Mídia

Coisas que a Gente tem de Parar de Fazer

22/05/2002 00:00

Os maços de cigarro agora vêm com aquelas fotografias atrás, mostrando o que a nicotina faz com quem fuma. Tem a foto de uma mulher morrendo de câncer. Tem a foto de uma criancinha cheia de fios e tubos, para mostrar o que acontece com os bebês das grávidas que ousam fumar. E tem coisa até pior. Por exemplo, tem uma de um cara impotente, numa dessas poses bem tradicionais, com a mulher deitada na cama, de braços cruzados, e o homem sentado no cantinho da cama com cara de “isso nunca aconteceu comigo”. Um horror.


Sou fumante desde os quinze anos de idade. Naquele tempo o cigarro não fazia mal, ou pelo menos a gente não sabia disso. Nos filmes e nas novelas e nos desenhos animados, todo mundo fumava. Eu tenho uma história em quadrinho aqui em casa, dos anos setenta, que mostra muito bem o Pato Donald fumando. Fumando um charuto, é verdade, mas fumando.


Mas com o passar dos anos, os não-fumantes foram se organizando. Começou com as caretas. A gente não podia mais acender um cigarro ao lado de certas pessoas, que elas contorciam o rosto e abanavam o nariz. E a gente já percebia que a tal pessoa não queria que a gente fumasse perto dela. Tinha umas vezes que a gente se enganava e a pessoa estava só avisando que alguém tinha soltado um pum, mas esses eram casos raros. Quase sempre era com o cigarro da gente mesmo.


Depois os não-fumantes começaram a pedir para a gente não fumar nas casas deles. “Não é por nada não, é que fica um cheiro no carpete, você entende, não entende?”. Eu entendia, é claro, e ia fumar na área de serviço do apartamento ou no quintal da casa, o que acabou me trazendo momentos agradabilíssimos de solidão em algumas festas insuportáveis.


Bem, hoje em dia os não-fumantes assumiram o poder. A gente já não pode mais fumar nos restaurantes, nos cinemas, nos ônibus (é, antigamente podia fumar até nos ônibus), em praticamente lugar nenhum. E agora eles me aparecem com essas fotografias nos maços de cigarro.


Olha, alguns fumantes amigos meus vão ficar até desapontados, mas eu não sou contra essas fotografias não. Desde que elas começaram a sair eu dou uma boa pensada antes de acender um cigarro. Não é fácil se deparar toda hora com aquela criancinha cheia de fios. Ou com aquele cara sentado na beira da cama. Pra te falar a verdade, eu ando fumando um bocado menos. E tenho certeza que é por causa das tais fotografias. Inconscientemente, acho que prefiro passar vontade de fumar a ver aquela mulher esquelética, de pele azul, com seus olhos fixos em mim. Quer dizer, se o que eles queriam com isso era fazer a gente fumar menos, as tais fotografias cumpriram muito bem seu papel e já provaram sua eficiência.


E digo mais. Já que as fotografias deram tão certo com os cigarros, acho mesmo que a gente devia estender a idéia para outras coisas, pra ver se a gente pára de usar também. Além de coisas mais óbvias - como estampar no porta-luva dos carros a foto de um acidente com cadáveres ensangüentados - a gente podia usar mais a imaginação. Por exemplo. A partir de hoje, todo terno do Maluf iria trazer estampada a fotografia do Pitta, que é pra gente se lembrar que ele tinha jurado jamais se candidatar a nada se o Pitta não fosse um excelente prefeito. E o Collor (ele é candidato ao governo de Alagoas, sabia?) só poderia aparecer em público usando uma gravata com as fotos das reformas da Casa da Dinda (lembra?).


Isso sem contar a minha vizinha Lucimara, que devia trazer sempre na sua minissaia a fotografia do Celsão, seu marido, campeão de Jiu-Jitsu. Um perigo, rapaz. Um perigo.



A primeira imagem da ilustração foi criada pelo cronista para este texto.


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