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Carta ao Arqueólogo do Futuro

02/05/2005 00:00

Ferreira Gullar

Prezado Arqueólogo do Futuro,


Confesso-lhe que me sinto pouco à vontade ao escrever para alguém que ainda não existe e que não se pode garantir que existirá, nem tampouco quando isso poderá ocorrer, se daqui a duzentos séculos ou a dois milhões de anos; ou mais; ou menos. De qualquer modo, como sabemos que o homem é uma invenção de si mesmo e que, por conseguinte, menos que um ser natural, é um ser cultural, considero absolutamente imprevisível que mundo será esse em que o senhor existirá e que ser humano será o senhor, depois de todas as transformações que, sem sombra de dúvida, o homem sofrerá nos incalculáveis séculos que temos pela frente. Melhor dizendo, não sei a quem escrevo nem se eu e meus contemporâneos serão pelo senhor tidos como humanos ou apenas pré-humanos como nós, hoje, consideramos os hominídeos de cem mil anos atrás.

Não obstante, devo dizer-lhe que pouco se me dá que juízo fará de nós o senhor e sua época futura, uma vez que temos sobre o senhor e a gente de seu tempo futuro a vantagem de existirmos efetivamente, enquanto vós outros não sois mais que hipóteses por nós inventadas. E, ao dizer isto, descubro que esta carta, ainda que nominalmente dirigida ao futuro, dirige-se de fato ao presente, a nós mesmos, homens de agora, que desejam acreditar na continuação da história humana, projetada no futuro. Trata-se, no fundo, de uma aposta em favor da sobrevivência da espécie humana.

Neste começo do século XXI, quando escrevo esta carta, pesam sobre todos nós algumas graves ameaças dentre as quais destaco a expansão do tráfico de drogas e o terrorismo. Ambos podem levar a conseqüências imprevisíveis se de fato atingirem a confiança da maioria nos valores fundamentais da civilização: a deterioração de um mínimo de equilíbrio racional no comportamento dos indivíduos e a transformação do assassinato em massa como instrumento de luta política, ideológica ou religiosa. O poder da droga reside na falta de perspectiva da juventude que se forma num mundo em que todos os valores estão postos em questão pela falência de sua aplicação na prática social. O poder do terrorismo funda-se no ódio e num fundamentalismo religioso que transforma o seu inimigo em inimigo de Deus, razão por que matá-lo é uma santa providência. Esclareça-se: o inimigo é todo aquele que não participa da mesma causa nem é movido pelo mesmo ódio que o terrorista, ou seja, o resto da humanidade.

Acredito que a ameaça maior do terrorismo e do tráfico reside no fato de que os fora-da-lei têm hoje uma capacidade destrutiva nunca vista e contam, de um lado, com a colaboração de autoridades corruptas ou hesitantes e, de outro, com seu total desprezo pela vida humana e por sua própria. Como impedir a ação de quem não teme a morte e, mais ainda, considera-a porta de entrada do paraíso? Isto no que se refere aos terroristas; quando aos traficantes, têm como seus principais aliados uma boa parte de nossa juventude e os remanescentes da geração de 68, que agora ocupam cargos de mando na sociedade. A droga, como todos os vícios, domina as pessoas por constituírem fáceis fontes de prazer, os “paraísos artificiais” já exaltados por Baudelaire.

O Arqueólogo do Futuro, possivelmente informado da situação do mundo de hoje, estranhará talvez ter eu dado tanta importância a esses dois problemas numa ocasião em que o poder econômico e militar de uma única nação põe em risco a soberania política e econômica das demais nações. Em defesa da minha opção devo dizer que, embora seja esta uma ameaça efetiva, não têm seus agentes a mesma liberdade de ação do traficante e do terrorista.

É que estes, embora não possuam - nem de longe – o peso político e econômico da potência hegemônica, não têm, por isso, mesmo qualquer limite a suas ações. São poderes, por assim dizer, invisíveis, contra os quais a mobilização popular, as marchas de protesto, os atos públicos, nada podem, já que não agem por delegação do povo; e tampouco podem agir contra eles as forças armadas, uma vez que não constituem um poder de Estado. O governante da potência hegemônica não pode ir às últimas conseqüências na sua agressão aos demais povos sem o consentimento e apoio da maioria de seu povo, pois, se se excede, cedo ou tarde pagará por isso.

O quadro torna-se pior, porém, quando a ação desagregadora do terrorismo e do tráfico cria condições propícias à restrição das liberdades públicas num país hegemônico como são hoje os Estados Unidos. O medo e a insegurança que tomam conta dos cidadãos podem levá-los a aceitar as teses belicistas de um presidente como Bush que se atribui a tarefa messiânica de levar a democracia a ferro e fogo a todos os cantos do mundo. Nossa esperança reside em que, findo o seu mandato, não seja ele sucedido por alguém que pense do mesmo modo.


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