Mídia

Ansiosa pergunta ao Arqueólogo do Futuro

03/11/2004 00:00

Moacyr Scliar

Senhor Arqueólogo do Futuro,

Na falta de bola de cristal ou de qualquer outro intrumento capaz de sondar o porvir, dirijo-me a V.Sª. para formular-lhe uma pergunta que me inquieta duplamente. A questão é: tem futuro o livro? Espero que V.Sª. saiba que estou me referindo àquele objeto definido no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (e que é, a propósito, um livro) como “coleção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura, etc., formando um volume que se recobre com capa resistente.” Sim, isto, neste ano de 2004, é livro. Caso o senhor sequer saiba do que estamos falando, a consulta que lhe dirigi torna-se inteiramente desnecessária e só me resta mergulhar no fundo poço da depressão, fundo este recoberto, naturalmente, de livros.

A razão de minha pergunta é simples. Talvez o senhor não saiba, mas este objeto tal como definido no dicionário, é relativamente recente na história da humanidade. Até o século quinze a disseminação da informação escrita fazia-se manualmente através de tabuletas de barro, de pergaminhos, de papiros. A invenção dos tipos móveis permitiu mecanizar este processo, barateá-lo e transformar o texto em algo acessível a milhões de pessoas. Esta democratização da cultura coincidiu com aquilo que chamamos de modernidade e que fez ruir o mundo feudal. Há cinco séculos o livro é algo importante em nossas vidas. O livro transmite-nos idéias. O livro emociona-nos através da ficção, da poesia. O livro diverte-nos. Isto quando impresso, naturalmente; porque Houaiss sugere a possibilidade de livros em branco, o que é, no mínimo, perturbador. Quem abre um livro está à procura de revelações, não de enigmas – como o seria a página em branco.

A tecnologia continuou avançando. Surgiu a tela. E a tela, grande ou pequena, passou a competir com a página escrita. A página é estática, a tela é dinâmica. A página pode ter imagens, sob forma de fotos ou ilustrações, mas a tela tem imagens móveis. Recentemente a tela, que já servia ao cinema e à tevê, passou a integrar também o computador, um equipamento que lida igualmente com imagens e com palavras, e que às vezes pode ser pequeno – do tamanho de um livro, para dizer a verdade. E a pergunta então se impôs: será que o computador vai substituir o livro?

Há no momento uma grande discussão a respeito. Fala-se de computadores muito portáteis em cuja tela podem aparecer – e desaparecer – livros inteiros. É claro que será mais difícil levar esse equipamento para a cama, ou para o banheiro, que ainda é um lugar de leitura para muitas pessoas; mas a possibilidade de eliminar o papel, que não é barato, e que é feito de árvores (resultando, portanto, em dano à natureza) resulta muito atrativa. Enfim: o que acontecerá ao livro, só o futuro – ou o arqueólogo do futuro – dirá. E é exatamente por isso que interrogo a V.S. Movido, como disse no início, por uma dupla inquietação. É que sou escritor; tornei-me escritor porque amava os livros, porque queria ser como aquelas pessoas que escreviam os textos que tanto me encantavam. E sou um leitor. Na sala de onde lhe escrevo, estou rodeado de livros, livros que ali estão, imóveis, quietos, à minha disposição, à espera de que eu os consulte, ou folheie. Mas escrevo-lhe de um computador. Portanto, tenho os livros a meu redor, mas a tela, que reluz com branca e espectral claridade, à minha frente. Entre os livros e a tela meu coração balança. Diga-me, senhor Arqueólogo do Futuro: terei mesmo de livrar-me de meus livros? E o que farei com as lembranças que eles em mim despertam, o que farei dessa amável convivência que já chega a décadas?

Responda-me se souber, ou se quiser. E se não responder, entenderei perfeitamente. Neste meio tempo continuarei lendo. E ah, sim, escrevendo livros.


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