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Co-fundador do Facebook admite que a plataforma ameaça a democracia, e sugere intervenção na empresa

 

04/10/2019 14:41

 

 

Chris Hughes, co-fundador do Facebook – junto com seu hoje onipotente e único patrão, o jovem bilionário Mark Zuckerberg, que controla 60% das ações –, publicou um longo artigo no jornal The New York Times no qual recomenda ao governo dos Estados Unidos que atue para quebrar o monopólio da empresa, devido a que sua influência alcançou uma dimensão assombrosa, muito além da que possui qualquer oura no setor privado ou público, pois “controla três plataformas essenciais da comunicação (Facebook, Instagram e Whatsapp) que bilhões de pessoas usam todos os dias”.

Ex-sócio da rede social, Hughes aborda em seu texto a história da luta contra os monopólios (leis antitruste) nos Estados Unidos, toca tangencialmente o escandaloso caso da empresa Cambridge Analytica (obrigada a fechar as portas), e alerta sobre a ameaça à democracia que está contida na trinca Facebook/Instagram/Whatsapp.

Abundam as reportagens mundo afora denunciando como essas três redes sociais foram utilizadas para vencer eleições em diversos países do mundo. Nesta coluna, nós comentamos essa questão, no artigo “Como ganhar eleições através do Whatsapp, do Brasil até a Índia”.

Hughes critica seu outrora amigo Zuckerberg, afirmando que ele sempre almejou o domínio através das redes, e acredita que já o conquistou, já que sua empresa alcançou valor de 500 bilhões de dólares e controla mais más de 80% dos lucros das redes sociais no mundo: um poderoso monopólio que eclipsa todos os seus rivais e avassala a concorrência. Ele também assegura que 70% dos adultos dos Estados Unidos usam as redes sociais, das quais muitas são produtos do Facebook.

O texto também diz que a onipotência de Zuckerberg é 8 vezes maior no resto do mundo que dentro dos Estados Unidos (onde tem 51% do mercado).

E o mais importante: ele alerta sobre o fato de que seu domínio também afeta a democracia incipiente de mais de 2 bilhões de usuários fora dos Estados Unidos (cerca de 19% da população mundial, segundo seus cálculos. Por exemplo, se estima que no México, país onde não existe regulação nem legislação a respeito, 63,7% da população utiliza o Facebook.

Hughes também confessa algo interessante a respeito do domínio do Facebook: não é um acidente da história, pois contou com a “aprovação tácita (para não dizer explícita) do governo e seus reguladores”. Caramba!

Apesar da história revelar sua própria falta de transparência e de prestação de contas à opinião pública, além do crescente mal-estar coletivo pelo atentado à privacidade, o importante é que Hughes decidiu confessar tudo isso, e dar uma maior noção sobre o tamanho do controle unilateral sobre a liberdade de expressão exercido por seu ex-sócio Zuckerberg, que possui o poder de monitorar, organizar e até de censurar as conversas de dois bilhões pessoas, graças aos algoritmos desenvolvidos pelos seus engenheiros, que selecionam os comentários ou experiências dos seus usuários e definem os parâmetros da liberdade de expressão ou do discurso de ódio.

O mais grave nessa história toda é o fato de que tais algoritmos questionáveis são criados ou censurados por misantropos, fora da vigilância e/ou da regulação cidadania e dos governos do mundo inteiro. Também é dramático que a imensa maioria das pessoas, senão todos os envolvidos no Conselho Diretor da onipotente aliança tecnológico do GAFAT (Google/Apple/Facebook/Amazon/Twitter) nunca passou por um cargo de eleição popular.

Um ponto transcendental que aborda Hughes é o da preocupação de alguns sobre a atomização do Facebook ou de outras multinacionais tecnológicas dos Estados Unidos pudesse ser um problema para a Segurança Nacional, já que os avanços na Inteligência Artificial requerem imensas quantidades de dados e poder computacional, embora só as grandes multinacionais como Facebook, Google e Amazon podem alcançar tais capacidades e investimentos.

Por outro lado, se as multinacionais estadunidenses da comunicação se tornarem menores, como forma de controlar o risco que significam atualmente, aparece o outro problema que é o da sua provável superação por concorrentes chineses, segundo Hughes, que hoje é assessor comunicacional do Partido Democrata, vinculado a figuras como Barack Obama e a família Clinton, e que evita dizer que o megaespeculador George Soros foi um dos sócios do Facebook, ou que o Pentágono apadrinhou todas as empresas do GAFAT através de um de seus departamentos, conhecido como DIB (sigla em inglês do Conselho de Inovação em Defesa), e que é presidido por Joshua Marcuse.

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli

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