Mídia

1984

16/04/2002 00:00

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Parecia um pesadelo. Agora que já passou, sinto-me à vontade para lhes contar. Mas será que já passou, já acabou mesmo?



Confesso que não conhecia e sequer ouvira falar sobre aquelas pessoas de quem eles falavam com tamanha familiaridade, ou sobre aqueles acontecimentos dos quais discorriam com tanto entusiasmo. Parecia uma espécie de conspiração. Meu Deus, por que eu não sabia de nada daquilo!? Parecia que estava vivendo em um mundo à parte. Sentia-me um estrangeiro na minha própria pátria. Parecia que haviam me colocado, de súbito, em uma realidade da qual não tinha a mínima compreensão.



Sim, o ano era o de 2002. E aquele era um dia normal como outro qualquer, para mim, pelo menos, que tenho um emprego, um teto para morar, faço três refeições ao dia e tenho uma razoável compreensão do mundo que me cerca. A minha rotina transcorria sem nenhum mistério ou novidade. Rotina, apenas isso. Se bem que o céu estava incrivelmente azul para uma paisagem pardacenta como a da cidade de São Paulo. Mas era um dia da semana como outro qualquer e, tenho certeza, não estava sonhando, e sim acordado.



Que assunto era aquele que eles compartilhavam com tamanha e prazerosa cumplicidade?



Essa situação me fez lembrar aquele personagem de Kafka em O Processo, que é arrebatado de sua confortável rotina e envolvido numa situação “surreal” que foge completamente à sua compreensão e controle, em sua absurda e apavorante impossibilidade. Um cidadão comum é acordado e, ainda em sua cama, recebe voz de prisão de dois oficiais da lei que o conduzem num intrincado labirinto de estranhamento e horror. Era como se o germe da insânia se apoderasse repentinamente de sua mente “saudável”. Um homem de bem passava a ser tratado, de repente, como um criminoso.



Sou muito ensimesmado e não costumo prestar atenção no que as pessoas à minha volta falam. Não me interesso por fofocas e conversas alheias, pois as suponho de antemão desinteressantes. Mas, nesse dia, percebi que todos falavam sobre o mesmo assunto e sobre as mesmas pessoas. O porteiro e os vigilantes do prédio, os passageiros no trem a caminho do trabalho, os motoristas no ponto de táxi, os guardas da esquina, as “margaridas” que coletam o lixo das ruas. Seria eu uma espécie de Truman, o desavisado personagem do filme "The Truman´s Show"? Aquele tipo interpretado por Jim Carrey, cuja vida, à sua revelia, é apenas uma trama novelesca, um espetáculo transmitido pela TV, em tempo real, 24 horas no ar. Teria me tornado um mero coadjuvante de um grande show? Será isso a vida!? Que loucura!



Escutava as pessoas falarem: "Eu acho que o baianinho lá vai ganhar". E eu me irritava, pois sou baiano e não me acostumo com essa expressão "baianinho". Outro falava: "Acho aquele cara muito ´armador`. No final, ele vai quebrar a cara". Na mesa do restaurante uma mulher falava para outra: "Aquela ´branquela` de óculos lá é muito esquisita e sonsa". Sua interlocutora assentia: "Ela, de mansinho, está fazendo a cama dos outros". No meu trabalho, o operário que descarregava pesadas caixas de um caminhão falava para o seu chapa: "Eu acho que aquele ´escurinho` bicha vai ganhar a ´parada`". Quando finalmente, já à noite, no trem, voltando para casa, alguém deu nome aos "bois". "Eu acho que aquele namoro do ´gringo` com a Vanessa é armação para aumentar o Ibope”. Outra pessoa disse: “Aquele Bambam é meio ´xaropão`, meio retardado, sei lá. Né não?".



Estavam falando do "novo" programa da Globo, o Big Brother Brasil. Todas as pessoas à minha volta só falavam nisso. Por um bom tempo, creio que dois meses, esse foi o assunto que monopolizou as conversas. Parecia que estavam todos hipnotizados, ou sob a batuta de um maestro invisível em sua onipresença e onisciência. Coisa de ficção. Algo semelhante àquela obra de George Orwel, 1984, cujo Grande Irmão empresta o nome ao programa. Um romance escrito no pós-guerra, em 1949. Um texto literário que retrata uma
realidade apavorante, um Estado totalitário que a todos controlava e submetia. À época, uma alegoria às ditaduras que desejaram impor suas ideologias, como o fascismo, o nazismo e o "stalinismo". Mas é, ou era, à época em que foi escrita, apenas uma obra de ficção.



Uma obra de ficção, fruto da criatividade de um escritor, de um homem de gênio? Uma engenhosa alegoria? Uma premonição ou profecia que ora se cumpre? 1984 já chegou e, parece, nem nos demos conta. A televisão é o Grande Irmão, o Big Brother. A tudo e a todos controla. Elege candidatos à Presidência, dita modas e comportamentos. A mania dos reality shows propaga-se como uma peste medieval pelo planeta. É a “mediocrização globalitária”, um dos efeitos danosos e perversos da globalização.



Já havia experimentado essa sensação – numa escala menor, evidentemente – há alguns anos atrás, quando no meu trabalho as pessoas só conversavam sobre a novela das oito. Discutiam os rumos e os problemas dos personagens como se estes fossem pessoas de carne e osso. A vida real era vilipendiada, posta de lado. Sentia-me insuportavelmente só. Eu ainda estava "antenado" e preocupado com as coisas do mundo real. Talvez a solução seja enjaular a vida real na televisão.



Como? Ah, é isso mesmo que estão fazendo? Ah, bom. Então tá. Mas qual o nosso papel nisso tudo mesmo? Ah, sei: de mero espectador. Quem sabe um dia sejamos todos abençoados pelo sopro benfazejo da fama e nos tornemos “celebridades”. Tá combinado.




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