Mídia

As Mulheres e o Censo

25/05/2002 00:00

O Censo 2000 trouxe boas e más notícias (a desigualdade social persiste praticamente inalterada), mas as boas predominam. Para começar, o próprio Censo já é um triunfo: mostra que o país é capaz de se avaliar quantitativamente, o que é importante: como disse o famoso cientista Lord Kelvin, tudo que é verdadeiro pode ser expresso em números.


A melhor notícia, para mim, é a diminuição da mortalidade infantil. Se me dissessem, quando comecei a trabalhar em saúde pública, que um dia o Brasil conseguiria reduzir tão dramaticamente os óbitos infantis, eu não acreditaria. Mas chegamos lá e isso é animador. É animador porque a mortalidade infantil é, disparado, o melhor indicador não apenas das condições de saúde, como das condições sociais. Menor mortalidade infantil significa que a alimentação melhorou, que o saneamento melhorou, que os serviços de saúde melhoraram.


Mas o Censo também é muito revelador do perfil da sociedade brasileira, sobretudo no que diz respeito às mulheres. A partir dos 30 anos, a porcentagem de mulheres com um companheiro vem caindo. As mulheres se casam mais cedo, e com homens mais velhos do que elas; mas como a expectativa de vida masculina é menor, lá pelas tantas começa a diminuir o número de homens disponíveis - e as mulheres vão ficando sós. Mulher separada e com filhos, por exemplo, tem grande dificuldade para encontrar companheiro.


Isso não é um fenômeno só brasileiro. recentemente foi publicado nos Estados Unidos um livro que teve enorme repercussão: Creating a Life: Professional Woman and the Quest for Children (Criando uma Vida: Mulheres Profissionais e a Demanda por Crianças), da economista Sylvia Hewlett, um estudo em profundidade de mais de mil executivas. As mulheres hoje estão em busca de uma carreira, diz a autora, e com isso adiam os planos de casar e ter filhos: só metade das executivas bem-sucedidas está casada. Isso também acontece no Brasil, e não só com mulheres executivas. A mulher brasileira está tendo menos filhos. A média de filhos caiu de 2,9 para 2,35 em 10 anos. Isso sem nenhum programa agressivo de controle da natalidade (viu, Sant’Ana?). É possível que também nisso a globalização esteja exercendo seus efeitos, que a mulher brasileira esteja se adequando a um modelo vindo de países desenvolvidos.


Mas existe, sim, um grupo em que os casos de gravidez estão aumentando: o grupo das adolescentes. A percentagem de adolescentes que engravidam subiu, em 10 anos, de 7,9 para 9,1. A pergunta é: por que acontece isso, numa época em que existem camisinha e contraceptivos? Será desconhecimento? Ou existirá nisso um elemento de desafio, a menina e o garoto dizendo “a nós não interessa estudo, nem profissão, nem carreira”? Será esta a nova forma de revolta juvenil, a rebelião que substitui o engajamento político e o movimento contracultural dos anos 60?


Difícil saber. Mas não há dúvida de que estamos diante de um desafio para pais e educadores. Um desafio que, de certa forma, se compara àquele representado pela má distribuição de renda. Nos dois casos, trata-se de estender os benefícios do progresso a grupos dele marginalizados. Nos dois casos, trata-se de uma tarefa urgente – em termos de cidadania e em termos humanos.




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