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Abertura - Ao Arqueólogo do Futuro

01/09/2004 00:00

Eduardo Carvalho

Vivemos aprisionados na lentidão do tempo. Nossa ciência, porém, permite-nos compreender a dimensão das mudanças por meio do distanciamento que a História nos oferece. Podemos, assim, seguramente nos ver diferentes de nossos longínquos antepassados e, com isso, evidenciar os rumos que tomamos em nossa evolução.

Os últimos 600 anos, por exemplo, distanciam-nos daqueles habitantes de uma América de cuja existência nenhum europeu feudal tinha ainda conhecimento. Distanciam-nos de um período em que ainda engatinhávamos na jornada das conquistas tecnológicas. Distanciam-nos dos dias em que o projeto da Modernidade ainda não tinha impelido nossa espécie à marcha do materialismo desmedido que culminou com a adoção da selvageria na qual se baseou nossa sociedade voltada ao mercado e suas leis implacáveis que, com seu oco existencial, arremessa seus servis atores à ignomínia da violação dos direitos mais fundamentais do homem.

Tempo chegará em que, distante de hoje, poderão alguns homens do futuro olhar para os dias atuais e vê-los, talvez, como aqueles em que se realizou a utopia de um possível mundo melhor ou, talvez, como os que sucumbiram ao esgotamento dos recursos que alimentavam uma sociedade inteiramente baseada na obtenção, transformação, consumo e acúmulo de matéria.

Caso a segunda hipótese cumpra-se, há o sobre-risco de dar-se por via traumática; seja pelos eternos perigos de possíveis cataclismos, seja por guerras dizimadoras, seja pela peste ou pela contaminação das águas, solos e do ar. Seja como for, há sempre a iminência da extinção quase total deste padrão cultural ou de outro que permanecesse conhecido.

Deste exercício de mórbida consciência do potencial apocalíptico que o homem tem sobre sua própria espécie, surge uma inquietante e não menos lúgubre possibilidade: a de um futuro e distante arqueólogo localizar e conseguir decifrar o funcionamento de um velho computador, de cujo restaurado disco rígido, possa decifrar mensagens deixadas exatamente para ele: o Arqueólogo do Futuro.

Durante os próximos meses, intelectuais de diversas áreas publicarão textos neste espaço especialmente dedicado a tornar-se um banco de informações processadas, analisadas e registradas para servirem de baliza e parâmetro a fim de que o suposto arqueólogo do futuro entenda, se não a realidade dos dias em que vivemos, ao menos um conjunto representativo de percepções do que se habituou chamar de realidade.

Ao leitor dos dias de hoje, menos perplexo do que os do futuro, resta a possibilidade de compartilhar destas visões, pouco importando se as repudiando ou acolhendo-as, porém sempre alargando seus próprios horizontes de compreensão. Se não isso, ao menos restará algum deleite de violar esta correspondência endereçada a um imponderável futuro, uma correspondência redigida em seu próprio e aflitivo presente.

Convidamos, para abrir este testamento, a arqueóloga Niéde Guidon que, com suas descobertas no Piauí, revolucionou as teorias sobre a ocupação da América pelo homem primitivo, comprovando a presença de humanos em período anterior ao suposto povoamento das Américas através do estreito de Bhering.


VEJA O ESPECIAL AO ARQUEÓLOGO DO FUTURO

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