Mídia

Cidade Negra no interior de São Paulo

23/05/2002 00:00

Cidade Negra (foto: Eduardo Carvalho - Ag. Carta Maior)

Créditos da foto: Cidade Negra (foto: Eduardo Carvalho - Ag. Carta Maior)
A cortina abriu e imediatamente algo ancestral foi tocado dentro de mim. A impressão era a de estar diante de um oráculo, habitado por um deus. Orfeu talvez. Sim, o neo-Orfeu negro, numa versão bem mais autêntica e vibrante do que a cristalizada recentemente com o mesmo protagonista nas telonas do cinema.



Orfeu era da Grécia, do Olimpo. O Toni Garrido é de outros morros, na Baixada Fluminense. Orfeu era conhecido pela sua música e sua poesia. Diz o mito que seu canto era tão melodioso que os homens mais brutais se




tornavam afáveis ao ouvi-lo, e as feras o seguiam mansamente, e as árvores e plantas curvavam-se à sua passagem. Como um girassol amarelo se curva com a passagem do sol, do astro.



O cenário do Kiko Canepa remetia a um morro carioca, com seus barracos de estreitas e frágeis tábuas, suas antenas flutuando no firmamento com rabiolas de pipa enroscadas, dançando ao vento. O palco virou uma laje de alvenaria, como aquelas de dezessete anos atrás, no início da estrada (e vocês não sabem o quanto eles caminharam pra chegar até aqui). Poetas no palco, antenas da raça, sob a luz cirúrgica de Mário Lobo, cortante como bisturi, iluminando o som, dançando com ele. A cena estava pronta, então go, Toni. Toni be good tonight!





Na cidade negra, pernoitaram ilustres convidados: Gilberto Gil, que está por aí de volta às voltas com o reggae raiz de Bob Marley, foi o escolhido para uma faixa extra. Nando Reis e Marisa Monte, em Onde Você Mora? Outro eleito foi o soldado da paz, Herbert Vianna. E o Toni anunciou que, em outubro, o Paralamas volta.


Lazão, Da Gama e Bino Farias, com luz própria, ganharam o reforço espetacular de Sergio Yaszbek - violões, Alex



Meirelles - teclados, Jean Pierre Senghor - teclados e escaleta, Eduardo Lyra - percussão, Jessé Sadoc - trumpete, Aldivas Ayres - trombone, Marcelo Martins - saxofone. Momento genial: Sergio Yaszbek solando Johnny B. Goode; com o violão, mostrou o significado da palavra acústico! Deliciosas também Cidália Castro, Gil Miranda e Gilce de Paula, três sereias que pareciam saídas de Trench Town, e cujo canto, como no mito, só foi superado pelo do próprio Orfeu.



O show foi assim, arrebatamento incontinente pelo encantamento divino que emanava do palco. Foi neste estado que anotei: o artista não é Deus, mas sua arte é divina. Deus - o poeta soprou - é a vontade de estar feliz. Estou feliz por minha vida ser esta passagem que me permite assistir ao Cidade Negra e sentir dentro de mim o eco desta mensagem essencial.






Para quem não esteve no DirecTV Music Hall, resta a esperança de um bis no final da turnê, a chance de ver o show pela MTV ou em DVD e o alento do CD, tão bom quanto o que aconteceu no palco. Ou ainda os shows no interior de São Paulo neste final de semana: dia 23 em Bauru, dia 24 em Presidente Prudente e dia 25 em Marília. Mas não deixem de ouvir as vozes de Orfeu! Deus abençoe todos aqueles que são sua pura manifestação para continuarmos atravessando o milênio rumo ao novo tempo que está chegando! Experimente. Só para ver no que dá!



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