Mídia

Como este, outro mundo foi possível

01/03/2005 00:00

Emir Sader


Caro arqueólogo do futuro,

Remeto-me a seu tempo para apresentar breve inventário de um movimento que causou profunda transformação no mundo. Um movimento do qual fui testemunha: os Fóruns Sociais Mundiais.

Naquele momento, o clima era tão sufocante, o ar tão rarefeito, que era difícil confessarmos que o trajeto parecia não ter fim. Só mesmo a chegada de alguma fresta nova nos permitiria aceitar como a travessia tinha sido tão difícil.

Os objetivos iniciais do movimento eram bem modestos, embora já apontavam para o que queríamos. Afirmar que “um outro mundo” seria possível era singelamente dizer que ainda não estávamos condenados à animalidade, que poderíamos escolher outro futuro.

Outro lema já apontava, de forma mais concreta, para o mundo que queríamos, quando afirmávamos que “o mundo não está à venda”, que “o mundo não é uma mercadoria” ou que “o essencial não tem preço”. Apontava para que o processo de mercantilização que o capitalismo promovia havia atingido seu limite máximo com a hegemonia neoliberal. Que o neoliberalismo havia transformado o capitalismo numa máquina seletiva de matar direitos. E que afirmar esses direitos era criar um mundo pós-neoliberal, antineoliberal, que só poderia ser um mundo anticapitalista.

Houve muitas dificuldades. Ainda antes de surgirem os Fóruns Sociais Mundiais, lemas aparentemente radicais, mas, na verdade, de renúncia à transformação global do mundo, obstaculizavam a visão e o caminho do movimento, como, por exemplo, “pensar global, agir local”. Ou, então, a visão defendida pelas organizações que paradoxalmente se autodenominavam “não governamentais” (sic) e que pretendiam restringir o processo de criação do outro mundo possível ao que confusamente chamavam de “sociedade civil”. Embora financiadas por governos e por instituições públicas, sua visão atrasada era restritiva, excludente, elitista, não percebendo que a criação do outro mundo requeria uma transformação radical das relações de poder no mundo.

Correlato a essa visão – no fundo de corte liberal -, havia a teorização de que o mundo seria mudado “sem tomar o poder”. Diante do fracasso de estratégias consideradas de “tomada do poder”, jogava-se a criança junto com a água da bacia, abandonando a questão do poder, como se esse nó tivesse deixado de articular o conjunto das relações de poder em toda a sociedade. Outros ainda chegavam a dizer – em plena guerra do Iraque – que o imperialismo já não existiria, assim como os Estados.

Olhadas à distância essas teorias parecem tão mais absurdas. O poder não desapareceu para dar lugar a um mundo novo, mas teve que ser profundamente transformado e democratizado, praticamente teve que ser refundado. O imperialismo, antes de se auto-extinguir, teve que ser derrotado. Fomos obrigados a pensar global e agir global, para que esse novo mundo fosse surgindo.

Outra ilusão teve que ser dissipada: a do fim do trabalho. O que diminuía a olhos visto, como efeito da então chamada “informalização das relações de trabalho” – na verdade, sempre uma precarização das relações de trabalho – era o emprego formal. O capital, valendo-se da liberalização quase sem limites daqueles tempos, buscava explorar onde e como melhor lhe conviesse, a força de trabalho. A maioria dos trabalhadores do mundo deixou de ter contrato de trabalho, deixou de ter direitos básicos garantidos, deixou de ser cidadão. O trabalho, ao contrário, passou a ser a base da subsistência da maioria esmagadora da humanidade.

Esse fenômeno acabou servindo de base para a sociedade que temos hoje – bem entrado o século XXI: uma sociedade do trabalho, em que todos têm garantido o direito ao trabalho, todos vivem do trabalho e ninguém explora o trabalho alheio. Com a socialização dos grandes meios de produção e reprodução – demonstrando a inutilidade do capital privado e dos seus proprietários -, todos viramos trabalhadores.

O mundo da mercantilização foi substituído por este outro mundo possível – o mundo da esfera pública, da afirmação dos direitos universais, da socialização da política e do poder – iniciados há tanto tempo naquela cidade que deixou seu nome ligado ao Fóruns Sociais Mundiais – Porto Alegre, com as políticas de orçamento participativo. A transformação de todos os indivíduos em cidadãos foi o resultado da democratização radical das relações econômicas, sociais, políticas e culturais.

Este outro mundo foi possível, antes de tudo pelo gigantesco processo de desalienação que foi se dando, conforme a formação da opinião pública foi sendo democratizada, com a quebra do maior obstáculo à sua realização – o monopólio (para não dizer ditadura) da mídia privada. Com o fim da mercantilização das relações sociais e da propriedade privada do capital, o processo de formação da opinião pública passou a dar-se nas instancias da esfera pública – mídias públicas, escolas, centros culturais, partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais, etc. -, dando voz àqueles secularmente sem voz e sem cidadania.

Aquele clima festivo, de convivência pacífica das diferenças de gênero, de idade, de idioma, de etnia, que povoavam os espaços de Porto Alegre e de outras cidades que sediaram os Fóruns Sociais Mundiais, apenas prefiguravam as novas formas de sociabilidade que caracterizam as sociedades contemporâneas – e que começaram a ser gestadas naquela aparentemente quimérica luta por “um outro mundo possível”: este, que vivemos hoje. Um mundo sem exploração, sem dominação, sem discriminação e sem alienação, em que nada se vende, nada se compra, em que tudo tem valor, mas nada tem preço, em que ninguém, nem nada está à venda – um mundo à medida dos homens e mulheres, um mundo em que cabem todos os mundos.

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