Mídia

Da Importância das Coisas

15/05/2002 00:00

Uma guerra é como uma carta de amor. Ridícula. Só que, como dizia Fernando Pessoa, ninguém percebe que está sendo ridículo quando está escrevendo uma carta de amor. Nem, digo eu, quando está fazendo uma guerra. Muito pelo contrário. Ambos, o apaixonado e o guerreiro, se consideram únicos em sua razão e em seu sofrimento. Imaginam que absolutamente nada sobre a face da terra possa se comparar ao tamanho de suas paixões. Só depois de muito tempo, seja em livros de história ou investigando aquela velha caixinha de cartas, é que os dois percebem o quanto estavam sendo ridículos.


Fiquei pensando nessas coisas quando, ontem à noite, eu descobri, no meio de uma reportagem da “Folha de S.Paulo”, o tamanho de Israel. Você sabia que o Estado de Israel não chega ao tamanho do menor estado brasileiro, o Sergipe? Israel tem apenas 20.425 km2 e o Sergipe, um pouco maior, tem seus gloriosos 22.050 km2. E tem mais. A Faixa de Gaza, pela qual os palestinos e israelenses estão se matando, tem só 320 km2. Para ser mais exato, ela tem 40 quilômetros de comprimento por 8 quilômetros de largura. Pois bem. Sabe quanto mede o mundo? É, o mundo, esse mundão aí de deus, que a gente tem de enfrentar todo dia. Sabe quanto ele mede? Pois a superfície do mundo tem 510.065.500 Km2.


Quinhentos e dez milhões de quilômetros quadrados de espaço e os caras estão lá brigando por uma tripinha de terra de 8 quilômetros de largura. Sabe lá o que isso quer dizer? Bem, isso quer dizer, por exemplo, que você ganhou na loteria a quantia de 510 milhões de reais e está brigando com o dono da padaria por um desconto no pãozinho francês.


Isso quer dizer que você está com um saco cheinho de pipoca no colo, e está perdendo o melhor filme do ano procurando aquele grão que caiu no escuro do chão do cinema.


Isso quer dizer que a Ana Paula Arósio está completamente apaixonada por você, e você diz que só fica com ela se ela trocar de penteado.


Isso quer dizer que milhares de seres humanos já morreram por um punhado de terra que muito latifundiário brasileiro dá de troco.


Isso quer dizer que as pessoas perderam a noção do tamanho e do valor das coisas. Damos muita importância para detalhes insignificantes, e pouquíssima importância para as coisas que realmente valem a pena serem vividas. Explodimos com um velho companheiro de trabalho só porque ele pegou uma caneta de nossa escrivaninha. Esbravejamos com nossos filhos porque eles não conseguiram decorar a Tabela Periódica para a prova de química. Oras, a Tabela Periódica... Que se dane a Tabela Periódica! Eu nem me lembro mais para quê servia uma Tabela Periódica! E, para aproveitar o embalo, que se danem as canetas também! E que se danem as Faixas de Gaza! E que se dane o preço do pãozinho!


E, especialmente, que se dane o penteado da Ana Paula Arósio!



A primeira imagem da ilustração foi feita pelo autor para esta crônica.


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