Mídia

Boletim Editorial #1

Novidade analisa os editoriais publicados por O Estado de S. Paulo, em O Globo e na Folha de S. Paulo de terça a segunda-feira

23/08/2019 18:57

 

 
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A partir desta semana o Manchetômetro lança um novo boletim semanal de análise dos editoriais da grande mídia brasileira. Iremos analisar os editoriais publicados por O Estado de S. Paulo, em O Globo e na Folha de S.  Paulo de terça a segunda-feira. Daremos prioridade aos cinco temas mais recorrentes no conjunto dos textos e também apresentaremos gráficos específicos explorando o perfil de cada veículo.

Nesta semana (13 a 19 de agosto), foram publicados 49 editoriais, que destacaram principalmente questões ligadas ao campo da Economia (14 textos), críticas a Jair Bolsonaro (8 textos) e críticas ao governo federal (7 textos).

Estadão

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A semana de 13 a 19 de agosto no Estadão focou principalmente o tema da Economia. O jornal defende a tese de que o Brasil conseguiu escapar da recessão na primeira metade do ano, projetando para o terceiro trimestre alguma melhora, embora o prognóstico seja que a situação não deve melhorar em 2020. Segundo o Estadão, a recuperação é possível desde que o país saia do marasmo econômico atual e comece a andar, o que o atual governo ainda não fez. O jornal ainda defende a Medida Provisória 881, conhecida como MP da Liberdade Econômica, como alternativa para reduzir a “enorme burocracia” que limita o setor produtivo brasileiro. O jornal, contudo, cobra mais medidas para a livre-iniciativa no país, afirmando que a MP sozinha não é suficiente, mas apenas um bom primeiro passo para sanar as desventuras da população. Seria preciso a soma de austeridade, medidas efetivas e bom planejamento para superar a crise.

O Estadão critica, ainda, o governo federal em diversas questões, como a mudança constante na configuração do Executivo, as mudanças no sistema de classificação da Anvisa e as decisões do MEC de descontinuar programas da educação básica. O presidente também é bastante criticado. O diário compara os discursos de Bolsonaro e Lula para defender que líderes políticos deveriam estar mais preocupados com responsabilidade fiscal, desenvolvimento sustentado e política social e menos com uma polarização esquerda x direita. O jornal questiona os argumentos utilizados por Bolsonaro de que ele representa a maioria dos brasileiros por ter vencido o segundo turno da eleição de 2018 e relembra os dados das últimas pesquisas de opinião para defender que o governo tenha programas consistentes que transmitam confiança e esperança. Além disso, o Estadão critica o fim dos radares móveis nas rodovias, decisão que afeta a segurança e a vida de inúmeras pessoas. A decisão é vista como uma forma de assegurar a imprudência e estimular o descumprimento da lei, algo que um presidente não deveria promover.

O GLOBO

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Nos editoriais d’O Globo da semana a temática mais presente foi economia, destacando-se, nesse âmbito, críticas ao protecionismo econômico na guerra comercial entre EUA e China e a defesa de maior segurança jurídica para investimentos como forma de alavancar a participação do setor privado. Ainda no campo econômico, aparece a defesa de formalização da autonomia de atuação do Banco Central nas decisões sobre juros, por exemplo.

Entre os assuntos principais, apareceu também Bolsonaro. O presidente é alvo de críticas pela falta de decoro, pelo seu posicionamento na questão amazônica e pela intenção de exercer influência sobre a PGR.

O jornal dá, ainda, prosseguimento à defesa de mudanças no sistema da Previdência e de realização de outras reformas, mesmo que demandem medidas austeras, para controlar contas públicas e retomar crescimento econômico. Também não foi a primeira vez que O Globo defendeu a manutenção de Estados e Municípios na reforma.

As eleições argentinas também se destacaram nos editoriais. Em dois textos, o jornal aponta pânico nos mercados e profetiza ameaças às investigações de casos de corrupção durante os anos kirchneristas diante da vantagem eleitoral da chapa que tem Cristina Kirchner como vice nas prévias das eleições.

Em menor escala, o discurso editorial d’O Globo aborda o que vê como a “degradação” do serviço dos correios e atribui a responsabilidade à “exploração sindical e partidária” que teria permitido a corrupção na estatal e nos seus fundos de pensão, citando o Mensalão e o primeiro governo Lula. Defendendo pauta antiga do jornal, o editorial destaca que a privatização merece ser considerada.

No que diz respeito à tramitação da lei contra o abuso de autoridade, O Globo defende como necessários vetos a “armadilhas” cuja intenção é ” atemorizar juízes e promotores”.

Folha

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Seguindo a tendência dos demais jornais, a Folha de S. Paulo dedicou maior espaço para a pauta econômica. Do contexto global a medidas provisórias nacionais, o jornal oscilou entre a narrativa negativa quanto ao horizonte de possibilidades para a expansão econômica, e a manutenção de posicionamentos antigos sobre saídas políticas, como é o caso do corte de gastos. Acentuando a imprevisibilidade dos rumos econômicos em escala global, a Folha frisa que o Brasil ainda possui estratégias possíveis, como a redução da taxa SELIC, mantendo controle das despesas. Esta pauta dos gastos é recorrente no jornal, especificamente em defesa da famosa PEC 241, do teto de gastos. Responsabilizando a Previdência, os salários do funcionalismo e as reduções em obras públicas, o periódico absolve o teto de gastos como promotor do estrangulamento econômico. Entre o panorama externo negativo, o otimismo do jornal com a Reforma da Previdência e a redução dos juros, também entra em pauta a chamada MP da Liberdade Econômica. Considerado um experimento meritório pelo caráter liberal, o jornal aponta para a necessidade de algumas acomodações jurídicas.

Apesar da economia ter maior presença no período analisado, não faltaram editoriais onde o Presidente da República e seu governo foram alvos de críticas pela Folha. As temáticas foram variadas, desde a denúncia do descaso com a vacância de postos importantes no MEC, passando pelo apelo ao Senado para que seja o fiel da balança no tocante às indicações do Executivo, especialmente no caso Eduardo Bolsonaro, pela suspensão dos radares de velocidade móveis e até pelo chamado “desdém governista” a respeito da pauta ambiental. O ponto de crítica que unifica essas pautas é a sobreposição do debate ideológico, por parte do presidente e seu governo, às demandas do Estado e da população brasileira.

Ainda sobre temas nacionais, a Reforma da Previdência das Forças Armadas foi noticiada como tardia, visto que os princípios considerados na Reforma aprovada na Câmara, defendidos pela Folha, não foram estendidos aos militares, que custam 17 vezes mais que um segurado do INSS, quando inativos. O partido do presidente também foi tema de editorial, que o considerou pouco coeso diante das metas de expansão de filiados, em especial para as eleições de 2020.

Conclusão

Notamos que os jornais priorizam os mesmos temas na cobertura desta semana. Primeiro, enfatizam a questão econômica do país. Os pontos são os mesmos: responsabilidade pública, que passa pela contenção de gastos da máquina estatal e melhores condições para a iniciativa privada empreender e, supostamente, criar novos empregos no país. Tanto a discussão sobre a Reforma da Previdência, como sobre a MP da Liberdade Econômica exemplificam a ênfase que os jornais deram a essa temática.

Os jornais fazem uníssono ao criticarem Bolsonaro e seu governo por incompetência e por suas      ações, consideradas ideológicas, que se sobrepõem aos interesses da população. A Eleição na Argentinatambém é destacada, a partir da evidente preocupação dos jornais com a possível volta do kirchnerismo ao poder, capitaneado pela “corrupta” Cristina Kirchner, que mostraria que o perigo do populismo ainda ronda a América Latina. Na mesma onda de demonização da esquerda, O Globo e Estadão forçam comparações bastante estapafúrdias de Bolsonaro com Lula, passando a impressão de que representam dois radicalismos igualmente indesejáveis para o país – mote que foi repetido inúmeras vezes por esses mesmos jornais durante o segundo turno da campanha eleitoral passada.

Em suma, as posições dos três jornais são similares sobre os principais temas que eles mesmos agendam como os mais relevantes nesta semana. Continuaremos acompanhando os editoriais para descobrirmos se este fato foi uma mera coincidência, ou se estamos diante de uma prática recorrente da grande mídia brasileira.

*Publicado originalmente no Manchetômetro



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