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Da próxima vez que receber notícias falsas...

Um guia de sobrevivência com notícias falsas, explicado por um bibliotecário

16/09/2020 16:38

(Justin Sullivan/Getty Images)

Créditos da foto: (Justin Sullivan/Getty Images)

 
Com a aproximação das eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump está espalhando desinformação sobre o Black Lives Matter, Joe Biden, e Kenosha, Wisconsin. Horas depois que Biden anunciou Kamala Harris como sua companheira de chapa, as teorias da conspiração, assim como a desinformação racista e sexista, começaram a se espalhar online. O Twitter está endurecendo suas regras contra a desinformação nas eleições, prometendo retirar ou rotular mais tipos de alegações eleitorais enganosas. O Facebook está finalmente reprimindo o QAnon e banindo outras teorias da conspiração.

Isto significa que é uma boa hora para atualizar sua cultura de mídia, e o bibliotecário Di Zhang, de Seattle, está aqui para ajudar. Durante o ciclo eleitoral de 2016, Zhang diz neste episódio do Today, Explained, as pessoas começaram a entrar na Biblioteca Pública de Seattle fazendo perguntas sobre histórias suspeitas que despontavam nas redes sociais e em notícias que pareciam sensacionalistas e não tinham certeza se as histórias eram credíveis. “Colocamos nossas habilidades à prova e decidimos criar uma aula chamada Guia de Sobrevivência de Notícias Falsas.”

O termo “fake news” disparou em 2015, quando veículos de notícias relataram a prevalência de artigos online falsos. Esses artigos falsos ganharam força a tal ponto que, durante o ciclo eleitoral de 2016, os artigos falsos foram compartilhados com mais frequência no Facebook do que os reais. Zhang aponta que, embora as teorias de desinformação, informações errôneas e teorias da conspiração não sejam novas, “elas estão ganhando cada vez mais força e … essas plataformas de mídia social estão empurrando as pessoas para um conteúdo cada vez mais extremo”.

Neste episódio, Zhang deu dicas que você pode usar - e compartilhar com seus amigos e familiares - sobre como saber se uma história que você encontra nas redes sociais é real ou falsa. Saiba mais sobre a diferença entre desinformação e informação errônea aqui.

Abaixo está uma versão editada da transcrição da entrevista. Você pode ouvir o episódio de Today, Explained completo aqui.

Sean Rameswaram: Que dicas você dá às pessoas não apenas para combater as notícias falsas que encontram online, mas também aquelas em chats, e-mails, cadeias de texto e tudo mais?

Di Zhang: Dou três dicas rápidas. Número um: leia, ouça e assista criticamente antes de compartilhar. Número dois, verifique a fonte. Número três, verifique o que sustenta a notícia.

Sean Rameswaram: Ok, três dicas essenciais. Envolva-se de forma crítica com o que você está lendo. Verifique as fontes e, em seguida, a sustentação, como quem está sendo citado de onde, de onde vêm as informações, etc.

Di Zhang: Exatamente. Eles fizeram um estudo em 2016 que revelou que 59 por cento dos links do Twitter foram compartilhados sem a pessoa clicar nele. As pessoas encontravam essas manchetes que realmente as cativavam emocionalmente e sentiam que deveriam compartilhar com todos os seus seguidores ou amigos. E elas não tinham, de fato, lido o artigo. Portanto, a melhor coisa que podemos fazer é clicar, ler na íntegra e nos perguntar: “isso faz sentido? Algum site de checagem de fatos fez um relato sobre essa história?”

Sean Rameswaram: Quais são alguns sites de verificação de fatos para pessoas que não estão familiarizadas?

Di Zhang: Para conteúdo político, eu realmente gosto de PolitiFact, mas meu favorito de todos os tempos é Snopes. Eles têm uma longa história de desmascarar mitos, sabe, teorias da conspiração, até mesmo fofocas. E o que adoro nos Snopes é que mostram todo o desenrolar da sua lição de casa. Assim como qualquer bom jornalista ou site de checagem de fatos faria, eles apresentam a afirmação, avaliam, mas depois mostram exatamente de onde veio essa história, e o quem a sustentou, quando existe sustentação. Então, eles realmente mostram a você cada passo que deram para avaliar essa afirmação.

[Meme criado para o curso de fake news da Biblioteca de Seattle: “Nunca acredite numa citação que você lê num curso sobre fake news”, citação falsa de Abraham Lincoln.]

Sean Rameswaram: É assim que se engaja de forma um pouco mais crítica. E a verificação da fonte? Como as pessoas comuns que estão apenas lendo as notícias casualmente no Facebook, entre outros, verificam as fontes?

Di Zhang: O segredo é não se envolver no Facebook. É realmente ir para onde o artigo está hospedado. Quem escreveu o artigo? O que você sabe sobre este autor? Eles escreveram outros artigos? Se eles não tiverem [um autor listado], isso pode ser um sinal. E se eles listarem o autor, muitas vezes eles darão uma espécie de biografia de onde o autor trabalhou e outras publicações para as quais ele escreveu e quais outros artigos que eles postaram. Onde esse jornalista foi treinado? Para quem trabalhou? Quem é o editor? O site tem uma reputação estabelecida? Eles, sabe, simplesmente apareceram nos últimos anos ou são uma organização de notícias estabelecida? Siga o rasto das migalhas de pão e siga de onde vêm as informações.

Sean Rameswaram: E aí a terceira dica que você dá às pessoas é verificar o que sustenta o artigo. O que significa isto?

Di Zhang: O que quero dizer com sustentação é: que evidências eles fornecem? Frequentemente, eles citam um especialista. E nesse caso, você pode verificar quem é essa pessoa? Eles são autorizados? Eles realmente têm um diploma? E se eles listarem citações, como, por exemplo, de uma coletiva de imprensa, você pode realmente encontrar um vídeo ou uma transcrição dessa coletiva? Essa pessoa realmente disse isso? Realmente temos que criar uma cultura de consumo consciente de notícias, consumo cético e compartilhamento cético.

Sean Rameswaram: Existem sinais que podem tornar isso mais fácil? Que outras coisas as pessoas podem observar que sejam sinais que você pode encontrar quando está diante de alguma desinformação online?

Di Zhang: Algumas bandeiras vermelhas seriam uma manchete muito sensacionalista ou politicamente carregada. Ela pode usar maiúsculas ou pontuação excessiva. A linguagem pode ser extremada ou opinativa. Se for super fácil de compartilhar, se for projetado para fácil compartilhamento, como um meme, sou super, super cético em relação aos memes e quase nunca os compartilho. Como é apenas uma imagem e qualquer pessoa pode tê-lo criado, é quase impossível rastrear onde começou. E outra coisa sobre a qual falo é um domínio .co. Esses endereço ‘.co’ são mais novos no jogo. Eles existem há apenas cerca de 10 anos. É muito mais fácil e mais barato obter um domínio .co. Eu uso o exemplo de abcnews.com.co, que foi um dos maiores sites de notícias falsas em 2016. Este site estava fantasiado para parecer que era a ABC News.

E, finalmente, se contiver uma alegação de que tem um segredo, que a mídia, o governo, as grandes empresas, qualquer um que não quer que você saiba e que eles são os únicos que têm acesso a essas informações, isso é um grande sinal. Essencialmente eles estão dizendo: "Você não pode verificar se isso é verdade". Sabe, "ninguém mais tem isso, e você tem confiar em mim."

*Publicado originalmente em 'Vox' | Tradução de César Locatelli

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