Mídia

Confissões de um Classe Média

07/05/2002 00:00

a Carlos Castelo Branco



Como meus leitores, em sua maioria, são pessoas de classe média – seja da alta, da baixa ou da média “puro sangue” mesmo – torna-se oportuno esse meu relato de hoje. Não sei ao certo em que encruzilhada dos dias, e da minha vida, deixei-me tomar tão completamente pelos hábitos e costumes dessa classe a que pertenço desde sempre.



Hoje, numa curiosa "sacada" percebi o quanto estou preso às minhas roupas e à minha classe – como diria o mestre Drummond no seu poema A flor e a náusea: "Preso à minha classe e a algumas roupas/ vou de branco pela rua cinzenta/ Melancolias, mercadorias espreitam-me./Devo seguir até o enjôo?/Posso, sem armas, revoltar-me?"



Não tenho nada contra a classe média, ao contrário. Como já disse, a maioria dos meus leitores pertencem a essa classe. Nasci em seu seio, e nela devo permanecer até o final dos meus dias. Afinal, como já me disse, há muito tempo, o pai de uma antiga namorada da juventude: sou um homem desprovido de ambições. Eu tomei isso como um elogio, mas a sua intenção era, sem dúvida, a de me desqualificar. Percebeu a minha ingenuidade?



Mas uma coisa hoje me intrigou: em que momento de minha vida abandonei os saudáveis e autênticos hábitos proletários que assimilei com o convívio com os mais humildes? Quando passei a vestir de modo mais uniforme esse "modelito" tipicamente classe média. Esse hábito de almoçar, ou jantar, em restaurante por quilo ou naquelas franquias de fast food das praças de alimentação dos shoppings, com aquela comida pasteurizada, insípida e inodora. Esse lance de ler somente a Folha de S.Paulo e as revistas CartaCapital e Caros Amigos, de cortar o cabelo no Soho, comer somente os doces do Amor aos Pedaços e usar só roupa "de marca" – e o No Logo, de Naomi Klein? Esse "bom gosto" musical de só curtir jazz, MPB, música clássica e, vez em quando, uma música eletrônica. Onde foi parar meu lado Notícias Populares ou O Dia, minha faceta Odair José e Reginaldo Rossi? Onde foi parar aquele sujeito que pertencia a todas as classes e a nenhuma?



Quando e como fui arrebatado por esse questionamento a cerca do meu comportamento de classe? Nesse sábado, quando, como quem não quer nada, saí de casa, para almoçar. Lá fui eu, piloto automático ligado, "de branco pela rua cinzenta", em direção ao almoço por quilo da padaria perto de casa. Mas já não havia chegado à conclusão que ali a comida era por demais cara, oleosa e com um molho excessivamente industrial? Então, por que diabos caminhava como um autômato para lá? Para onde ir então, se também já havia chegado à conclusão de que a comida de shopping não tem gosto algum? Por que diabos insistia em continuar a comer nesses lugares?



Quando, num átimo, lembrei-me do dia em que almocei no boteco da esquina, a convite de um dos faxineiros do condomínio em que moro, e que é "meu chegado". O tempero lá era mais caseiro, o preço era baratinho e um prato dava para dois. Marchei resoluto rumo ao boteco.



Tava tudo lá. A tabela marcava o preço do picadinho: R$3,00! As mesinhas de madeira ordinária com puídas toalhas de pano encardidas e "decoradas" com restos de comida e farinha. As prateleiras com seu monumento ao kitsch: as tradicionais, e enormes, compotas de vidro em forma de cálice. Lá estavam também o pote de plástico cheio de amendoim assado, 03 caixas de Freegels e mais 03 de Bum Bol enfileiradas, as garrafas de Domecq, Campari, Bacardi, Contini, Drurys, Passport Scotch, Jurubeba Leão do Norte, Velho Barreiro, Ypioca e Pirassunga, – a tradicional 51. Há quanto tempo não vislumbrava esse relicário? Tudo estava ali disposto, em sua comovente simplicidade e harmonia.



Confesso que me senti um pouco intimidado com alguns tipos que bebiam no local sua tradicional "gelada" de sábado. Aquelas grandes de garrafa, não essas de lata ou chope. Tem coisa mais classe média que chope!? Há quanto tempo não sei o que é tomar a tradicional cervejinha de todos os sábados! Meu radar logo me apontou um cidadão, que era um verdadeiro brutamontes, também tomando sua cerveja, mas com o harmonioso copo de caipirinha do lado. A feijoada, pelo visto, já tava no buxo há tempos. Senti um certo ar insano em sua fisionomia e evitei dirigir-lhe o olhar enquanto devorava, feliz e um tanto incomodado pelo medo, meu picadinho acompanhado de uma coca-cola bem gelada. O picadinho estava uma delícia! Senti-me mais tranqüilo quando o temível sujeito saiu para fazer a entrega de umas "quentinhas" numa obra ali perto, fazendo assim uma gentileza ao dono do boteco, e ao meu anjo da guarda. O apelido do troglodita era bem sugestivo: Gardenal. Imaginem o tipo...



Pronto. Pedi o indefectível cafezinho, que foi servido, quase morno, no indefectível copo americano, e a "dolorosa": R$4,00. E ainda sobrou comida! Lamentei não ter vindo com a "patroa", assim não teria sobrado nada. Não suporto desperdício.



Pois é, fica esse meu exemplo. Quando você se sentir insuportavelmente "classe média", fuja um pouco da rotina. Esqueça um pouco esses "restaurantezinhos" metidos a besta e vá comer num autêntico "sujinho" e experimentar um tempero mais caseiro e menos industrial. Agora, vá somente no horário de almoço. Não invente ir no jantar, ou na "madruga", depois de uma farra daquelas. Principalmente se o boteco escolhido for lá no Capão (Bar do Peixe), no Jardim Ângela (Buraco da Gia) ou no Rio Pequeno (Bar do Espanhol), aí a "sobremesa" pode ser indigesta. “Perigas” você se meter numa "baixaria" nada agradável, algo como uma chacina ou coisa parecida. E aí certamente vai sentir uma enorme saudade da sua rotina tranqüila de shoppings e restaurantes mais ou menos ordinários, ou sofisticados. Nem sempre é tão tranqüilo sair da rotina.



Para ouvir no boteco:


”Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme

(Cleide) - Reginaldo Rossi




Nesse corpo meigo e tão pequeno

Há uma espécie de veneno

Bem gostoso de provar

Como pode haver tanto desejo

Nos teus olhos, nos teus beijos,

No teu jeito de abraçar

E foi com isso que você me conquistou

Com esse jeito de menina

É esse gosto de mulher

E nada existe em você

Que eu não ame

Sou metade sem você

Mon amour, meu bem, ma femme”



Conteúdo Relacionado