma belíssima foto do talentoso fotógrafo e querido amigo Edson Reis. Tem o formato padrão, nem pré-maturo nem acima do peso: do tamanho ideal. O menino já tem nome, Lâmina do Tempo, e um sobrenome que aponta no frontispício, tímido, mas não toma a capa: ‘e outras histórias do amor’. Sim, do amor, com “o’”, porque o amor é maior. E neste pequeno volume de 152 páginas e 25 contos, as relações entre os indivíduos, pontuadas pelo amor e permeadas pelo tempo, se desenrolam.



Há textos antigos, há outros recentes. Neste ponto, vejo que a gestação de alguns deles durou, ao contrário dos nove meses tradicionais, mais de dez anos. Nasceram em época em que sequer pensava em transformá-los em livro. Há um conto escrito em 1991, Outono, modificado e reescrito ao longo de todos esses anos. Há textos do final de 2001, como O Jantar. Há amores entre amigos, inimigos (dois amantes o que são: dois inimigos), irmãos, desconhecidos, vizinhos. Há dissonâncias e sintonias.



O mais interessante é o trabalho que este pequeno tem me exigido. Revisões e mais revisões e mais releituras. O escritor sempre acha que uma virgulazinha aqui, uma outra palavra ali, sempre dá para mexer. Mário de Andrade modificou todas as edições de Macunaíma até morrer. Otto Lara Resende, reescreveu seu romance único, O Braço Direito, obsessivamente, também até a morte. Se formos pensar nisso, o livro não sai nunca da gaveta, mesmo porque nem todo mundo é um Otto ou um Mário de Andrade. Na última leitura, definitiva, tive a preciosa ajuda do Eduardo Carvalho, amigo de longa data, grande escritor e meu professor de redação na tenra infância, quem diria?!



Depois do texto terminado, teoricamente, ele vai para a diagramação. Ligava para meu editor todos os dias, até que ele falou: quando estiver pronto, eu aviso. Plínio Martins Filho, homem empenhado na arte de produzir objetos de papel repletos de letrinhas, destinados à leitura, que as pessoas costumam chamar de livro. Em sua coluna, Entre Livros, na Revista Cult do mês de maio, João Alexandre Barbosa, crítico renomadíssimo, destaca o professor Plínio (Ateliê Editorial e Edusp), junto com Cláudio Giordano (editora Giordano), Jacó Guinsburg (Perspectiva) e Samuel Leon (Iluminuras) como os quatro editores no Brasil que, à revelia do mercado, sobrevivem produzindo por pura paixão e teimosia, preciosidades no mundo dos livros.



O Plínio ligou. Passei na editora, adorei o projeto gráfico do Ricardo Assis: uma letra bacana, um espaçamento legal. O professor me explicou: “O Ricardo é um dos caras que melhor distribui o texto no papel, o texto fica agradável, não cansa quem está lendo. Eu prezo muito isso”. Gostei também da numeração das páginas na parte superior das mesmas, coisa sutil e de bom gosto. Levei a prova para casa, achei lá umas 15 ou 20 coisinhas a serem modificadas. Pouca coisa para quem é chato e exigente.



Passo dois: a capa.



A foto já havia sido escolhida, faltava pensar em como utilizá-la. Quebrei a cabeça, meu amigo Paulinho de Carvalho, que além de tudo, escreveu o texto da orelha, um presente inestimável, que só ele poderia fazer, por sua sutileza e sensibilidade poética, sugeriu a utilização de parte da foto, com algo fazendo sombra nas laterais, tarjas negras a emoldurar o centro expressivo da imagem. Mandei a idéia, o Ricardo realizou. Depois de alguns dias, tudo estava pronto.



“Vou mandar tirar os filmes”, anunciou, como o sujeito que fala, pomposamente, na noite de premiação de Hollywood: “And the Oscar goes to...” Depois disso, ainda veio a cópia heliográfica, a última chance de mudar qualquer coisa.

Reli o livro, duas ou três pequenas modificações. Devolvi no dia seguinte, e lá foi meu filhote rumo às ruidosas máquinas de corte e impressão.



Passo três: chamar o pessoal.



Nestas horas, a gente sai procurando todas as agendas utilizadas nos últimos dez anos: chama o pessoal da faculdade, de todos os empregos em que trabalhou, pessoal do clube, do futebol semanal, da igreja em que fez a Primeira Comunhão, da rua em que mora e as outras todas em que um dia morou, até gente que estudou com você na quinta série. Nos dias que antecedem o lançamento do livro, todos são convidados em potencial: o médico que cuida da sua avó, o dentista da irmã, o cara que tomou conta do carro, o porteiro do prédio. A gente parece moleque convidando todo o mundo para o aniversário.



E convidar as pessoas para o evento exige uma paciência redobrada. A inimiga número um do processo é a Telefônica. Se você não vê a pessoa há pelo menos uma semana, o risco do telefone ter mudado é grande. Imagine se passados meses ou anos! Quando não avisam que o telefone não existe, informam que mudou e o novo, só ligando para eles, narcisistas que são.



Mudei então de estratégia: ao invés de ligar para todo mundo, comecei a telefonar para os amigos mais chegados, pedindo que chamassem os mais chegados deles para o lançamento, e assim por diante. Espero que dê certo. Estava histérico achando que seria um fracasso total quando li o Loyola Brandão dizendo que, no seu último lançamento, em que autografou por mais de quatro horas seguidas, ao chegar ao local teve um arrepio e um receio: “acho que não vem ninguém!”



Se ele que tem uma prole imensa tem este receio renovado a cada livro, imagine eu, marinheiro de primeira viagem, todo bobo com a chegada do meu primeiro filho.



Enxoval a postos, as primeiras contrações ameaçando, a família na maior expectativa. Sá resta aguardar por ele. E que venha cheio de saúde, força e longevidade, o meu menino.



SERVIÇO:



Lançamento



Título: Lâmina do Tempo


Autor: Moacyr Moreira


Editora: Ateliê Editorial



São Paulo: 20 de maio no Bar Balcão (R. Melo Alves, 150)

a partir das 20 horas



Rio de Janeiro 22 de maio na Livraria Fnac (Barra Shopping)

a partir das 19 horas, com leitura de textos




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