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Desejo um mundo de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano

03/11/2005 00:00

Frei Betto

Prezado Amigo,

Por que chamá-lo de prezado? Porque lhe prezo a sorte de ter chegado ao futuro. De haver futuro. Visto de hoje, novembro de 2005, fico perguntando-me se haverá futuro e que espécie de futuro.

Meus prognósticos não são nada otimistas. Observo os dados. Somos 6,3 bilhões de habitantes no planeta Terra (você já tem idéia de quantos há em outros planetas? Sim, acredito que existam. Como até agora as emissões mais longas que conseguimos produzir são as de TV, acredito que os extraterrestres tenham captado alguns de nossos programas e concluído que, aqui, ainda não há vida inteligente... Portanto, não há razão para que se aproximem).

Do total de habitantes deste mundo, dois terços vivem, segundo a ONU, abaixo da linha da pobreza. Possuem renda mensal inferior a US$ 60 por pessoa. E, desses, 1,2 bilhão sobrevivem com menos de US$ 30 por pessoa ao mês. Morrem, por dia, 24 mil vítimas da fome. Sim, fome! Essa coisa animal de ter um pouco de comida e bebida. Ela ainda é o nosso maior flagelo. Mata 5 milhões de crianças por ano. E o que é espantoso: muitos se mobilizam em prol da eliminação das outras três causas de morte precoce: violência (guerra, assassinato, terrorismo); enfermidades (câncer, Aids etc.); acidentes (de trabalho e de trânsito). Quase ninguém se mobiliza pela erradicação da fome. Sabe por quê? Por uma razão cínica: dos quatro fatores, é o único que faz distinção de classe. Não ameaça os bem-nutridos. Só os miseráveis.

Os cálculos já foram feitos: bastam US$ 50 bilhões por ano até 2015 para que a fome seja eliminada da face da Terra. Até porque não há excesso de bocas nem falta de alimentos. O planeta produz comida para 11 bilhões! O que há é falta de justiça. Imagine você que, só no Brasil, são desperdiçados, por mês, alimentos que dariam para saciar a fome de 35 milhões das 53 milhões de pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar.

Aliás, ponto para o presidente Lula, que criou o programa Fome Zero e lançou também, na ONU, uma campanha pela erradicação da fome no mundo. Mas tem sido pouco ouvido. Vivemos ainda num estágio pré-humano. Basta dizer que, desde 1940, as guerras mataram 86 milhões de pessoas, a maioria jovens. No ano passado, o mundo gastou US$ 900 bilhões em armas. Metade dessa quantia foi despendida pelos EUA. E, em cooperação internacional, investiu-se apenas US$ 60 bilhões. Uma vergonha!

Tomara que, neste mundo do futuro, armas sejam peças de museus, e já não existam nem polícia nem Forças Armadas. E que ninguém nasça condenado à morte precoce.

Hoje vivemos num mundo injusto, desigual, contraditório. Temos naves espaciais e pesquisas de clonagem de seres humanos, mas ainda convivemos com crianças de rua e a Aids ameaça 25 milhões de africanos. Nossa ciência e nossa tecnologia servem a uma elite, aos 20% da população mundial, residente no Hemisfério Norte, que detêm em mãos 80% da riqueza do planeta. Salva-se o capital em detrimento de vidas humanas.

Essa ambição de lucro fez com que alterássemos drasticamente o equilíbrio ambiental. Agora a natureza vinga-se, e não faz distinção entre ricos e pobres.

Sabe qual o meu sonho desde 2005? É imaginar um mundo de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. No qual a dor de um seja o cuidado do outro. Em que as portas das casas não tenham trancas, ninguém caminhe com medo pelas ruas, a todos estejam assegurados os mesmos direitos e oportunidades. Uma civilização do amor, onde todos vivam como irmãos e irmãs, em torno da mesa da comunhão de bens e de espírito, de modo que Deus possa ser verdadeiramente louvado como Pai Nosso.

Espero que este seja o seu mundo. Ou que pelo menos a sua geração já esteja em condições de vislumbrá-lo.

Meu abraço repleto de paz,


Frei Betto

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