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As Doenças do Domingo

26/04/2002 00:00

Nos finais de semana os hospitais ficam lotados. Há uma diferença significativa dos serviços privados para os serviços públicos. Na rede estadual e municipal (mesmo federal), multidões de desvalidos procuram ajuda por não terem os tais convênios médicos, os casos urgentes aparecem com freqüência, espera-se muito nas filas e pede-se a Deus para ser atendido antes que seja tarde.



Os profissionais também sofrem grande pressão, e este breve retrato é apenas mais um item do descaso governamental e da falência absoluta do sistema público de saúde no Brasil. O tema é vasto, tomaria muitas crônicas e, oportunamente, volto a tocar no assunto.



Atento-me hoje a comentar os serviços privados, associados aos infinitos convênios que versam no mercado. O doente de domingo, com exceções consideráveis, é um desajustado emocional, e porque não dizer, social. Explico: a cena é sempre a mesma: entram no consultório o fulano, a mulher, às vezes os filhos e fica todo mundo olhando para a cara do médico, como se este possuísse um detector instantâneo de avarias, querendo saber com ansiedade o que é que o sujeito tem (e não é nada parecido com a opulência com "o que é que a baiana tem"...).



Sei lá, pensa o médico evitando expressar em palavras sua também indignação. O doente olha para o acompanhante que olha para o doente, ficam se acusando mutuamente, sem palavras, até que começa a conversa:



- O que o senhor tem?



- Estou tossindo há cinco dias, doutor.



- Ele fuma – quase aos berros, interfere a esposa.



- E o senhor tem tido febre (respira fundo o médico tentando ignorar a infeliz interferência).



- Não senhor, doutor. Para falar a verdade, não cheguei a medir.



- Ele fica tomando gelado! - Desta vez, com muita agressividade, a esposa tenta ridicularizar o doente diante do médico, mostrando que ele não passa de um imbecil por não saber que, durante os dias de tosse, não deveria fumar ou tomar gelado.



E por aí vai. Velhinhos e velhinhas desprezados pela família durante toda a semana resolvem sentir tontura, dor de barriga, falta de ar, justamente no domingo, que é quando está todo mundo por ali e não haveria desculpa para não levá-los ao médico. Toca a família levar o vovozinho no hospital.



Do outro lado está o profissional da área de saúde. Ninguém trabalha de domingo porque quer. Pergunte a qualquer plantonista de final de semana se ao invés de estarem ali não prefeririam estar com a namorada, o marido, a família, os filhos pequenos, os amigos do bairro? Médico trabalha de domingo, quase sempre, como emprego temporário. Quando a situação financeira melhora um pouquinho ele passa a bola para um colega mais jovem e com mais vigor físico e profissional. E estabelece-se o conflito: doentes chatos, por não estarem satisfeitos com suas vidas; médicos impacientes pelo mesmo motivo.



Quando os casos são mais graves, fala mais alto a ética e a missão de salvamento, digamos assim. Claro que há exceções, mas a maioria dos profissionais trata casos dessa natureza com bastante habilidade. O que cria a discórdia, queixas que atormentam o indivíduo há meses, às vezes anos e, naquele dia, justamente naquele momento, resolvem procurar um serviço de emergência, para ser ouvido, para ser amado, para ser carregado no colo. E não se trata de insensibilidade dos médicos, apenas não é o lugar nem a hora.



As esposas têm dor de cabeça; os maridos, dor de estômago; os adolescentes, dor em qualquer lugar. Alguns desenvolvem quadros tão complexos que chegam a intrigar a curiosidade científica dos médicos, levando a longas internações para realização de infinitos exames cujos resultados, invariavelmente, revelam-se dentro da normalidade.



E o que é a normalidade, num mundo em que as relações se banalizaram? Troca-se suavidade por possessividade, carinho por palavras ríspidas, afago por maus-tratos morais sem fim. Uma sociedade doente, decadente, tomada de uma enfermidade que turva a visão e desvia os sentidos daquilo que realmente importa para valores menores e mesquinhos.



A doença do domingo é esta degradação do ser humano como ente emocional, é a exacerbação das angústias e anseios que não aparecem durante a semana, pois as pessoas estão trabalhando e como tudo neste ciclo de vida monstruoso em que estamos mergulhados, não dá tempo de se desenvolver. O patrão fica bravo, o colega de trabalho não deixa, o próprio doente engole seco, enfurna-se em suas atividades profissionais para ver se aquele vazio todo, diante da pilha de coisas para se fazer, diminui um pouquinho, torne-se menos áspero, menos destruidoramente árido.




26 abril 2002

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