Mídia

Desenjaulado

18/04/2002 00:00

As sensações mais intensas da vida escondem-se na infância. Viver é tentar perpetuá-las ao passo em que as traduzimos em entendimento. Por isso, no sábado, fiz um programa pueril. Fui ao zoológico! Na verdade ao Zooparque, no município de Itatiba.



Trata-se de uma trilha que serpenteia por dentro de um trecho de Mata Atlântica preservada e ladeada por lagos, jaulas gigantes e enormes gaiolas que exibem uma coleção impressionante de belos animais. Aliás, a beleza parece ter sido o principal critério de seleção dos mantenedores do parque.



Mas esta descrição inútil, ainda que ilustrada por fotografias, não é o que me moveu a escrever sobre a experiência mágica de passar um dia inteirinho de criança, com direito a guloseimas e dengos quando o cansaço do fim da tarde exigia uma recompensa energética e um certo aninhamento em colo quentinho.



O que nos remete à infância, nestes reencontros com os misteriosos universos que povoam a imaginação de toda criança, é o resgate daquele pasmo essencial, aquele choque dos sentidos, aquele curto-circuito cerebral causado pelo excesso de impressões registradas em uma velocidade estonteante. Aquilo que não conseguimos entender, apenas sentir ardentemente. Mais tarde na vida, o entendimento vai, aos poucos, furtando o prazer do sentir.



Havia tanto a perceber. Tanto para processar. Ainda mais amparado pelos conhecimentos, catados às ciências, que a vida adulta acumula: olhava atento as formas, as cores, os movimentos, os hábitos, o hábitat dos bichos. Torcia por alguns movimentos que revelassem, com maior clareza, plumagens e pelagens, ou o olhar instigante dos felinos, ou a exuberância adiposa do hipopótamo, ou a expressão quase humana dos macacos. O adulto escrevendo esta crônica agora encontra adjetivos para o que, no sábado, era só sensação, sem formas e sem qualidades.



Já que estava tomado pela criança que ainda habita dentro de mim (e também porque havia pouca gente por perto), conversei com vários animais. Alguns responderam. Troquei frases de sonoridade esdrúxula com o calau, provoquei movimentos labiais de sons abafados no pequeno macaco-aranha, acariciei um pequeno macaco amazônico, com os dedos enfiados à tela da gaiola (por errado que fosse). Deliciosa infração sem reprimenda!



Na volta para casa, uma tórrida tempestade lavou o caminho, deixando apenas a certeza de que voltei a ser criança por um dia, ainda que minhas pegadas tenham sido levadas pela água, meus rastros apagados pelo vento, sem deixar provas de que percorri este retorno a um lugar de onde não me podem tirar: a lembrança de uma certa manhã de domingo, em outro zoológico, há muitos, muitos, muitos anos atrás.



É realmente uma pena que os homens não voltem a ser crianças, por uma tarde de sábado que seja! Talvez percebessem que, somente na infância, com seus passeios em zoológicos, sentimos em profusão o que o resto da vida não será capaz de revelar ao entendimento.




As fotos foram produzidas pelo autor e por Melissa Fernandes de Carvalho. (Passe o mouse pela ilustração)



Serviço: O Zooparque fica na Rodovia D. Pedro I, km 95,5 - Itatiba - São Paulo - Brasil

Fones: (11) 6994.1650 e (11) 4538.7389 / www.zooparque.com.br



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