Mídia

As mães de 1964

02/04/2004 00:00

Moacyr Scliar

No Brasil, a ditadura instaurada em 1964 não chegou aos níveis de violência da Argentina, onde as vítimas contam-se por milhares. Talvez por isso não tivemos aqui um grupo semelhante àquele das Mães da Plaza de Mayo, que comoveram o mundo com seu mudo e patético protesto. Mas, também no Brasil, muitas mães sofreram, sim - mães, esposas, filhas. A repressão, que mandou muita gente para a prisão ou para o exílio, cobrou um preço emocional alto de pessoas que, muitas vezes, nem entendiam direito o que estava se passando.

A última quarta-feira assinalou o quadragésimo aniversário do golpe. Certamente, a data ressuscita velhas polêmicas e velhos ressentimentos. Acusações são feitas de parte a parte, nomes são listados como responsáveis pelos acontecimentos. Mas é importante também lembrar aquelas pessoas que se transformaram em vítimas, ainda que indiretas, do autoritarismo e da violência.

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Uma dessas pessoas ficou famosa nos anos 1960 e 1970. Era conhecida simplesmente como dona Maria. Quem era dona Maria? Era uma senhora mineira, mãe dos hoje lendários Herbert José de Souza, o Betinho, e Henrique Filho, o Henfil. Em 1964, Betinho, sociólogo, trabalhava para o governo João Goulart e teve de deixar precipitadamente o país, "viajando num rabo de foguete", segundo os inspirados versos de Aldir Blanc em O Bêbado e a Equilibrista (magistral interpretação de Elis Regina). Betinho foi para o Uruguai, e depois para o Chile, Panamá, Canadá, México... Henfil, que ficou no Brasil, e era um grande cartunista e humorista, falava do irmão em sua coluna Cartas da Mãe, lida por todo o Brasil. Às vésperas do Natal de 1977, escreveu: "A senhora sempre disse que Natal é bom com a família reunida, que é triste ficar contando cadeiras vazias. Pois parece que, por mais um ano, na nossa mesa não poderão estar presente o Betinho e a Maria [mulher de Betinho]. E, como na nossa, noutras tantas mesas de Natal pelo Brasil afora, cadeiras ficarão vazias."

Betinho acabou voltando, para morrer no Brasil. Hemofílicos, ele e o irmão, contraíram o HIV em transfusões contaminadas e não sobreviveram. Dona Maria, que eu saiba, não escreveu sobre isso. Poupou-nos: teria sido dilacerante ler seu texto.

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Para a minha geração literária, a porto-alegrense Lara de Lemos foi uma figura transcendente. Mulher de incrível cultura - era formada em História, Geografia, Pedagogia, Jornalismo e Direito - lecionou, traduziu, fez poesia e jornalismo: suas colunas no Correio do Povo eram lidas por todo o mundo. Mais do que isso, exercia uma liderança intelectual indiscutível. Sua casa era uma espécie de salão literário, onde jovens escritores se reuniam para discutir literatura e política. Era também uma audaz ativista política; participou ativamente no Movimento da Legalidade que em 1961 conseguiu abortar (ou adiar por três anos) um golpe militar. Escreveu, inclusive, a letra do famoso Hino da Legalidade. À época da ditadura, Lara estava no Rio de Janeiro; seus dois filhos, também militantes, foram presos, o que transformou sua vida em um verdadeiro calvário. Ia de autoridade em autoridade, de gabinete em gabinete, tentando fazer alguma coisa pelos jovens. Pesada carga de sofrimento, que ela suportou com a bravura e dignidade de uma mãe da Plaza de Mayo.

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Existe uma famosa peça teatral de Brecht que se chama "Mãe Coragem". Ambientada no século 17, mas aludindo obviamente ao nazismo, a peça fala do sofrimento de uma mãe cujos três filhos morrem durante uma prolongada guerra. É muito expressivo, esse título. Todas as mães são Mãe Coragem; todas as mães enfrentam as vicissitudes que ocorrem nas vidas de seus filhos, as doenças, as desgraças. Mas, em períodos de autoritarismo, as mães têm de ser especialmente corajosas. Esse foi o caso de Lara de Lemos, foi o caso de dona Maria e foi o caso de muitas mães anônimas que precisamos lembrar neste 31 de março.


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