Mídia

Boechat e suas contribuições para o declínio civilizatório dos brasileiros

Na forma dos histriônicos e populares apresentadores de programas policialescos, jornalista comentava notícias sem se importar com a qualidade do debate político no país

19/02/2019 10:28

Boechat: influência no comportamento social e na forma como os grupos e classes se organizam no Brasil (Divulgação/Band)

Créditos da foto: Boechat: influência no comportamento social e na forma como os grupos e classes se organizam no Brasil (Divulgação/Band)

 
Passados alguns dias da morte do jornalista Ricardo Boechat e das manifestações que se seguiram, já dá para falar do caso com mais distanciamento e aprofundar algumas reflexões. A surpresa do fato dramático gera quase sempre uma unanimidade de respostas emocionadas, enaltecendo as virtudes da vítima, o que é compreensível nesse tipo de acontecimento. A mídia padroniza a cobertura das mortes de pessoas públicas com a indefectível sucessão de depoimentos elogiosos de amigos, colegas, admiradores e autoridades. Críticas esparsas, neste caso, surgiram nas redes sociais.

Por aqui busco dois outros caminhos para tratar do assunto: a importância do jornalista na sobrevida dos meios de comunicações eletrônicos tradicionais, o rádio e a televisão e a repercussão do conteúdo por ele difundido no atual clima político-cultural vivido pelo país.

A morte do rádio já foi anunciada algumas vezes mas ele segue vivo. A televisão não o derrotou como muitos previam. A tecnologia ajudou com o transistor que o tornou portátil e com a ampliação do uso da freqüência modulada (FM), favorecendo a qualidade da recepção. Mas foi no conteúdo que o rádio mostrou sua resistência ao deixar as grandes orquestras e os programas de auditório para a TV passando a se apoiar no tripé música, notícia e esporte. Com a internet, ao invés de sucumbir ao concorrente que surgia com igual ou maior agilidade, a ela incorporou-se ampliando globalmente sua possibilidade de audiência.

Não pode fugir, é claro, da lógica capitalista e das mazelas que cercam a legislação da radiodifusão no Brasil. A concentração dos meios fez com que, com raras exceções, as emissoras passassem a ser controladas por interesses políticos, econômicos e religiosos, não excludentes. Com essa limitação estrutural o rádio conservou a audiência de públicos tradicionais em regiões isoladas, de fieis seguidores matinais - um dos seus horários nobres – e a recepção em automóveis e caminhões pelo país.

Boechat entra aqui. Ocupou um espaço quase em extinção no rádio, o de dar e comentar notícias de forma muito pessoal e aparentemente sem nenhuma restrição. Diferenciava-se tanto dos “especialistas” de outras emissoras noticiosas, quase sempre enfadonhos, como dos direitistas extremados e se aproximava, na forma, dos histriônicos e populares apresentadores de programas policialescos. Lembrava um pouco o apresentador Vicente Leporace (1912-1978) que, na mesma emissora e praticamente no mesmo horário, lia e comentava as notícias dos jornais do dia no seu “O Trabuco”, entre 1962 e 1978. Foi a recuperação de um formato de rádio bem sucedido no passado mas que desaparecera.

Na TV a situação é um pouco mais complexa. Por aqui não tivemos um telejornalismo marcado pela figura do âncora, como na Europa e nos Estados Unidos. O modelo nativo foi o do apresentador, limitado a leitura das notícias. A censura estatal da ditadura cívico-militar (1964-1985) e a patronal em todos os tempos impediu a formação de jornalistas capazes de ler e interpretar o noticiário nos limites e na linguagem da televisão. Os que se aventuraram a isso tornaram-se meros propagandistas das posições políticas oficiais ou dos interesses empresariais dos patrões. Vindo da mídia impressa, Boechat surpreendeu ao se adaptar à televisão e conseguiu se aproximar dos modelos de âncora menos panfletários, tanto na forma como no conteúdo. Ainda assim imposições patronais limitavam, por exemplo, o tratamento de notícias referentes aos movimentos sociais, especialmente aqueles relacionados ao campo. O agronegócio e a pecuária são muito influentes na empresa em que trabalhava.

Ai entra a questão dos conteúdos difundidos pelo jornalista nos dois veículos. Ela não se restringe a problemas políticos ou empresariais, vai além. Entra na esfera do comportamento social e da forma como os grupos e classes se organizam no Brasil neste momento histórico. A informalidade do discurso, tão atraente para a audiência, acabava muitas vezes descambando para um desprezo perigoso de valores civilizatórios duramente conquistados pela sociedade. Ao invés de tentar elevar, ainda que sensivelmente, a média geral de civilidade, Boechat fazia o contrário, jogava para baixo.
 Mandar alguém, por mais ignóbil que seja, “chupar uma rola” em rede nacional, não contribui em nada para melhorar a convivência entre os seres humanos. Ou mandar a ex-presidenta Dilma fazer uma “visita íntima” ao ex-presidente Lula apenas favorece a desqualificação do debate político, já tão precário no Brasil. São contribuições perniciosas para o uso cada vez mais disseminado de uma linguagem chula e para o tiroteio verbal inconsistente, frequentes nas redes sociais mas não apenas nelas.
 A mídia, ao criminalizar com denodo a política, fez com que essa atividade caísse, com poucas exceções, nas mãos de aventureiros e criminosos. Boechat, infelizmente, deu sua contribuição para isso.



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