Mídia

A Cinédia

10/06/2004 00:00

Agência Carta Maior

Fundada em 15 de março de 1930 pelo jornalista, produtor e cineasta Adhemar Gonzaga, a Cinédia foi a primeira experiência de cinema industrial bem sucedida da história do cinema brasileiro. Fruto das campanhas de defesa em prol da existência de uma cinematografia nacional, empreendidas na década de 20 por revistas de cinema como Cinearte, Selecta e Para Todos, a empresa tinha por objetivo primordial a constituição de um cinema técnica e esteticamente conseqüente, assim como a continuidade da produção e a sua inserção no mercado exibidor. Nesse sentido, procurou modernizar os processos, técnicas, equipamentos e estratégias de comercialização, tendo como referência o modelo de indústria cinematográfica norte-americana. Cercou-se ainda dos melhores profissionais e artistas em atividade no país e procurou transformar sua infra-estrutura em uma base pedagógica para formação de mão-de-obra especializada.










Responsável ao longo de quase 75 anos de atividades por 53 longas metragens, 700 cinejornais e mais de 200 documentários e filmes ficcionais de curta metragem, tem seu período de ouro na chamada era dos grandes estúdios, que se estende até o final dos anos 50. Nesta época, torna-se pioneira na introdução de inovações tão importantes quanto decisivas como o estúdio de filmagem, a captação e reprodução ótica do som, a revelação automática, a copiagem com marcação de luz, a mixagem, a grua, os efeitos especiais, a maquete, a cenografia em gesso e o playback, entre outras. Desenvolve igualmente importante trabalho de organização de uma infra-estrutura de comercialização de filmes, criando em 1933 a Distribuição Cinédia. A seção logo cresceria e seria generosamente ofertada à classe cinematográfica, constituindo-se uma distribuidora coletiva dos produtores brasileiros, a Distribuidora de Filmes Brasileiros (DFB), maior empresa do setor na década de 30 e responsável pelo lançamento de alguns dos maiores sucessos de público da década como Alô, Alô, Carnaval! e Bonequinha de Seda.





Impulsionado por um pensamento de caráter nacionalista que colocava o cinema no centro do processo de desenvolvimento da economia e da sociedade brasileiras, Gonzaga associou muito mais do que um bom acabamento técnico aos seus filmes como produtor. Em uma primeira fase, dá ampla liberdade aos realizadores, incitando-os ao experimentalismo estético e à ousadia temática, consagrados no clássico Ganga Bruta, dirigido por Humberto Mauro em 1933. Com o advento do cinema sonoro e o aumento dos custos de produção, redireciona a linha de trabalho para o universo da música popular, introduzindo o leque de temas, posturas, artistas e enredos que mais tarde configurariam a chamada chanchada. De Voz do Carnaval, passando pelo clássico Alô, Alô, Carnaval, e chegando ainda a títulos como Está tudo aí e Caídos do Céu, toda uma linhagem vai se construindo em torno do carnaval, do malandro, da oposição à cultura erudita, no que viria a ficar conhecido recentemente como modernismo carioca.



Paralelamente a esta produção de caráter mais popular, rápida e singela, Gonzaga insiste em um núcleo de títulos mais ambiciosos, seja do ponto de vista do acabamento, seja do ponto de vista temático e político. Obras como Bonequinha de Seda (1936), Romance Proibido (1944), Pureza (1940), 24 horas de Sonho (1941) e Um Pinguinho de Gente (1947) procuram evidenciar as possibilidades de realização do estúdio e discutir a diferença de classes, a perseguição política, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial e a progressiva mudança de costumes em um país cada vez mais compromissado com o advento industrial. Por vezes, uma e outra linha se confundem em obras como Berlim na Batucada (1944), ousada e paródica versão da passagem do cineasta norte-americano Orson Welles pelo Brasil, no bojo da chamada Política de Boa Vizinhança. Comédia musical clássica, flerta ainda com a relação de amor e ódio com o cinema americano, com a metalinguagem e com o registro documental mais direto, oferecendo um autêntico samba de terreiro filmado no morro do Telégrafo, em que figuraria inclusive a lendária D. Zica, mulher do sambista Cartola.





Boa parte dessa produção introduz no cinema nomes renomados do teatro e da música brasileira como Procópio Ferreira, Carmen Miranda, Gilda Abreu, Francisco Alves, Oscarito, Trio de Ouro (Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Coelho), Déa Selva, Marlene, Anselmo Duarte, Dircinha Batista, Jaime Costa, Lamartine Babo, Cyll Farney, Vicente Celestino, Átila Iório, Dercy Gonçalves, Bando da Lua, Dulcina de Morais, Dick Farney, Paulo Gracindo, Mesquitinha, Mário Reis, Colé, Grande Otelo, Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Virgínia Lane e Emilinha Borba, entre muitos, muitos outros.



A Cinédia foi detentora durante décadas do recorde de bilheteria do cinema brasileiro, com o campeoníssimo O Ébrio (1946), visto até hoje por mais de 8 milhões de espectadores, e é a empresa cinematográfica brasileira mais antiga ainda em atividade no Brasil, completando em 2005, 75 anos de existência.



A Cinédia Estúdios Cinematográficos conta atualmente com ampla infraestrutura para filmagem em estúdios e pequenas locações. Está localizada no bairro de Jacarepaguá. A Cinédia desenvolve também projetos culturais no campo da restaurações de filmes, edição de livros e pesquisa para documentários.






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