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Crianças Malcriadas: os Filhos da Culpa

12/04/2002 00:00

O termo é antigo, coisa dos nossos avós. Ninguém hoje é malcriado. Mas acho a qualificação perfeita para algumas crianças que atormentam todo mundo e o que é pior, ao contrário do que se pensa, não são capetinhas voluntários: são vítimas de uma criação desleixada, sem limites claros, mal estipulados pelos pais e que serão adultos problemáticos, social e psicologicamente.



Em interessante matéria veiculada na revista da Folha, Carla Gomes chamou os malcriados de pequenos ditadores. Pensando bem há uma certa diferença entre esses ditadores e as crianças malcriadas de minha avó. No primeiro caso, muitas vezes não perturbam o ambiente escolar, pois encontram um regime de regras bem estabelecidas às quais não podem infringir. No lar, devido à permissividade de pais irresponsáveis – e engana-se o pai que acha que responsabilidade só se refere a botar dinheiro em casa ou segurar nas mãos dos filhos para atravessar a rua - crianças fazem o que bem entendem, e familiares que agem desta maneira são, sim, irresponsáveis. E num grau bastante relevante.



A matéria de Carla traz três exemplos práticos: duas meninas, uma de três, outra de oito anos, e um jovenzinho de 11 anos. Entre desmandos e manias, entre exigências engraçadinhas e birras, estes pais estão criando pequenos monstros: crianças sem idéias claras do espaço alheio que serão adultos arrogantes e intratáveis e que vão apanhar muito na cara pela vida afora. E o pior: serão indivíduos profundamente infelizes.



Num pequeno quadro didático preparado pela equipe multidisciplinar do CAD (Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento) de São Paulo, são apresentadas as rotinas que devem ser impostas às crianças recém-nascidas, de 0 a 3 anos, de 3 a 7 anos, de 7 a 12 anos e desta idade para frente. Pregam coisas simples, pequenas regras, como horários para comer e dormir, estabelecimento de hábitos saudáveis, explicações dos porquês das exigências e sugerem trabalhar com as idéias de direitos e deveres (a partir dos sete anos) e outros pequenos detalhes do conviver. Aparentemente, não se trata de nenhuma façanha inatingível.



Estudiosos como a profesora Geraldina Porto Witter, da PUC-Campinas e Rosalba Filipini, da PUC-SP, sugerem sempre o equilíbrio, o meio-termo. Os exageros cometidos pelas crianças, diante da omissão dos adultos é fruto do comodismo e da culpa, às vezes da preguiça provocada pelo cansaço ou do remorso por, na visão de alguns, não poder dar a atenção adequada aos filhos devido às jornadas extenuantes de trabalho.



O resultado é catastrófico: uma sociedade que cresce doente, mentalmente avariada pela ausência de pilares morais, noções de respeito e convivência de grupo. E não entenda por pilares morais o que os antigos chamavam de bons costumes, ditames de tolhimento comportamental. Refiro-me a um balizamento mínimo, um caminho traçado no chão, margeado de boninas, onde só cabem a bicicleta e seu dono, como no poema de Adélia Prado, por onde as crianças possam caminhar, amparados pelo suporte oferecido pelos adultos que as cercam. Por falar em bicicleta, o que tem sido feito é dar à criança pequena, sem coordenação motora ou mesmo prática, uma bicicleta que deveria ser usada por outros bem mais velhos, ou seja, pulam a etapa do triciclo, das rodinhas, uma em cada lado, depois apenas uma como último passo para perder o medo e então o brinquedo sem rebarbas, dependente apenas da destreza adquirida dia a dia. O que alguns pais não entendem é que a ausência de regras e a falta absoluta dos limites são formas de condenar essas crianças a se esborracharem no chão por não dominarem os pedais e correias da vida.



Solução? Terapia psicológica urgente para estes pais, terapia psicológica urgente para as crianças – muito pouco eficaz depois do estrago já instalado – e muita paciência, pois os sujeitos que encontraremos pela frente serão cada vez mais individualistas, chatos, sem graça, sem saberem exatamente porque são assim – isso quando identificam as falhas - e desconectados afetivamente das necessidades do outro: melancólicos, agressivos e irremediavelmente insatisfeitos.



12/04/02





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