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A História da Civilização e o Bloco de Notas

31/01/2002 00:00

Hoje li uma crônica de Luís Fernando Veríssimo na qual ele diz que a história da civilização teria sido outra se, antes de inventar a roda, o homem tivesse inventado o bloco de notas. Ele se refere ao fato de o ser humano ter uma memória pífia, que se perde em frações de segundos e que fica a impressão de que as melhores idéias são as que a gente esquece.



Conta que raramente tem um bloco de notas nas mãos e que hoje, excepcionalmente, anotara uma frase para lembrar uma idéia que lhe pareceu adequadíssima para a crônica do dia: conhece-te a ti mesmo, mas não fique íntimo. Ficou a frase no papelzinho, mas esqueceu a idéia que lhe deu origem.



Ficou famosa a história do cientista brasileiro Gago Coutinho, que vivia afogado em pequenos papéis em que tomava notas compulsivamente, e durante a visita de Einstein ao Brasil, manteve seu ritmo. Teria dito o sábio, ganhador do prêmio Nobel, que se tomasse nota com tanto vigor de tudo que lhe viesse à mente, teria descoberto todos os segredos do universo, escarnando com sutileza relativa o afoito anotador de pensamentos.



Está mais do que provado que ficar tomando notas de tudo que passa pela veneta não leva a muita coisa, (afinal , qual o grande feito do tal Gago Coutinho?) além de encher a casa de papéis de todo tipo, que serão jogados fora num dia de faxina mais pesada.



Encontram-se guardanapos, espécimes mais solicitados em situações de idéias geniais de emergência, papéis de embrulho e até pedaços de papel higiênico, com frasezinhas tolas que, no momento da criação, pareceram a maior revolução no mundo das idéias, mas, ao serem lidas no dia seguinte, não valem tanto o esforço que causaram.



Concordo com Veríssimo que a nossa memória não vale um tostão furado e talvez seja isto mesmo que nos faça tão peculiares: no aperto, dizemos que aquela idéia ‘monumental’ que resolveria todos os problemas, aquele verso de ouro que daria fecho inesquecível a um poema está ali, na ponta da língua, quase concreta, mas... infelizmente, foi levada pela brisa contínua dos fluxos inofensivos de pensamento e se perdeu.



Talvez esta esperança vã, de que aquela idéia genial esquecida possa um dia voltar melhorada, ou ainda, que uma nova e mais genial possa surgir a qualquer momento, caracterize-nos como uma raça em constante aperfeiçoamento e perene evolução.



Na verdade, contei tudo isso para dizer algo muito inteligente que me assaltou de banda enquanto lia a crônica do Veríssimo, pela manhã, mas percebo que, por algum mecanismo alheio à minha vontade, eu absolutamente esqueci.


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