Mídia

1968(2): O confronto inevitável.

09/05/2008 00:00

Entre as recordações do ano de 1968, uma enche meus ouvidos. É o que chamo, falto de outra metáfora, de um “ruído molhado”. É um ruído contínuo, sem altos nem baixos, só contínuo, entrecortado por outros, de gritos, imprecações, palavrões e outras rimas sem solução. Era o ruído de cassetetes batendo em gentes, e ele sempre vinha chegando maisn perto, perto, até que se rompiam as fileiras à frente e tínhamos de correr do tropel de brigadianos (os policias militares do sul) que se vinham atrás de nós.

Como descrever essa contínua cena que, de 1965 a 1968, tomou conta das praças e ruas do país e do mundo. Era um ritual, sem dúvida. Talvez o ritual da “palavra honrada”. Porque íamos para as passeatas e manifestações sabendo o que ia acontecer. Mais cedo ou mais tarde a polícia irromperia, para retomar e fechar o espaço público, já que este era o ideal do golpe de 1964, a auto proclamada Revolução Irreversível que queria construir o paradoxo da República sem Povo. Mas ainda assim marchávamos, como rebanho de heróis para o matadouro.

Tivemos poucas vitórias, muitas derrotas. Naquela Porto Alegre onde crescíamos, e éramos estudantes e professores ao mesmo tempo, só me lembro de uma como realmente inesquecível: um companheiro, cujo nome nem hoje vou revelar, pôs um brigadiano abaixo de seu cavalo com certeiro abacataço, com fruta colhida numa quitanda ao léu. De resto gritávamos, corríamos e apanhávamos muito, muitos eram presos, alguns ficavam para o rescaldo posterior. Houve braços quebrados, costelas partidas, hematomas gerneralizados. Em Porto Alegre poucas vezes as armas de fogo foram utilizadas. Noutras partes do país, foi pior: houve tiroteios, e as vítimas eram sempre do nosso lado.

Em outras partes do mundo houve confrontos trágicos. Na França, é verdade, a polícia jamais teve autorização para usar armas de fogo. Mas no México elas entoaram sua matraca (outro som) sobre os estudantes na Praça de Tlateloco, matando muitos e ferindo mais. No ano seguinte, nos Estados Unidos, a Guarda Nacional disparou sem provocação contra estudantes que protestavam contra a Guerra do Vietnã em Kent, Ohio, matando três e ferindo outros. No Rio, em S. Paulo, em Recife e outras cidades houve mortes nos confrontos. E na surdez dos porões preparava-se o festival de gritos e torturas que emudeceria o país durante os anos seguintes.

Aquele ruído “molhado” a que me referi tinha sua razão de ser. Até 1967 a repressão maior era feita pela “Polícia de Choque”, um batalhão especializado que, junto com guardas da polícia civil, usava cassetetes de borracha, curtos e que deixavam vergões, mas não abriam a pele. A partir de 1967 a repressão modernizou-se! Com apoio de agências norte-americanas, os policiais e militares brasileiros passaram a aprender técnicas mais sofisticadas de tortura, além das tradicionais porradas, queimaduras com ponta de cigarro, telefones (golpes de mão espalmada em ambas as orelhas), choques elétricos com a maricota (pequeno gerador capaz de produzir choques de até 220 volts). Em aulas dadas em quartéis e outras dependências militares, aprenderiam a daer choques elétricos nas gengivas e outras partes sensíveis do corpo, como o sexo, o ânus, a planta dos pés, os lóbulos das orelhas, quando a corrente elétrica atravessa a cabeça da vítima. A grande contribuição nacional para este festival de civilização parece ter sido o pau-de-arara, de largo uso desde a escravidão, que foi amplamente utilizado pelos pára-quedistas franceses na Argélia, e que não poucas vezes provocou a morte das vítimas pela falta de circulação sanguínea nas pernas, que provocava gangrena.

Essa modernização chegou às ruas e praças. Os cassetetes de borracha foram substituídos por cassetetes de madeira, longos, e os policiais ganharam escudos de plástico transparente, além de máscaras anti-gás que lhes permitia navegarem por entre os rolos de fumaça que suas bombas lacrimogênias levantavam. Ao invés dos batalhões de choque a polícia militar derramava hordas e hordas de recrutas mal treinados sim, mas treinados para bater e escorraçar os estudantes, os trabalhadores e o povo em geral das ruas e das praças.

Em 1967 houve o último confronto entre os diferentes cassetetes. Numa manifestação em que na Praça da Matriz, em Porto Alegre, os estudantes corremos em direção ao Palácio do Governo, os cassetetes de borracha que, curtos, convidavam à proximidade do confronto pessoal, se provaram insuficientes para conter a correria. Só as longas espadeiradas dos de madeira contiveram os estudantes, e os confinaram dentro da Catedral Metropolitana, onde, perante a pusilanimidade oficial daquela Santa Madre Igreja, a pancadaria continuou. Dali para frente, só houve os longos cassetetes, os longos escudos, as longas baionetas, as cargas de cavalaria, as longas noites de espera por companheiros e companheiras que às vezes não voltavam. Alguns não voltaram até hoje.

Nós estudantes, procuramos algumas armas. Tirando o valente abacataço do colega anônimo, se provaram insuficientes. Contra os cavalos, usávamos bolinhas de gude e rolhas de cortiça. Mas Porto Alegre se modernizava. Muitas ruas tinham sido asfaltadas. No abaulado de seu leito, as bolinhas de gude deslizavam para a sarjeta. Nas ruas com paralelepípedos, as rolhas estancavam nos interstícios, e os cavalos nelas não escorregavam. E como se defender dos brutamontes que caíam sobre nós de cassetete em risco? Só correndo.

Após batalhas insanas, em que íamos para o confronto armados só de palavras, perdemos as praças e as ruas. A partir de outubro, as manifestações arrefeceram, caiu a maioria dos líderes, e elas por fim desapareceram de cena. Em seu lugar, cresciam as adesões à luta armada, de maior ousadia e que prometia algum tipo de resposta à altura da violência do regime.

Ganhamos pelo menos, aqueles que até hoje não desistimos, nossos corações e mentes. Fomos nos treinando para encarar a superioridade bélica do inimigo, e em todas as frentes, até nas simbólicas, como hoje temos que nos bater na imprensa e na mídia. Ganhamos o direito – que deve sempre ser usado com sobriedade – de nos olharmos nos espelhos e não fugirmos do rosto que vemos. Libertas quae sera tamen, como dizia o líder mineiro, na sua proverbial moderação.


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