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A grandiosidade minimalista de Heloísa Seixas

26/05/2002 00:00

Heloísa Seixas

Créditos da foto: Heloísa Seixas
‘Depois, só depois, a mulher observou a parte interna da jóia. Viu com surpresa que ali o ouro ganhara uma tonalidade ainda mais sangüínea. À luz da manhã, o côncavo avermelhado brilhava, apresentando manchas mais escuras, semelhantes às máculas que o suor de algumas pessoas deixa nos metais’.



Desta forma, Heloísa Seixas descreve o espanto de uma mulher que descobre uma mancha, como de sangue, no local em que só havia o esbranquiçado da falta de sol, no local protegido por um anel que jazia na base do seu dedo gordinho por anos. E então desenrola uma trama que deságua num final surpreendente. Como, aliás, acontece não apenas neste texto, mas em muitos outros também.

O trecho foi retirado do conto ‘Sintomas’, que com mais outros 49, integra o volume ‘Contos Mínimos’, lançado no finalzinho do ano passado pela editora Record. Uma compilação de textos da autora publicados ao longo de pouco mais de dois anos na revista ‘Domingo’, que acompanha o Jornal do Brasil. O livro foi dividido em cinco seções temáticas: Sintomas e Segredos (Amor); O Espelho e a Máscara (Assombrações); A Alma das Coisas (Solidão); Flores e Espinhos (Natureza) e O Mal da Montanhas (Reflexões).



Dois aspectos chamaram-me bastante a atenção no livro: há um certo suspense criado ao longo da narrativa, elemento que prende o leitor, criando uma alegria no final, com o desfecho inesperado, e o que é melhor: aguçando a curiosidade para a leitura dos próximos. Outro aspecto relevante é que a autora parece deter-se infinitas horas na lapidação do texto após escrito. São jóias de lapidação rara, demonstrando extenuante trabalho tanto na sua criação bruta quanto na burilação final, delicadíssima.



Do livro todo, o texto que mais me agradou foi ‘Mensagem’. Isto implica em elementos absolutamente pessoais, e o prezado leitor terá o prazer de encontrar escritos que versam desde as conquistas felizes ou grandes desastres do relacionamento amoroso, até flashes e flagrantes do cotidiano, que é a matéria-prima dos grandes artesãos da palavra desde sempre, da poesia de Drummond, Bandeira, Gullar e Adélia, até a prosa de Machado, Clarice, Cony e por que não dizer, de Guimarães Rosa: todos bebem o cotidiano em grandes goles, fonte cristalina de um néctar abundante, que se esvai na obra através de um filtro particular de cada artista, dando ênfases, aqui e ali, a aspectos mais ou menos contundentes, arrebatando o leitor ou deixando nos lábios aquele quase imperceptível sorriso de satisfação.



No caso de Heloísa Seixas, os textos são tão suaves e saborosos que é como se tivéssemos à nossa frente uma taça do melhor vinho do Porto, que deve ser sorvido lentamente, com longos intervalos entre um gole e outro para que seja bem apreciado. E que demore o máximo possível para acabar.



Há trechos bastante doces, quase infantis: ‘e chovia muito à noite, porque era sempre verão na minha infância’; outros criando ambientes mais nebulosos, soturnos: ‘Havia passagens tão mínimas que o alto das casas parecia a ponto de se fechar sobre mim, lugares quase intocados pelo sol, cujas paredes transpiravam uma umidade de muitos séculos’. Há passagens muito líricas: ‘Há alguns raros, talvez, a maioria são apenas velhos, o que, de toda forma, lhe confere uma aura de importância. Gosto dos livros usados. Têm alma. Deles se desprendem os fluidos das pessoas que os tocaram, com suas dores, alegrias, esperanças, inquietações’.



E há também banhos de realidade, quando fala do medo dos assaltos e assassinatos ao vermos crianças nas ruas se aproximando para pedir uns trocados: ‘Porque se, ao ouvir às nossas costas um alarido infantil, o que sentimos é medo – é sinal de que alguma coisa está profundamente errada com todos nós’. Há reflexões sobre a vida urbana, o abandono, as crianças perdidas num mundo sem limites e sobre o próprio ato de escrever: ‘Nós, escritores, somos como eles. Deixando correr sobre o papel o sangue que se transformará em poemas, contos, livros, para quê? Por quê? Não sabemos. Nunca saberemos. Escrever é igualmente vão, igualmente louco – como essa febre que assola os exploradores, o mal das montanhas’.



E há também pequenas lições de moral, recebidas dos elementos da natureza: ‘A planta – que jamais pensei ser capaz de dar flor – pagara com perfume o desprezo que eu lhe devotara’.




Os ‘Contos Mínimos’, de Heloísa Seixas, são literatura de primeira linha, apenas confirmando o talento de uma escritora que se afirma, passo a passo, como grande nome da história da literatura brasileira contemporânea.





A Autora e suas obras:




Heloisa Seixas nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. Formada em jornalismo, trabalhou na Rio Gráfica, na agência de notícias UPI e, também, no jornal O Globo. Em 1995, lançou Pente de Vênus, reeditado em 2000. Em 1996, Heloisa publicou seu primeiro romance, A Porta; em 1998, Diário de Perséfone e, em 2001, Através do Vidro. Vive no Rio, junto com a filha Julia e escreve os Contos Mínimos para a Revista Domingo do Jornal do Brasil, cujos textos foram recentemente compilados pela Record.



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