Mídia

Comunicação e política em tempos de 'Big Data'

 

03/05/2019 17:46

 

 
Em maio de 2018, duas reportagens, publicadas pelo The Guardian e pelo The New York Times, ambas baseadas nos testemunhos de Christopher Wylie (analista de dados e ex-empregado da Cambridge Analytica), revelaram o escândalo: foram coletado dados pessoais de ao menos 80 milhões de usuários e usuárias do Facebook, dados que permitiram criar perfis (políticos e psicológicos) dos eleitores, aos quais foram teledirigidas mensagens especialmente desenhadas para cada tipo de perfil, após um minucioso trabalho de micro segmentação. Essas mensagens especiais, segundo as reportagens, podem ter sido decisivas na eleição vencida por Donald Trump, em 2016.

Como foram coletados esses dados? A partir de um aplicativo chamado Thisisyourdigitallife, que realiza uma pesquisa com cerca de 300 mil usuários que fizeram login no Facebook e completaram um teste psicológico, entregando os resultados de forma voluntária à empresa Global Science Research (GSR). De forma involuntária, graças a um mecanismo oculto dentro das políticas de privacidade, aqueles que fizeram o teste entregaram também os perfiles dos seus contatos, e assim o banco de dados se multiplicou exponencialmente.

A Cambridge Analytica, que comprou os dados da GSR, era subsidiária da Strategic Communication Laboratories (SCL), propriedade de Robert Mercer, o principal financiador das campanhas do Partido Republicano, terceiro maior doador das campanhas de Trump e investidor do portal web Breitbart News dirigido por Steve Bannon, ao qual entregou cerca de 10 milhões.

É nesse ponto em que se encontram os dois elementos principais do processo: a mineração e análise dos dados (realizadas por Mercer) e o seu uso comunicacional (por Bannon), dando início à era das fake news e da manipulação eleitoral a partir da micro segmentação, cujo resultado foi a vitória de Trump nos Estados Unidos.

Depois do escândalo da Cambridge Analytics, o Facebook reagiu rapidamente, e assegurou que não vende dados a companhias externas, embora isso seja uma meia verdade, pois sua utilização dos dados como moeda de troca com outras empresas é uma realidade que inclusive está documentada.

Em primeiro lugar, o Facebook extrai nossos dados da atividade que geramos em suas empresas e produtos (Instagram ou Whatsapp também são de sua propriedade), e esses dados podem produzir padrões muito valiosos para as empresas que querem nos vender algo.

Em segundo lugar, e talvez o mais importante, é que nossos dados são expostos por meio do Facebook Pixel, um código invisível que nos segue em nosso acionar diário na Internet, quando baixamos um aplicativo, ou compramos produtos e serviços, ou buscamos informação, ou preenchemos um formulário de registro.

O Facebook Pixel é responsável pela sensação de que estamos sendo vigiados quando, por exemplo, depois de uma simples busca de informação sobre um determinado país, apareçam instantaneamente uma série de anúncios para viajar por esse mesmo país.

Desta forma, e graças à geolocalização, tanto as empresas que fazem mineração de dados quanto os data brokers (que traficam com ela), sabem onde vivemos, onde estudamos, o que gostamos de comer, que ginásio frequentamos, onde passamos nossas férias, e claro, quais são nossas simpatias, nossos medos, nossos gostos políticos.

O mesmo acontece, de forma adaptada, em outras duas plataformas das quais o Facebook é dono. O Instagram é a rede social que mais cresce atualmente, e representa mais de 60% dos novos lucros da companhia – portanto, é a joia da coroa, caso o Facebook afunde. Por sua vez, o Whatsapp é a rede social com maior potencial para o uso em campanhas políticas, como se viu em seu uso para disseminar as fake news que ajudaram no triunfo de Jair Bolsonaro no Brasil, e não está tão longe o dia em que poderemos ver anúncios personalizados também nessa rede social. Esses meios, assim com o Twitter, já não servem somente para conseguir o voto a favor, mas também para desmobilizar o voto contrário.

Todo isto está sustentado no avanço cada vez mais veloz da Inteligência Artificial (IA), campo onde China alcança 48% dos novos investimentos, contra 38% dos Estados Unidos. Os novos campos de batalha se baseiam na análise preditiva através da big data, e o sistema Embers é o mais destacado nesse sentido.

Embers (sigla de Early Model Based Event Recognition using Surrogates) ou “reconhecimento rápido de eventos baseado em modelos utilizando substitutos”, visa identificar padrões a partir da análise de milhões de dados, de tuites até imagens de satélite, para prever datas, coordenadas e localizações antes que os eventos ocorram –sejam manifestações, movimentos migratórios, brotes epidêmicos, etc – utilizando ferramentas da comunidade de inteligência em tempo real.

Segundo a revista Newsweek, a tecnologia Embers já é utilizada pelos Estados Unidos para prever diferentes protestos na América Latina, África e Oriente Médio.

Se o futuro está se transformando em passado na medida em que entregamos nossas vidas em forma de dados, aumentando a mercantilização das nossas vidas e o controle em tempo real não só do que consumimos como também do que pensamos e desejamos, abrindo uma nova dimensão para as campanhas políticas. A combinação de big data, micro segmentação, fake news e os famosos exércitos de trolls, que impulsam correntes de opinião, são os novos campos de batalha. As batalhas no deserto da realidade.

PS: curioso mundo este, onde Julian Assange é preso por revelar a verdade de forma gratuita, enquanto Mark Zuckerberg é glorificado por manipular nossas vidas e se fazer cada vez mais rico dessa forma.

Katu Arkonada é cientista político especializado em temas sobre a América Latina

*Publicado originalmente em jornada.com.mx | Tradução de Victor Farinelli



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