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Carta de Mário de Andrade a Mário Guastini

07/11/1926 00:00

“São Paulo, 7-XI-1926. No fundo tem isto de muito engraçado: que estamos todos bem de acordo os modernistas e você que malhou neles sem parada. Recebi A hora futurista que passou. Agradeço o presente e a hora de bom humor que você fez eu passar. Livro de marcha esquipada, trote largo no estradão útil da gente se divertir pensamenteando. Ora, vamos e venhamos: não foi isso que a gente fez quando desfraldou e andou passeando na saraivada a bandeira de Modernismo? Foi sim. Castigar-se rindo não é sempre o jeito melhor da gente não cair na esparrela? É. Você afirma que não caiu. Nós idem. No fundo estamos bem de acordo, Mário Guastini. O seu livro não pode ficar como história do movimento inicial dessa renovação que por tão variada e escorregadia teve mais nomes que um reizinho nascendo. Porém, A hora futurista que passou é história fiel do movimento refletido em você. Num país em cuja arte o mais importante de se combater era o Academismo e a hipocrisia pedante de escrever chique, a gente não podia seguir bobamente os ismos europeus. Por isso é que, cada um do seu jeito, o que fizemos foi apenas largar a rédea da sinceridade e chicote nela desenfreadamente através da imbecilidade e dos castelos de cartas. Você também. A imbecilidade que acreditou que a gente ofendia os “Mestres do passado” também acredita que agora você matou duma vez o nosso movimento. E você ainda ajudou no mais a gente a derrubar os castelos de cartas. No fundo estamos bem de acordo, eu não falei? E ainda tem mais isto de acordo entre você e a gente: nós nos revoltamos contra a Literatura no sentido oficial e brasileiro da palavra. Pois então você não fez o mesmo com um livro em que tem uma ausência sistemática de literatura? Fez sim. E da mesma forma com que pela liberdade alcançada e até abuso repreensível dela a gente demonstrou que era possível viver gostando e se rindo neste país, o livro de você demonstra um homem que sabe viver bem, possui saúde, possui força e inteligência sutil de embaralhar bem as cartas do baralho. Pro jogador bom não interessa fazer maço não. Porque então ele ganha com facilidade, rouba e não crê em si. O interessante, o corajoso é aceitar as cartas como elas venham. Então se a gente ganha que satisfa tem no coração! Você é jogador bom. Inda embaralhou mais as cartas que embaralhamos. Agora estamos cada um com nove cartas na mão, na mesa se virou um, ponhamos uma dama de copas, de coeur¹, como falam simbolicamente os marabás. A partida de cuncan² principiou. Ganhar não sei se a gente ganha ou se você perde. Mas eu pessoalmente só tenho a agradecer a lealdade e a sorte das cartas boas que você me deu. (a) Mário de Andrade.”

1) Coração, em francês.
2) Do inglês cooncan. Jogo de cartas de origem mexicana, em que os participantes têm de formar seqüências para se desembaraçarem, com estas, das cartas que têm nas mãos.

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