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Brasil: país sem futuro?

01/06/2005 00:00

Flávio Aguiar

Com que lidam os arqueólogos? Com vestígios, sombras, ruínas.

O Brasil, caro arqueólogo, é o espaço ideal para investigar as ruínas do futuro.

O Brasil era chamado de “o país do futuro”. A expressão foi consagrada pelo escritor austríaco e judeu Stefan Zweig, como título de um livro escrito, parece, por encomenda do presidente Getúlio Vargas: "Brasil, país do futuro".

Stefan Zweig, refugiado da Segunda Guerra, suicidou-se com sua companheira na cidade de Petrópolis, na Serra dos Órgãos, perto do Rio de Janeiro. O futuro se lhe desabava, com as vitórias nazistas e fascistas na Europa. Não sobreviveu ao auge da guerra.

Nós, da esquerda, nunca gostamos da encomenda nem da frase. Pobres de nós. Primeiro a ditadura militar de 1964 glosou a frase num de seus motes de propaganda: “O Brasil era o país do futuro. Agora, o futuro chegou”. E o futuro era aquilo, a negação da esperança, o horror consentido, desfrutado, ou suportado. Ali começou o suicídio do futuro no Brasil. Como tantos lutadores da liberdade, e não só no Brasil, o futuro começou a “ser suicidado”.

Depois os neoliberais completaram esse suicídio do futuro. A história deixava de ser: a vida era aquilo ali, a administração da iniqüidade. A disciplina da economia passou a ser a arte de explicar o insuportável, e a política o engenho de geri-la.

O Brasil, como queríamos há tantos anos nós, os da esquerda, deixou de ser o país do futuro. Mas não porque ele chegara, ou nós, afinal, chegássemos a algum caminho presente. O Brasil tornou-se um país sem futuro. O país do “cronicamente inviável”, como diz o título de um filme que fez fama nestas épocas.

Do filme eu até gostei. Do título não. Mas ficou-me a lição: às vezes, a gente constrói pensando em linhas certas os títulos tortos dos grandes erros. Passamos nós, os da esquerda que crescemos depois da guerra que levou Zweig e a companheira ao suicídio, boa parte de nosso tempo criticando acerbamente a Consolidação das Leis do Trabalho. Acusávamos a nefanda lei de “fascista”, de inspirada na “Carta del Lavoro” de Mussolini.

Depois nos demos conta de que não era nada disso. A tal da lei era apenas um ajuntamento de princípios e meios baseados nas doutrinas de Augusto Comte, com algum verniz corporativo no que tangia a organização sindical. Que ironia! Ajudamos a pavimentar a sua abolição sim. Mas não fomos nós e a nossa ânsia de liberdade que a aboliram.

A ditadura de 1964, essa coveira (ou caveira) do futuro, começou a aboli-la. Depois vieram os neoliberais e afastaram grande parte da população do alcance da lei. Criaram a “informalidade”, ou seja, a exclusão consentida, degustada, ou suportada apesar de insuportável.

O governo de JK quis avançar 50 anos em 5. Durante os vinte e um anos de ditadura no Brasil o tempo tornou-se espesso, opaco. As pessoas passaram, o tempo não. Depois veio a democracia, e a construção de uma nova hegemonia conservadora. E ao final do século XX, de 1994 a 2002 da era cristã, o Brasil conseguiu o milagre de voltar 80 anos em 8.

Que façanha! Os neoliberais implodiram o conceito de trabalho como realização pessoal e coletiva. Destruíram e ainda estão destruindo a legislação do e para o trabalho a marretadas, ou deletações, como se quiser. Pelo menos nós, os da esquerda, temos inteira liberdade para escolher as palavras. Já é alguma coisa, pois durante a ditadura nem isso tínhamos.

Eu moro numa cidade chamada de São Paulo, pois foi fundada no dia em que este santo teria se convertido ao cristianismo. Ele (o santo) teve uma visão que o derrubou do cavalo. Pois eu também tive nesses dias, nessa cidade, uma visão lancinante. Ou rocinante, já que, como o amigo arqueólogo pode ver, eu guardo em minha alma algo daquela de um certo cavaleiro da Mancha, embora na minha esse algo seja temperado por um pouco de ironia aprendida com seu fiel escudeiro, Sancho, que andava pacientemente num burrico.

Tomei o metrô desta cidade na direção de sua periferia das mais remotas. Por um desses azares da sorte, sentei-me de costas para o destino. E vendo o caminho desta posição compreendi afinal a metáfora do anjo de Walter Benjamin, aquele que, saído do paraíso, vai para o futuro de costas, vendo a história como a construção de ruínas.

Fomos, eu e o metrô, avançando (eu de costas) pelos bairros que antes faziam parte do cordão industrial desta cidade, e que puxavam seu apelido (com o estado) de “locomotiva do Brasil”. Fomos passando pelas antigas fábricas, as antigas casas alinhadas dos bairros operários. E fomos vendo esse cenário de um Brasil que caminhara ali para o futuro, ou o que se pensava sê-lo, transformado em ruínas, em paredes rabiscadas com hieróglifos incompreensíveis, com sujeira e abandono por toda parte.

Não, não, meu amigo ou amiga, pois podes ser uma arqueóloga, o que mais me impressionou não foram as paredes encardidas. Mas foi poder ler ali, com meus olhos, minha formação, meu passado, as ruínas dos sonhos desfeitos, das esperanças espezinhadas, foi poder ver a sombra e os vestígios de gente fechando as portas, abandonando aqueles lugares com amargor, como quem fecha as portas do seu próprio futuro.

Outros houve que dali fugiram em busca de novos horizontes. Mas de tudo, desse cruzamento de diferentes direções no tempo, só ficou a lembrança afastada daqueles operários atarefados, de gerentes esforçados, de burgueses orgulhosos, dos conflitos com a polícia, dos panfletos distribuídos clandestina ou abertamente. Em seu lugar, ficou a presença dos mendigos caminhando sem direção e o amontoado de papéis e papelões reunidos pelos catadores, transformados, ali, em anjos que coletam os restos de um mundo afogado em desprezo.

Meu arqueólogo ou arqueóloga: não pense que estou te deixando o travo de uma desesperança. Eu fui, sou e serei um lutador, e onde houve ou há ou houver uma luta pela liberdade e contra a injustiça e a desigualdade, tu encontrarás o vestígio de minha assinatura. Este é um juramento sagrado, que tive a oportunidade de fazer e renovar muitas vezes em minha vida tão curta para tanta luta. Em 1961, pela primeira vez; depois em 1964, e depois nos porões da ditadura e depois nas praças e depois para todo o sempre. É uma assinatura modesta, mas escrita com sangue e com alma, o meu sangue e a minha alma: é a assinatura que tenho, e não desejo outra, porque aprendi a ter orgulho dela e respeitá-la como o nome que herdei de meus pais e avós e transmiti a minhas filhas e ao seu futuro. Eu me comporto como um guerreiro guarani: meu nome é minha alma.

Mas este é um libelo do que percebi, de que meus e nossos movimentos precisam ter mais cuidado, precisamos aprender não só como o mundo cabe em nossas idéias e em nossos gestos, mas também como elas e eles cabem no mundo, e que este “mundo” não é de fato uma rima, como sugeria o poeta. Ele é maior do que a nossa consciência, embora ele possa caber por inteiro em nosso coração.

Caro arqueólogo ou cara arqueóloga: nossa charla já vai longa. Para encerrá-la, quero contar o que me inspirou tais reflexões, que carrego por muito tempo aqui “do lado esquerdo do peito”. Podes procurar, em alguma cidade deste mundo velho sem porteira, uma alameda, um beco, um recanto. Ali há uma grade de ferro que, quando a vi, já estava enferrujada e coberta por pedaços de uma tinta encarquilhada. A rua prossegue mais abaixo, mas entre a parte alta, interrompida pela grade, e parte mais embaixo, há um pequeno abismo intransponível, pois não há escada nem passagem. De um lado e outro da alameda e do recanto deve haver ainda algumas árvores, vetustos jacarandás, plátanos sobranceiros.

Pois ali um dia, num fim de tarde, parou um carro, e dele descemos eu e ela, a trocar palavras de uma paixão mútua e jurada. Mas sem caminho vislumbrado. E elas, paixão e juras, foram sacramentadas num longo beijo de boca a boca e de alma a alma, que nos colheu dos sótãos aos porões, da pele debaixo das unhas aos extremos de nossa respiração entrelaçada.

Escrevemos nossos nomes num pedaço de papel e o pusemos debaixo de uma pedra. E nos fomos pela vida afora. Talvez o papel ainda lá esteja, ou talvez por essas estranhas alquimias nossos nomes tenham sido absorvidos pelas árvores, testemunhas serenas daquele encontro e daquele adeus. Quem sabe acompanharam os florescimentos e o vento levou-os a pousar em outras partes? Vá se saber. Nunca mais voltei, lá não quero voltar. Pelo menos ainda. Tempos depois ela se foi para os pagos do além. Deixou um vazio do tamanho da eternidade em minhas querências.

Não, não, caro arqueólogo e cara arqueóloga, não me tornei um melancólico. Vivi com sofreguidão tudo o que a vida me trouxe e eu pude colher e acolher, deixando-me também colher e acolher e, às vezes, até ser ceifado. E ainda quero e vou viver muito e de braços abertos.

Mas a memória daquele recanto me ensina todo dia que a única cicatriz de fato indelével é a do futuro que não houve.

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N.E.: A carta abaixo foi enviada por Flávio Aguiar, no dia 16 de junho de 2006, a este editor:

CARTA AO EDITOR DO PRESENTE



Caro amigo Eduardo Carvalho, editor das cartas ao arqueólogo do futuro:

Fiquei espantado com a repercussão de minha carta nesta simpática página que editas. Com a divulgação em destaque na página Uol, essa ressonância, é claro, aumentou. Em poucos dias, recebi mais de trezentas manifestações sobre a carta, incluindo as que me chegaram por outros meios e até diretamente, em conversas, telefonemas, etc. Vieram de todos os recantos do Brasil, de Portugal, França, Estados Unidos, gente de todas as idades e crenças políticas ou ideológicas.

É impossível respondê-las uma a uma, de modo que respondo ao conjunto por intermédio desta carta para o amigo.

Algumas cartas reclamavam ou de meu estado de ânimo, identificado como “pessimista”; outras reclamavam em tom irado de meu esquerdismo, dizendo que depois de tudo o que fizéramos de ruim, chorávamos em cima do leite derramado.

Na frente política, uma me chamou especial atenção, a de um leitor que se dizia tucano e que achava que a carta não tinha sido escrita para ele, mas que assim mesmo ele se identificara com ela. Achei notável, pelo desprendimento e pelo exemplo. A carta foi escrita também para ele sim; não é uma carta partidária, ainda que seu autor tenha partido, coisa que nunca escondi.

Muitas houve de solidariedade com os sentimentos envolvidos, de compartilhar das desilusões e das esperanças, e de uma trajetória de quem era criança no pós-guerra, jovem em 64, estudante universitário em 68, e já veterano militante e escritor nas memoráveis campanhas de 84/85.

Muitas cartas procuravam me animar, achando que a melancolia me desanimara. Houve quem achasse a carta “triste”. Não a acho triste propriamente. Mas é fato que nela há aquele tom crepuscular de quem olha de frente perdas, conquistas, e constrói uma memória. Se alegrias há, as saudades são inevitáveis.

Olha, Eduardo, tudo isso me animou muito mesmo, até as cartas que manifestavam algum desprezo pelo que eu tinha escrito, ou por seu tom, ou pelo meu renitente esquerdismo.

Queria te agradecer por essa oportunidade, e por teu intermédio a todos esses leitores e essas leitoras, por sua coragem de se manifestar, compartilhando comigo, no mais das vezes um desconhecido, seus sentimentos, crenças, coragens, delicadezas e exaltações.

Continuemos lutando.

Um abraço,
Flávio Aguiar


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