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Bolsonaro entrega comando da EBC para militares da reserva com salários de R$ 20 mil

Desde que o presidente assumiu, a estatal já demitiu 90 trabalhadores e gastou R$ 1,4 milhão com rescisões

25/11/2020 14:23

Para Lalo Leal, EBC passa por um processo

Créditos da foto: Para Lalo Leal, EBC passa por um processo "imoral", em que pessoas sem habilitação ocupam cargos técnicos (EBC/Agência Brasil)

 

Sete militares da reserva ocupam postos de comando na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), recebendo, somados, R$ 146 mil por mês, R$ 20 mil de média. Seis deles, foram admitidos em 2019, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Apenas um foi contratado em 2018, quando Michel Temer (MDB) presidia o país.

As informações foram adquiridas via Lei de Acesso à Informação (LAI), através do coletivo Fiquem Sabendo. De acordo com o levantamento, os militares Cássio Murilo Garcia Coutinho (R$ 21 mil), Cristiano Mendonça Filho (R$ 17 mil), Hidenobu Yatabe (R$ 26 mil), Luiz Gustavo Franco da Rocha (R$ 14 mil), Marcio Kasuaki Fusissava (R$ 25 mil), Pedro Felix de Goes Junior (R$ 14 mil) e Roni Baksys Pinto (R$ 26 mil) ocupam cargos de direção, chefia e assessoramento.

Havia um oitavo militar da reserva na lista, era o general Luiz Carlos Pereira Gomes (R$ 29 mil), que ocupava a presidência da EBC, mas que foi exonerado em 29 de setembro. Em seu lugar, assumiu o publicitário Glen Lopes Valente, que ficará no comando da estatal até 31 de outubro de 2021.

Márcio Garoni, funcionário da empresa e diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) aponta que esses miliares "são o braço do governo dentro da empresa".

"Eles são os quadros do governo que gerenciam a EBC em cargos estratégicos. São cargos de direção, que definem as diretrizes da empresa, que basicamente é um desmonte. No Maranhão, a EBC foi fechada, no ano passado. A comunicação está cada vez mais institucional e governista na EBC”, afirma.

Para o sociólogo e jornalista Laurindo Lalo Leal, a perda de autonomia da estatal vem desde 2016. “Em primeiro lugar é preciso dizer que a ocupação das emissoras públicas em golpes de estado pelo mundo é uma prática recorrente. Aqui não foi diferente. Um dos primeiros atos do governo golpista de Michel Temer foi acabar com o caráter público da EBC transformando-a em empresa governamental”

Ainda de acordo com Leal, durante o atual governo houve um crescimento “imoral” no número de pessoas que passaram a ocupar funções especializadas “sem nenhuma habilitação para ocupá-los”.

“No governo Bolsonaro esse processo foi aprofundado e passou a ser operado diretamente por militares colocados em postos de comando. Uma prática de aparelhamento aplicada a praticamente todos os órgãos do governo. Militares da reserva principalmente viram nessa política a oportunidade de aumentarem significativamente os seus soldos.”

Demissões

Enquanto coloca militares da reserva em postos de comando, com salários altos, a EBC tem reduzido o seu quadro de trabalhadores. Desde 1 de janeiro de 2019, data da posse de Jair Bolsonaro, 90 trabalhadores da estatal foram demitidos. As exonerações custaram R$ 1,4 milhão aos cofres públicos.

“O prejuízo para a sociedade, como se vê, é ao mesmo tempo financeiro e moral. Além, claro, da apropriação por uma facção político-militar de um importante instrumento social de informação”, afirma Leal.

Para Garoni, a nomeação de militares para esses cargos mostra “o próprio desprestígio que o governo tem com o corpo de funcionários".

"Vemos militares em cargos diferentes na empresa, enquanto a empresa tem funcionários de carreira com condições de assumir esses postos, não precisaria gastar a mais com esses cargos”, afirma.

Interferência

No último dia 11 de novembro, a Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública, que reúne sindicatos de jornalistas, organizações da sociedade civil e profissionais preocupados com interferências do governo federal na empresa, denunciou mais uma mudança na programação da emissora sem participação do público ou da equipe produção.

O alvo da vez, ironicamente, foi o programa Sem Censura, criado em 1985 para celebrar a liberdade de imprensa e o fim da ditadura militar (1964-1985). Um dossiê produzido pelos próprios trabalhadores mostrou que, de janeiro a julho de 2020, o governo Bolsonaro interferiu 138 vezes na empresa.

Segundo nota divulgada pela Frente, mudanças no formato tornarão o programa "chapa branca". "Desde que o governo Bolsonaro decidiu usar a TV Brasil para empregar amigos e fazer promoção pessoal, o Sem Censura vem sofrendo intervenções", diz o texto.

Edição: Leandro Melito

*Publicado originalmente em 'Brasil de Fato'

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