Mídia

Como um náufrago de gibi

06/03/2007 00:00

foto de Verena Glass

Créditos da foto: foto de Verena Glass
Caro arqueólogo do futuro,

Não sei como você encontrará estas mal traçadas. Não estou escrevendo nas paredes de uma pirâmide ou rabiscando pergaminhos que resistam aos tempos e ao tempo. Valho-me de um mero teclado de plástico e de uma tela de cristal líquido. Daqui a seis meses, esta versão de meu computador estará obsoleta e fará parte daquelas sucatas da modernidade que inundam os lixões. Mas o texto estará lançado no imenso limbo virtual, como numa garrafa de náufrago de gibi.

O personagem das revistinhas jogava sua mensagem ao oceano, na esperança que um hipotético galeão espanhol a recolhesse e viesse buscá-lo em sua ilhota perdida. Galeões já não existem e, de empreendimentos espanhóis, só me ocorre uma empresa de telefonia.

Quando pensamos no futuro, aqui no Brasil, fazemos na verdade um esforço lascado para superar problemas presentes. Este é um país em que aquilo que costumam chamar de “elites” insiste em prolongar um passado imemorial (Prefiro um termo menos charmoso, embora mais preciso: “classe dominante”). Elas não fazem isso por nostalgia ou por quererem preservar algo de positivo. Nada! Buscam é tocar a boa vida que têm há séculos nessas terras ao sul do equador.

Elas são geniais em arrumar nomes modernosos e empolados para manter seus privilégios. Falam em responsabilidade fiscal, superávit primário, risco país, governabilidade, investment grade etc. para dar um ar contemporâneo e técnico a um saque atávico.

Quando o futuro bateu às nossas portas, materializado nas duas eleições de Lula, parecia que essa gosma pegajosa que é nosso passado de injustiças, lorotas e espelhinhos dados aos nativos ficaria para trás. A impressão é que abriríamos uma nova página da nossa História. Decepção. O governo Lula mexeu coisinha aqui e outra ali, mas gostou do negócio de destinar espelhinhos ao gentio.

Mas esta carta é em si otimista. Ela pressupõe a existência de um futuro. Muitos duvidam disso, haja vista os recentes relatórios sobre o clima e as agressões à natureza. Creio sinceramente que, em alguma das esquinas das próximas décadas, vamos dobrar para um lado melhor em nossa caminhada. Menos por vício e mais por convicção, acho sempre melhor seguir à esquerda. Sei que nem tudo é o que parece. Há ruas, em minha cidade, em que o sujeito toma à esquerda, entra numa curva não prevista e acaba caindo num inevitável desvio à direita. E pior, numa contra-mão! Mas sempre vale tentar.

A carta é otimista também por apostar que a história não acabou. Seria uma tragédia pensar que o mundo em que você vive, arqueólogo, não é o do futuro, mas apenas esse nosso presente um pouco mais esticado.

O futuro dura muito tempo. Não sei se você estará me lendo daqui a cinqüenta, cem ou quinhentos anos. Não idealizo seu tempo e nem creio em utopias. Em nossos dias, a palavra “utopia” foi muito maltratada. Não é raro ela brotar na boca de gente que a usa para desconectar a luta por um mundo melhor das opções nem sempre edificantes tomadas no curtíssimo prazo.

Espero que seu tempo não seja apenas o território em que mil e uma engenhocas eletrônicas, teoricamente, resolverão todos os problemas humanos. As engenhocas que precisamos são a democratização plena da vida política, a das comunicações, a dos direitos sociais e especialmente a da propriedade. Se isso tudo não for resolvido, arqueólogo, possivelmente as grandes maiorias do futuro terão acesso apenas a quinquilharias de última geração, cheios de bips e luzinhas modernérrimas.

Ou seja, versões mais atualizadas dos velhos e bons espelhinhos.


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