Mídia

Do Arco-da-velha

16/05/2002 00:00

A coisa está tão feia que ficou mais fácil fazer as pessoas rirem. Neguinho está rindo de nervoso!



Ontem, no posto, presenciei a mais inacreditável história de contágio histérico pelo riso. E olha, alerto desde já, a coisa não teve a mínima graça.



O frentista, nem o dono do posto sabe o porquê, estava, como sempre, tentando arredondar os míseros centavos na conta altíssima que os dígitos da bomba acusavam. O dono do carro, que sempre sai com o tanque transbordando pelo respiro aquele insuportável cheiro de gasolina, além das várias gotas que deixam um rastro pelo asfalto, soltou um sonoro: - Tá jóia!



Foi o que bastou. Como se alguém tivesse riscado um fósforo naquele inflamável cenário, os frentistas explodiram em uma sonora e contagiante gargalhada. Riam, riam... a ponto de tentar falar e não conseguir. Em meio a tanta gargalhada só se ouvia um ou outro balbuciar a palavra jóia, o que só intensificava mais ainda o já compulsivo ataque.



O esforço para se livrar do riso foi tanto que envolveu um estranho ritual corpóreo: tapas na própria barriga, mãos sufocando as faces rubras de tanta risada, braços cruzados sobre o ventre já dolorido, apoiando o corpo curvado para frente em movimentos espasmódicos, lágrimas vertendo ao longe, respingando. Além de sintomas não perceptíveis, como taquicardia e soluços contidos.



Depois de um tempo que pareceu infinito, a trupe de risonhos frentistas foi, aos poucos, acalmando-se. A palavra jóia já ia sendo repetida sem tanta dificuldade, provocando apenas pequenos ecos do que fora aquele vigoroso surto de hilaridade desmedida.



- Jóia... – repetiu o mais gordinho dos frentistas só rindo levemente.



- Jóia! – exclamou o segundo, terminando um sorriso.



- Jó... jóia – completou o terceiro num leve esgueirar dos lábios.



- Putz grila, há quanto tempo eu não ouvia isso – comentou o gordinho.



- Mais que palavrinha mais jacu, hein! Falar jóia é coisa de gente jacu! – falou o magrelão, num tom meio agressivo.



- Jóia! Eta expressãozinha do arco-da-velha! – encerrou o terceiro frentista.



Quando eu saí do posto, o motorista do carro de tanque transbordado ainda estava tendo convulsões enquanto tentava, afogado em risadas, repetir: Putz grila... jacu... arco-da-velha... Os três frentistas já tinham voltado ao trabalho.




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