Mídia

Brasil considera crime reportagem feita por Glenn Greenwald

Ele tem enfrentado contínuas ameaças desde que revelou que os textos vazados mostravam a atividade ilegal de um juiz que ajudou a abrir caminho para a eleição de Jair Bolsonaro

22/01/2020 15:11

(Ilustração/The New York Times/Jimmy Chalk)

Créditos da foto: (Ilustração/The New York Times/Jimmy Chalk)

 
Pelo Conselho Editorial do jornal The New York Times

(O conselho editorial é um grupo de jornalistas cujas opiniões são informadas por experiência, pesquisa, debate e certos valores de longa data. O conselho é separado da redação.)

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21 de janeiro de 2020

A denúncia do governo brasileiro contra o jornalista americano Glenn Greenwald é um caso, cada vez mais familiar, de se atirar no mensageiro e ignorar a mensagem.

Greenwald é mais conhecido por seu papel na divulgação de documentos de segurança nacional vazados por Edward Snowden, ex-contratado pela Agência Nacional de Segurança (NSA), em 2013. No Brasil, para onde ele se mudou há 15 anos para viver com seu agora marido, um congressista brasileiro de oposição, Greenwald cofundou uma versão em português do seu site de jornalismo investigativo, The Intercept, que se tornou um espinho para o presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.

Em junho passado, The Intercept Brasil publicou uma série de artigos, com base em mensagens de celulares que foram vazadas, que pareciam mostrar conluio ilegal de Sérgio Moro com promotores, o juiz que havia se tornado uma superestrela no combate à corrupção, por prender vários empresários e políticos, incluindo o popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A prisão de Lula o eliminou da disputa presidencial, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro - que então nomeou Moro como seu ministro da Justiça. Agora, além desse conflito de interesses implícito, as mensagens hackeadas sugeriram que Moro havia violado a lei brasileira, segundo a qual os juízes deveriam ser árbitros neutros, para ajudar Bolsonaro. E isso por um homem tratado como celebridade por seu ataque à corrupção solidamente estabelecida.

Mas os partidários de Bolsonaro rapidamente se concentraram em Greenwald e não em Moro. Greenwald e seu marido, David Miranda, sofreram ameaças de morte e ataques homofóbicos. A imprensa brasileira informou que a Polícia Federal, que está sob o comando de Moro, pediu ao Ministério das Finanças que investigasse as "atividades financeiras" de Greenwald, e a polícia disse que havia iniciado uma investigação sobre a invasão de celulares que levou aos vazamentos.

A denúncia criminal de 95 páginas tornada pública na terça-feira afirmou que Greenwald não apenas recebeu e escreveu sobre mensagens invadidas, mas na verdade desempenhou um "papel claro na facilitação da execução de um crime". Por exemplo, os promotores disseram que Greenwald se comunicava com os hackers enquanto monitoravam as conversas particulares em um aplicativo de mensagens.

Especialistas jurídicos e políticos da oposição disseram que as evidências são fracas. Uma investigação da Polícia Federal, que identificou e prendeu o hacker, já havia liberado Greenwald, e um juiz da Suprema Corte havia declarado que a publicação das mensagens estava protegida pela Constituição Brasileira.

Greenwald disse que "exerceu extrema cautela como jornalista para nunca se aproximar de qualquer participação" com os hackers; ele também observou que a denúnica foi feita pelo mesmo promotor que havia tentado, e falhou, processar o chefe da Ordem dos Advogados do Brasil por criticar Moro.

Infelizmente, atacar uma imprensa livre e crítica se tornou uma pedra angular da nova geração de líderes iliberais no Brasil, como nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo. As acusações de irregularidades são descartadas como "notícias falsas" ou calúnias com motivação política, e o poder do Estado é usado não contra os funcionários acusados, mas contra o repórter.

Em seu relatório de 2018 sobre liberdades de imprensa, a organização Repórteres Sem Fronteiras alertou que um "clima de ódio e animosidade" criado pelos líderes, em relação aos jornalistas, representava uma "ameaça às democracias".

"Cada vez mais líderes eleitos democraticamente deixam de ver a mídia como parte essencial da democracia, mas como um adversário ao qual demonstram abertamente sua aversão", afirmou o relatório. Quando Bolsonaro foi eleito presidente em 2018, o Repórteres Sem Fronteiras o qualificou como "uma séria ameaça à liberdade de imprensa e à democracia no Brasil".

O presidente Trump pode não ter afetado as liberdades de imprensa nos Estados Unidos - suas tradições e instituições são fortes demais para isso -, mas seu incessante repúdio a matérias que ele não gosta, rotulando-as de "notícias falsas", e seus ataques ultrajantes a repórteres como "inimigos do povo” deram assistência e encorajamento a gente como Bolsonaro, que alimenta repulsa a repórteres por desdém pessoal pela imprensa livre e como um meio cínico de despertar a raiva de seus seguidores.

Os artigos de Greenwald fizeram o que uma imprensa livre deveria fazer: revelaram uma verdade dolorosa sobre os que estão no poder. Furar a imagem heroica de Moro foi obviamente um choque para os brasileiros e prejudicial para Bolsonaro, mas exigir que os defensores da lei sejam escrupulosos em sua adesão a ela é essencial para a democracia. Atacar os portadores dessa mensagem é um desserviço sério e uma ameaça perigosa ao Estado de Direito.

*Publicado originalmente no The New York Times | Tradução de César Locatelli



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