Mídia

Cães de Guarda

22/03/2004 00:00

Agência Carta Maior

“A investigação, cuidadosa e inovadora, reconstrói em grande
parte o universo dos próprios censores, por meio de extensas
entrevistas tanto com esses, como com vários jornalistas.
Traz à tona, portanto, a fala desse grupo conhecido pelo uso
do lápis vermelho e da tesoura e sua face pouco vislumbrada.
(...)

Outro mote da narrativa é igualmente de extrema
originalidade: focada na análise da colaboração de
jornalistas com o regime, sua investigação pontua o caso do
periódico Folha da Tarde. U uma história até agora obscura,
revelada aqui com objetividade e com uma grande sensibilidade
às experiências de vida dos indivíduos envolvidos.”
(Michael Hall)

Doutora em História Social, Beatriz Kushnir lança pela Boitempo, nos 40 anos do golpe de 1964, livro sobre um dos aspectos fundamentais do regime militar: sua relação com os órgãos de imprensa, da censura à colaboração. “O objetivo é iluminar um território sombrio e desconfortável: a existência de jornalistas que foram censores federais e que também foram policiais enquanto exerciam a função de jornalistas nas redações.” – explica Beatriz na introdução do livro.

A pesquisadora explora a formação, as bases jurídicas e as diretrizes que orientavam o trabalho da censura, baseando-se em extensa pesquisa documental além de entrevistas, inclusive com onze censores – aspecto inédito – cujo trabalho era “filtrar”, na imprensa e nas artes, o que incomodasse o regime não só no campo político, como também na cultura e até no campo da moral.

Outro foco do trabalho é a cumplicidade da imprensa, especialmente da 'Folha da Tarde' – veículo onde trabalhavam vários militantes de esquerda até a época em que o jornal ficou conhecido como Diário Oficial da Oban (Operação Bandeirantes) – com o regime militar e seu aparelho repressivo: os diretores do jornal eram ao mesmo tempo funcionários da polícia, reconhecidamente. Eles mesmos confimam em entrevistas. O livro toca num tema delicado, e indiretamente critica historiadores de renome que fazem a história da imprensa “esquecendo” o caso da FT.

"Cães de guarda" explora os limites entre a censura, a auto-censura dos jornalistas e a complicada convivência entre governo e imprensa durante a ditadura militar.

Beatriz Kushnir é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp. Atualmente desenvolve um projeto de pós-doutoramento, com financiamento do CNPq, no Centro de Estudos de Migrações Internacionais - Cemi/Unicamp, e desde 1998 presta consultoria histórica para cinema e teatro. É autora de "Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição: as polacas e suas associações de ajuda mútua", e organizadora de "Perfis cruzados: trajetórias e militância política no Brasil" (ambos publicados pela Imago).



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