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As alegações de hackeamento, feitas por Jeff Bezos, destroem o mito de uma nova Arábia Saudita

Revelações recentes levantam questões perturbadoras sobre o apoio dos EUA e do Reino Unido à Arábia Saudita, que buscou mudar sua imagem

28/01/2020 13:12

Créditos da foto: "Desde que ele chegou ao poder, os principais facilitadores de Bin Salman foram os governos dos EUA e do Reino Unido." O príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed bin Salman em Riad, outubro de 2019. (Alexey Nikolsky/EPA)

 

Se Mohammed bin Salman ou figuras próximas a ele realmente invadiram o telefone do fundador da Amazon, Jeff Bezos, este será outro prego no caixão da tentativa do príncipe herdeiro de renovar a imagem global da Arábia Saudita sob sua liderança de fato. Também levantaria questões mais sérias sobre a relação entre as potências ocidentais e o reino saudita.

Especialistas que trabalham para Bezos - que também é dono do Washington Post - concluíram com "confiança entre média e alta" que uma conta do WhatsApp, usada por Bin Salman, estava diretamente envolvida no hackeamento do telefone do bilionário em maio de 2018.

Os dois tinham se conhecido anteriormente, na primavera daquele ano, durante a extensa turnê do príncipe herdeiro no Reino Unido e nos EUA, quando ele conheceu uma infinidade de políticos e líderes empresariais em um esforço para reforçar o apoio geopolítico ao seu regime e garantir o investimento tão necessário no país - em uma era de descarbonização e preços mais baixos do petróleo.

Na época, Bin Salman estava particularmente preocupado com os artigos de um dos colunistas do Post, Jamal Khashoggi, um ex-membro da corte que havia se mudado para os EUA e agora estava usando sua plataforma para contradizer diretamente as alegações da monarquia de que o reino estava passando por um processo significativo de liberalização.

Alguns meses antes, em setembro de 2017, Bin Salman havia falado em silenciar Khashoggi "com uma bala". Em outubro de 2018, Khashoggi foi morto na embaixada saudita em Istambul, um crime que tanto a CIA como, subsequentemente, o relator especial da ONU em execuções extrajudiciais, implicaram o príncipe herdeiro (que nega as alegações).

Se alguém especulasse sobre as razões pelas quais Bin Salman ou as pessoas ao seu redor poderiam ter cometido o suposto hackeamento de Bezos, silenciar Khashoggi parece ser uma motivação óbvia. Os frutos do ataque poderiam ter sido usados em uma tentativa inicial de chantagear Bezos para demitir Khashoggi, com o assassinato do jornalista sendo executado apenas depois que essas tentativas falharam.

O que sabemos é que o jornal aceitou com entusiasmo o caso do colunista após seu desaparecimento em Istambul, sujeitando o regime saudita a críticas ferozes e que detalhes do caso extraconjugal de Bezos foram publicados pela revista National Enquirer em janeiro de 2019, levando ao fim de seu casamento e a um caro divórcio.

Se as informações do Enquirer tiverem se originado na suposta invasão saudita, isso também se encaixaria em um padrão mais amplo de comportamento de gângster, incluindo o encarceramento, em novembro de 2017, de uma grande parte da elite saudita em um extorsão grosseira, que rendeu liquidamente bilhões de dólares ao regime do príncipe herdeiro e a tentativa, em estilo de ação de bando criminoso, de forçar a renúncia do primeiro-ministro libanês em 2017 quando este visitava o reino.

Tanto a Arábia Saudita quanto a AMI, proprietária do National Enquirer, negaram que o reino estivesse envolvido na publicação da história de Bezos.

Portanto, se as últimas alegações sobre o comportamento do príncipe herdeiro e de sua comitiva se mostrarem corretas, elas adicionam ingredientes a uma imagem já perturbadora e provocam perguntas ainda mais perturbadoras. Com quais outras personalidades significativos Bin Salman se corresponde via WhatsApp? Quais deles podem ter tido dados de suas mensagens extraídos para serem usados posteriormente? Isso poderia se estender a figuras da política e do governo, bem como dos negócios, incluindo figuras importantes em Washington e Londres? O príncipe herdeiro seria imprudente ou estúpido o suficiente para tomar tais medidas contra estados dos quais seu regime, há muito, depende para sua própria sobrevivência?

Desde que ele chegou ao poder, os principais facilitadores de Bin Salman são os governos dos EUA e do Reino Unido. A campanha de propaganda de 2018 em torno de seu suposto programa de "reforma" foi entusiasticamente amplificada por Washington e Londres, com o então secretário de Relações Exteriores britânico Boris Johnson elogiando o príncipe herdeiro como um reformador liberalizante antes de sua visita ao Reino Unido em fevereiro de 2018.

As ONGs de direitos humanos contradizem isso diretamente. Elas relatam uma imagem de dura repressão à dissidência dentro do reino, incluindo as detenções em massa de ativistas dos direitos das mulheres, algumas das quais foram supostamente agredidas sexualmente e sofreram tortura, incluindo chicotadas e choques elétricos.

A brutal guerra de Bin Salman no Iêmen, que matou milhares e matou de fome outras dezenas de milhares, não poderia ter sido travada sem o apoio ativo fornecido pelos britânicos e norte-americanos.

Seu governo não conseguiria ter sobrevivido às consequências do assassinato de Khashoggi no final de 2018, se seus aliados anglo-americanos tivessem rejeitado a investigação saudita sobre o assassinato por falta de credibilidade e, em vez disso, tivessem insistido em uma investigação criminal internacional.

Mas com essas revelações mais recentes, cabeças mais sábias em Washington e Londres devem estar cada vez mais desesperadas com a perspectiva de lidar com essa figura perigosa e errática nos próximos anos, talvez décadas.

David Wearing é professor de relações internacionais na Royal Holloway, Universidade de Londres e autor da AngloArabia: Por que a riqueza do Golfo é importante para a Grã-Bretanha

*Publicado originalmente em The Guardian | Tradução de César Locatelli

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