Mídia

Assange: por que a mídia ignora um ataque sem precedentes à liberdade de imprensa?

 

08/10/2020 11:20

(Ilustração de Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Ilustração de Nathaniel St. Clair)

 
O silêncio dos jornalistas na Grã-Bretanha e nos EUA sobre o processo de extradição contra o fundador do WikiLeaks Julian Assange os torna cúmplices na criminalização da reportagem pelo governo norte-americano.

Em um tribunal de Old Bailey, em Londres, nas últimas quatro semanas, advogados do governo dos EUA pediram a extradição de Assange para os EUA para enfrentar 17 acusações sob a Lei de Espionagem de 1917 e uma acusação de uso indevido de computador. No centro de seu caso está a acusação de que, ao vazar uma série de mensagens diplomáticas e militares secretas, dos EUA em 2010, Assange e WikiLeaks colocaram em risco a vida de agentes e informantes dos EUA.

Uma das muitas peculiaridades neste estranho caso é que as provas para tal acusação são inexistentes. O Pentágono admitiu que não conseguiu encontrar uma única pessoa trabalhando secretamente para os EUA que tenha sido morta como resultado das divulgações do WikiLeaks. Este fracasso não foi por falta de tentativas: o Pentágono tinha criado uma força-tarefa militar especial, destacando 120 oficiais de contra-inteligência, para encontrar pelo menos uma morte que poderia ser culpa de Assange e seus colegas, mas não encontrou nada.

Outras alegações contra Assange, apresentadas pelos advogados do governo dos EUA, são igualmente frágeis ou comprovadamente falsas, mas ele ainda corre o risco real de ser enviado para uma prisão de segurança máxima nos EUA depois que o tribunal tomar sua decisão em 4 de janeiro. Uma vez lá, ele enfrentaria uma sentença de até 175 anos e, qualquer que seja a duração de sua prisão, ele provavelmente vai gastá-la em confinamento solitário em uma cela minúscula.

O exemplo de Assange cria um precedente que ameaça de morte a liberdade da imprensa na Grã Bretanha. Se Assange for extraditado, então qualquer jornalista que publicar informações que as autoridades norte-americanas considerem confidenciais, por mais conhecidas ou inofensivas que sejam, correrá o risco de ser extraditado para ser julgado nos Estados Unidos. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, diz que os não-americanos, como Assange, não gozam dos direitos da Primeira Emenda à liberdade de expressão.

O resultado das audiências de extradição de Assange é um ponto de inflexão crucial que dirá se a Grã-Bretanha e os EUA seguirão o mesmo caminho para a "democracia iliberal" que a Turquia, a Hungria, o Brasil, a Índia e as Filipinas. O que Assange e o WikiLeaks fizeram – obter informações importantes sobre os atos e delitos do governo dos EUA e transmitir essas informações ao público – é exatamente o que todos os jornalistas devem fazer.

O jornalismo diz respeito a divulgar notícias importantes para que o povo possa julgar o que está acontecendo no mundo - e, em particular, as ações de seu governo. As divulgações do WikiLeaks em 2010 só diferem de outras grandes reportagens jornalísticas por serem maiores – 251.287 cabos diplomáticos, mais de 400.000 relatórios secretos do exército da Guerra do Iraque e 90.000 da Guerra do Afeganistão – e mais importantes.

(Informação relevante: eu dei um depoimento lido no tribunal esta semana buscando explicar o significado das revelações do Wikileaks.]

Surpreendentemente, comentaristas britânicos e norte-americanos estão em um estado de negação quando se trata de compreender que o que acontece com Assange poderia acontecer com eles. Eles, bizarramente, discutem que Assange não é um jornalista, embora a administração do Trump aceite implicitamente que ele é, já que o está perseguindo por atividades jornalísticas. O motivo é abertamente político, um dos absurdos dos interrogatórios é a pretensão de que funcionários nomeados por Trump fornecem um guia confiável e objetivo para a ameaça aos EUA representada pelas revelações do WikiLeaks.

Por que a mídia britânica tem estado tão silenciosa sobre o precedente sombrio que está sendo estabelecido para si mesma, se eles deveriam investigar os atos de um governo dos EUA que não faz segredo de sua hostilidade ao jornalismo crítico? Dez anos atrás, The New York Times, The Guardian, Le Monde, Der Spiegel e El Pais publicaram extratos dos documentos do WikiLeak em suas primeiras páginas por dias a fio, mas há muito tempo se distanciaram de seu fundador. No entanto, por mais que desejem o contrário, o futuro da imprensa está ligado ao destino de Assange.

Alan Rusbridger, o ex-editor do Guardian sob o qual os cabos e registros de guerra foram impressos, deixou isso claro em uma entrevista, dizendo que não tinha dúvidas sobre os danos causados à liberdade de imprensa. "O que quer que pensemos de Assange", disse ele, "ele se tornou alvo pela mesma coisa, ou por coisas semelhantes, que muitos jornalistas tem feito, então é surpreendente para mim que mais pessoas não consigam ver que este caso tem implicações preocupantes para todos os jornalistas."

O perigo para uma imprensa genuinamente livre é, de fato, tão gritante que é um mistério a razão pela qual a mídia, em geral, tem ignorado a questão. O coronavírus é uma razão que contribui, mas tratar Assange e WikiLeaks como párias antecede muito a epidemia. Os especialistas querem saber se ele é, da fato, um jornalista, embora ele, claramente, seja um jornalista da era eletrônica, publicando a informação crua em uma maneira diferente dos jornais tradicionais, do rádio e da televisão. Sua política é despudoradamente radical, o que aliena muitos comentadores mais.

Muito mais importante, no entanto, para evitar que Assange fosse retratado como um lutador heroico contra o sigilo estatal e o converter em uma figura de comportamento inaceitável, foram as alegações de estupro feitas contra ele na Suécia em 2010. Esse caso levou a uma investigação sueca que se prolongou por nove anos, foi dada por encerrada três vezes e por três vezes foi reiniciadas, antes de ser definitivamente abandonada no ano passado quando a prescrição se aproximava. Assange nunca foi acusado de qualquer coisa e esse assunto nada tem a ver com as audiências para sua extradição, mas ajuda explicar porque parte tão grande da mídia ignorou ou desmereceu os interrogatórios de Old Bailey. Muitos da direita política sempre acreditaram que o lugar de Assange era na prisão e muitos progressistas sentiram que as alegações de estupro sozinhas o excomungaram.

Daniel Ellsberg, que vazou os documentos do Pentágono para a mídia em 1971, deu provas ao tribunal de que ele havia vazado a história secreta da Guerra do Vietnã para mostrar ao público que a guerra continuava embora seus autores soubessem que ela não poderia ser vencida. Disse que Assange tinha feito algo muito parecido, desta vez com relação às guerras no Iraque e no Afeganistão, e que os papéis do Pentágono e as divulgações de WikiLeaks eram similares em cada detalhe.

O saga de Julian Assange e do WikiLeaks já é tão longa e complicada que vale a pena se lembrar da luz penetrante que lança nas atividades do governo dos EUA nesses e em outros lugares. Eu mesmo usei, pela primeira vez, o material das divulgações no verão de 2010 para explicar porque o governo afegão, apoiado por 90.000 soldados dos EUA, não ganhava uma guerra que Washington dizia ser na defesa da democracia.

Eu citei um relatório de um oficial norte-americanos de casos civis em Gardez, Afeganistão, em 2007, que disse que tinha sido informado, de modo muito direto, por um membro do conselho provincial afegão na cidade que “a opinião geral dos afegãos é que o governo atual é pior do que o Taliban”. O oficial dos EUA lamentava que isso era absolutamente verdadeiro. A razão disso foi explicada por um outro relatório dos EUA, datado 22 outubro 2009, esta vez de Balkh norte do Afeganistão, que descreveu como os soldados e as policiais afegãos maltratavam os civis locais que se recusavam cooperar em uma busca. Eu fiz uma matéria contando, como dizia um relatório oficial dos EUA, que “um chefe de polícia do distrito estuprou uma menina de 16 anos e quando um civil protestou o chefe de polícia mandou seu guarda-costas atirar nele. O guarda-costas se recusou a fazê-lo e foi morto pelo chefe da polícia.”

Tais revelações explicam por que a guerra afegã ainda está acontecendo e dezenas de milhares de pessoas morreram – e por que o governo dos EUA está tão interessado em colocar Assange na cadeia pelo resto de sua vida.

Patrick Cockburn é o autor de “War in the Age of Trump” [Guerra na Era de Trump], editora Verso.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de César Locatelli



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