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A violação dos direitos humanos nos filmes

09/02/2013 00:00

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Créditos da foto: heavy.com
A captura e morte do inimigo nº 1 dos Estados Unidos, Osama Bin Laden, deu origem a uma série de filmes sobre a tal operação militar que provavelmente terão um grande êxito de público não só nos EUA, como também em outros países que viveram atemorizados pelo terrorismo praticado pelas forças políticas lideradas por esse personagem. Esses filmes são uma tentativa de idealizar a capacidade dos chamados serviços de segurança do establishment estadunidense para conseguir o que desejam, seja onde e como for.

Independentemente das simpatias ou antipatias que alguém possa ter com esse tipo de filmes, todas as pessoas que respeitam os Direitos Humanos deveriam concordar com a necessidade de denunciar comportamentos – como a tortura – que aparecem em muitos desses filmes. Em um destes filmes de maior público sobre a captura e morte de Osama Bin Laden, se justifica e inclusive se aplaude a tortura daqueles elementos da força terrorista que, segundo filme, deram informação valiosíssima para sua localização.

Esta promoção da tortura gerou um protesto que foi mais além dos círculos intelectuais de base acadêmica que tendem a monopolizar a temática dos Direitos Humanos. Mesmo vozes conservadoras dentro do Congresso dos EUA, como o senador John McCain, candidato à presidência do país nas eleições de 2008 pelo Partido Republicano, denunciaram esse elogio à tortura que alguns destes filmes representam. Na verdade, nenhuma das informações da campanha de captura de Bin Laden consideradas válidas foi obtida por meio de tortura. Muito pelo contrário. Esse tipo de informação – falsa em sua maioria – criou uma grande confusão, atrasando a operação. Especialistas em temas de informação e comunicação do próprio governo dos EUA atestaram isso.

Mas o que provocou maior protesto entre a comunidade científica e acadêmica, e que não teve visibilidade nos meios de maior difusão espanhóis, foi a utilização das campanhas de saúde pública para obter informações (que ocorreu na busca e captura de Bin Laden). A partir da publicação de alguns dos detalhes dessa operação, se descobriu que as agências responsáveis por ela utilizaram supostas campanhas de vacinação da população para obter dados sobre o DNA de crianças e jovens em áreas onde se suspeitava que Bin Laden vivia, a fim de localizar sua casa, onde residia com familiares.

A obtenção de dados para fins militares ou policiais, utilizando como instrumentos campanhas de saúde pública, compromete todas essas campanhas, que passam a ser percebidas como objetivos militares pelo inimigo. O conhecimento de tais práticas teve um impacto negativo imediato, incluindo o assassinato de oito trabalhadores dos serviços de vacinação das Nações Unidas no Paquistão, que estavam realizando programas de vacinação reais e não fictícios como os realizados no mesmo país por aquelas agências dos EUA. Várias associações e ONGs de ajuda humanitária, que incluíam programas de saúde pública, tiveram que abandonar aquele país, temerosos que as forças próximas à Al Qaeda as considerassem instrumentos dos serviços de inteligência do governo dos EUA.

Os decanos das doze escolas de saúde pública mais importantes dos EUA escreveram uma carta de protesto ao presidente Obama por utilizar os serviços sanitários e de saúde pública como instrumentos das agências de inteligência do governo. Tal como indicam esses cientistas, os serviços de saúde pública devem ser considerados como instrumentos única e exclusivamente orientados para a saúde e devem não apenas sê-lo, mas também serem percebidos como tais. Qualquer variação disso provoca um dano imenso a todos os serviços de saúde. Existem normas de conduta, mesmo em conflitos armados, que devem ser respeitadas. É mais do que preocupante quando se fazem filmes nos quais se justificam essas violações dos códigos de conduta, que esses comportamentos não sejam denunciados.

*Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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