Mídia

As guerras mundiais se mudaram ao cenário tecnológico

 

10/06/2019 07:39

 

 
Fundada em 1987 pelo ex-engenheiro militar Ren Zhengfei, então dedicada à venda de centrais telefônicas, a Huawei está atualmente entre as cinco maiores empresas fabricantes de telefones inteligentes a nível mundial. A palavra Huawei, traduzida do chinês, poderia ser traduzida como “ato magnífico”, ou “ato esplêndido”.

O portal alemão Statista informa que a Huawei já superou a Apple, em dezembro de 2018, e também se aproximou da Samsung, líder do ramo de celulares inteligentes a nível global. A Samsung possui 18,9% do mercado, a Huawei tem 13,4% e Apple11,8% – e o quarto lugar também é de uma empresa chinesa quem vem crescendo rapidamente, a Xiaomi, que tem 8,9%.

Não é menos importante a análiseda queda que vem sofrendo o conglomerado sul-coreano: em 2012, a Samsung liderava o mercado de telefones inteligentes com 30,3% contra 18,7% da Apple, que estava em segundo. A Huawei já estava em terceiro, mas muito atrás em números: apenas 4%.

A Huawei tem presença comercial em mais de 70 países, com um faturamento anual de 13 bilhões de dólares e uma equipe de mais 70 mil empregados. A empresa assegura que é propriedade dos seus empregados: segundo um comunicado 98,99% das ações da companhia estão compartilhados entre 61% dos trabalhadores, todos de nacionalidade chinesa, organizados nos“comitês sindicais”. Os trabalhadores recebem suas ações quando são contratados, não podem comprá-las nem vendê-las, e a empresa as recupera quando se termina a relação de trabalho. O outro 1,01% das ações são propriedade do fundador, Ren Zhengfei.

A Huawei tem contrato de implementação de redes 3G, 4G e 5G em mais de 50 países. No final de abril, recebeu a aprovação de Theresa May para a construção de parte das redes 5G no Reino Unido, A chanceler alemã, Angela Merkel também expressou que é contra excluir a Huawei ou qualquer outra companhia de desenvolvimento da rede móvel 5G alemã só porque provém de um determinado país.

Países como Espanha, Alemanha, França e Canadá já assinaram acordos com a Huawei para a instalação de antenas 5G. Na América Latina, Cuba e Venezuela baseiam suas redes e pontos de acesso de internet de 3G e 4G em tecnologia da Huawei. A maioria dos países do nosso continente têm algum tipo de acordo em matéria de infraestrutura tecnológica com a empresa chinesa.

O primeiro país do mundo a oferecer serviços de internet 5G foi a Coreia do Sul, no mês de abril, através das três empresas de telefonia do país (SK Telecom, KT Corporation e LG U Plus), que instalaram cerca de 90 mil redes de distribuição de sinais com a nova tecnologia. Apesar de vários desmentidos, há quem diga que estão utilizando tecnologia da Huawei, através de provedores intermediários de tecnologia, que operam na Ásia Oriental.

Oproblema começou com Trump?

O veto imposto por Donald Trump à empresa Huawei obriga a Google a não oferecer mais atualizações dos sistemas operacionais Android, utilizados pelostelefones e tablets da marca chinesa. Parece estranho que o império norte-americano exponha uma de suas principais empresas de espionagem, como é a Google, utilizando-a como ferramenta contra a suposta espionagem da gigante chinesa em favor do governo de Pequim. A ruptura também atinge outras empresas estadunidenses como Intel, Qualcomm, Broadcom, Xilinx e ARM.

É importante recordar o plano PRISM, denunciado pelo ex-agente da Agência de Segurança Nacional (NSA, por sua sigla em inglês), Edward Snowden, em 2013. Naquele então, se dizia que o projeto contava com informações cedidas pela Microsoft, Google, Yahoo, Facebook, AOL e Apple.

Em 2003, a Cisco (uma das mais importantes empresas estadunidenses de telecomunicações) denunciou a Huawei por suposto roubo de patentes. Como geralmente acontece neste tipo de litígio, naquele caso o acerto foi com dinheiro, retirada de determinado software e alguns routers por parte da Huawei eo levantamento da demanda da Cisco. De qualquer forma, nunca se pode determinar, durante o caso, se quem tinha razão era o denunciante oua denunciada.

Por outro lado, e no mesmo ano, se difundiu a existência de um documento de 12 mil páginas elaborado pelas Nações Unidas, no qual apontava a Huawei como uma das empresas que vendiam tecnologia militar da ONU para Saddam Hussein no Iraque. Provavelmente, o informe seja tão veraz quanto o que indicava a existência de armasquímicas naquele mesmo país.

Em 2006, o Partido Conservador britânico alertou sobre o suposto perigo de permitir que a Huawei comprassea firma britânica Marconi, que atua no ramo das telecomunicações. Já em 2009, o Comitê de Inteligência Conjunta do Governo Britânico classificou a Huawei como “uma potencial ameaça para a segurança nacional”. A preocupação estendeu aos aliados da Comunidade Britânica como Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Índia, que começaram a desenvolver legislaçãoe vetos para colocar limites à implantação da Huawei, seja como comprador de empresas de telecomunicações, ou como provedor de hardware e infraestrutura tecnológica em âmbitos sensíveis para a Defesa Nacional, como são as redes militares, routers e demais equipamento de infraestrutura emâmbitos definidos como críticos em matéria de Segurança de Estado.

No final de 2011, Barack Obama fazia uso de seus poderes como presidente para obrigar as firmas de telecomunicação norte-americanas a entregar informação confidencial. A ideia de Obama era tentar detectar a espionagem chinesa. O próprio Comitê de Inteligência do Congresso abriu uma investigação.

Diferente do que aconteceu no Reino Unido, no Congresso norte-americano o processo teve apoio de ambos os partidos, que mostraram clara intenção de investigar, e foi concluído um ano depois, com um informe dizendo que a Huawei ea ZTE (outro gigante chinêsno campo das telecomunicações) eram uma “ameaça à segurança nacional”.

A Huawei começou, então, a ser excluída de concursos públicos para redes de telecomunicações norte-americanas, especialmente as qualificadas como críticas. De qualquer forma, a firma chinesa continuou vendendo seus serviços e infraestrutura em diferentes locais, como universidades, hospitais, grandes companhias privadas, etc.

A Casa Branca revisou o informe do Congresso echegou à conclusão de que não havia evidências da espionagem da Huawei. De qualquer forma, e assim como aconteceu quando tiveram que reconhecer a inexistência das armas químicas no Iraque, o governo manteve a ideia de que a empresa era um potencial problema de “segurança nacional” para os Estados Unidos.

Em termos mais técnico, devemos dizer que não existem provas que demostrema espionagem da Huawei, o que ela instale atalhos escondidos, nos seus equipamentos, que permitam o acesso do governo de Pequimà informação reservada de outros países.

Governo Trump x Huawei

Emjaneiro de 2018, foi difundido um documento do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos que pedia que a administração pública construísse as redes 5G do país. Justificavam a ideia lembrando do aumento do domínio chinês no mercado de processadores e antenas para difusão da tecnologia 5G, uma liderança que soava como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.

Recordemos que a Huawei é a firma que lidera em investigação, avanço e instalação da tecnologia 5G, que substituirá as atuais tecnologias de comunicação, por sua baixa latência, capacidade de conectar milhares de dispositivos, pela “internet dos utensílios” (IOT, por sua sigla em inglês) com mais recursos,e multiplicar a velocidade que conhecemos hoje.

Na guerra de Trump contra a Huawei, há quem acredita que o detonador do pedido de Washington ao governo canadense de prisãoe extradição da filha do dono da empresa chinesa, Meng Wanzhou, no final de 2018, foi a negativa do gigante chinês de cede a um pedido de colaborar e ceder seus avanços tecnológicos em matéria de 5G àsempresas norte-americanas. Em 2019, foi preso na Polônia o diretor de vendas da Huawei, Wang Weijing, também acusado de espionagem.

Em janeiro, aconteceu em Las Vegas, dentro das celebrações da CES 2019, a maior feria tecnológica do mundo, um operativo montado pelo FBI para espionar os diretores da Huawei. O resultado foi mais um pacote de acusações contra os chineses, por supostas infrações em segredos comerciais e industriais, fraude bancária, entre outras.

É interessante, neste momento, analisar a posição da União Europeia a respeito desta disputa. Afinal, se a estratégia de tirar a Huawei de campo na disputa pelo avanço do 5G, seriam duas empresas europeias, a Nokia ea Ericsson, as que assumiriam a posição de vanguarda em tal tecnologia. Vemos o exemplo da Europa por ação, mas também devemos analisar a omissão de alguns chefes de Estado em favor da demência da posição de Washington.

Neste caso claramente se vê uma defesa do que acreditamos que é essencial em toda estabriga entre Huawei, China, Google e Estados Unidos: a dominaçãodo plano tecnológico e comercial. O capitalismo puro e duro beneficiaria a União Europeia, caso a estratégia consiga debilitar a gigante chinesa, e com o controle da tecnologia se mantém também o controle geopolítico.

“Qualquer cortina de ferro digital (a gerada pelos Estados Unidos sobre a Huawei, por motivos econômicos e políticos) só pode ser prejudicial para o desenvolvimento da América Latina”, alerta Martín Hilbert, professor da Universidade da Califórnia e guru em temas de big data, em entrevista concedida ao canal britânicoBBC.

Como vão as coisas até aqui

É inegável que ao longo da história, em situações em que um país quer oudefinitivamente entra em guerra com outro, o primeiro que deve “desconectar” é a infraestrutura. Tradicionalmente, isso tinha que ver com as pontes, plantas termonucleares, represas, estradas e aeroportos. As bombas e seu poder destruidor ada vez maior têm importância nesse sentido.

Entretanto, nos nossos tempos, a utilização de aviões ou tanques parecedesnecessária: comum simples apertar de botão é possível apagar tecnologicamente um país inteiro, ou controlar a empresa que tem a maior tecnologia, evitar seu crescimento ou até mesmo fazê-la retroceder.

Recordemos o icônico ciberataque (atribuído de forma não oficial a agências norte-americanas, e com o apoio “passivo” da Microsoft) ao sistema de centrífugas de urânio do Irã, com o vírus StuxNet, que (segundo informação do governo de Teerã)levou a um retrocesso de ao menos dez anos no desenvolvimento do país em energia atômica.

Para os investigadores, especialistas em segurança, docentes e hackers do mundo inteiro, o ataque do StuxNet, em janeiro de 2010,foi um ponto de referência em matéria de importância geopolítica e estratégica do controle da tecnologia.

Os Estados Unidos se encontram claramente em guerra contra a China pelo controle da tecnologia de ponta, que hojeé propriedade do gigante chinês Huawei.

Trump teme que as antenas de 5G da Huawei permitam à China uma incrível oportunidade par atacar infraestruturas críticas, ou comprometer o intercâmbio de inteligência com seus aliados mais importantes. Neste momento, o país tenta convencer seus aliados sobre este suposto perigo.

Claro que Trump também deve se preocupar com seu muro na fronteira com o México, em reforçar o bloqueio contra Cuba (acabam de anunciar a proibição aos seus cidadãos de viajar em cruzeiro à ilha), e tentar justificar por todos os meios o bloqueio e a intervenção militar na Venezuela.

E se isso já não bastasse, Washington acaba de anunciar que a cada solicitação de visto de turista parar entrar nos Estados Unidos, a pessoa deverá incluir todos os dados de redes sociais, telefones eendereços de correio eletrônico utilizados nos últimos cinco anos, entre tantos outros requisitos.

Entretanto, não se vê sinais de preocupação, resposta ou rejeição latino-americana contra a postura truculenta e imperialista do governo de Washington.

Com relação à tecnologia para os telefones celulares, as provas e as primeiras implementações realizadas na América Latina foram feitas com tecnologia europeia ou norte-americana. No Uruguai, foi a Nokia que proporcionou tal tecnologia. No Chile ena Argentina, foram da Nokia e da Ericsson. No México, asseguram que se utilizará tecnologia da norte-americana Qualcomm. O Brasil tem apostado na tecnologia da Ericsson eda Qualcomm.

Simplesmente não vimos expressões de repúdio, e será porquede alguma forma dependemos dessas empresas submetidas aos interesses de Washington ou algum dos seus aliados? Será que o avançoda direita sobre os nossos governos tem nos levado a alianças não assumidas, mas subentendidas, contra a China? Seria tudo isso somente um “tema técnico”, como a escolha da norma europeia ou japonesa para a TV digital? Será que não conseguimos compreender a luta pelo domínio da tecnologia é a luta pelo domínio do mundo?

Sempre parece haver um “melhor momento” para tomar decisões que possam mover o eixodo cenário multipolar em que vivemos. Talvez estejamos diante desse momento. “A briga parece que será complicada”, me disse um colega, dias atrás. Estamos diante de um cenário jamais visto, que certamente será estudado por futuras gerações como o momento em que as guerras mundiais se mudaram ao cenário tecnológico.

Enrique Amestoy é investigador uruguaio, assessor em Tecnologias da Informação e Comunicação e defensor do software livre

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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