Mídia

A conspiração internacional para condenar Julian Assange

 

30/03/2020 11:22

 

 
O processo a que Julian Assange está submetido começou a ser julgado no tribunal de Woolwich Crown, em Londres. São milhares de páginas nas que o governo estadunidense, acusado de vários crimes no Iraque – revelados justamente pelo WikiLeaks, do australiano Assange –, o acusa de conspiração e pede sua extradição. O governo inglês foi cúmplice dos Estados Unidos na aventura iraquiana, quando o país foi acusado de possuir armas de destruição em massa, o que se revelou posteriormente que não foi um engano, e sim uma farsa. Foi o pretexto para a invasão e desestabilização do Oriente Médio, deixando milhares de vítimas e transformando-se em um atoleiro para as tropas norte-americanas.

O processo não tem prazo para terminar, pode durar vários meses ou vários anos. Enquanto isso Julian Assange continuará preso.

Os defensores de Assange pelo mundo afirmam que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa estão em risco, e protestam contra a ameaça de uma possível sentença de 175 anos de prisão, o que, na prática, equivale a uma prisão perpétua.

O governo americano acusa o responsável pelo WikiLeaks de ser apenas um criminoso, que colocou em risco a vida de fontes do serviço secreto e de militares que estavam no Iraque. Além do crime de conspiração, foram adicionadas outras 17 acusações.

A denúncia

O WikiLeaks começou a denunciar os crimes dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão em 2010, depois de receber informações do militar Bradley Edward Manning, um transexual que, mais tarde, mudou sua identidade para Chelsea Elizabeth Manning. Ela foi presa enquanto ainda servia no Iraque e deu origem ao chamado “Cablegate”, em referência aos telegramas que o WikiLeaks, em associação com cinco grandes jornais do mundo, começou a publicar também em 2010.

Manning foi presa no mesmo ano, traída por um amigo a quem ela confidenciou que era responsável por vazar 700 mil documentos para o WikiLeaks. Foi submetida a tortura e tratamento brutal. Depois, foi condenada, em julgamento secreto, a 35 anos de prisão. Incomunicável, ela não teve chance de solicitar o habeas corpus, mas sua sentença terminou sendo comutada para sete anos, pelo presidente Barack Obama. Ela já cumpriu a sentença que recebeu, e foi libertada em 2017.

O asilo

Julian Assange passou sete anos em asilo político, na embaixada do Equador em Londres. Ele pediu refúgio ao presidente Rafael Correa, com quem se tornou amigo após uma entrevista que tiveram, alguns anos antes. Também recebeu a cidadania equatoriana. Com a mudança de governo no Equador, o novo presidente, Lenín Moreno, que, apesar do nome, é um político de direita, retirou dele não só a cidadania equatoriana, mas também o direito de asilo na embaixada de Londres. Essas duas medidas vieram logo após uma visita de Lenín Moreno a Washington. Assange passou seu último ano na embaixada sem internet e praticamente sem comunicação com o mundo exterior.

O ex-presidente Rafael Correa, líder da esquerda equatoriana, afirma que a expulsão forçada de Assange da embaixada foi uma vingança pessoal ao atual presidente. Correa diz que a revogação do status de asilo a Assange é ilegal, e que contrário a constituição do Equador. Ele diz que tudo isso não passa de um acordo com os Estados Unidos e que a decisão de Lenín Moreno veio imediatamente depois que o WikiLeaks revelou indícios de corrupção em seu governo.

Trecho de uma entrevista de Rafael Correa à Agência Pública:

Qual é a sua opinião sobre a prisão de Assange?

É terrível, o governo equatoriano está violando todo o direito internacional, o princípio de asilo da Corte Interamericana de Direitos Humanos. E a Constituição do Equador, porque ele é um cidadão equatoriano. É uma humilhação para o Equador. Além disso, é uma vingança pessoal, porque há algumas semanas ele (Julian) expôs um caso de corrupção muito grave de corrupção que envolve Lenín Moreno (atual presidente e sucessor de Correa) e sua família. Foi por isso que Lenín Moreno quis tirá-lo da embaixada. Lenín Moreno sempre quis expulsá-lo da embaixada e agora ele conseguiu.

A perseguição a Assange começou há algum tempo, antes da acusação de conspiração pelo governo dos Estados Unidos. Um tribunal da Suécia solicitou sua extradição por uma estranha acusação de estupro. A origem dessa acusação foi a queixa de uma namorada sueca de Assange. Ele a teria obrigado a ter relações sexuais sem usar preservativo. Essa acusação foi descartada posteriormente, mas só depois da apresentação da denúncia estadunidense, por conspiração.

Tudo parece indicar que ele, Julian Assange, é a verdadeira vítima de uma forte conspiração internacional, na qual os governos dos Estados Unidos, Equador e Reino Unido estão entrelaçados. O da Suécia já cumpriu seu papel inicial.

*Publicado originamlente em gazeta.gt | Tradução de Victor Farinelli



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