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Duas lições dos tempos de horror na Argentina

14/10/2011 00:00

Eric Nepomuceno

1. Dia desses, o Brasil devolveu para a Argentina um cidadão chamado Norberto Raúl Tozzo. Idade: 66 anos. Profissão: oficial do Exército. Atividade conhecida: assassino. Foi extraditado numa segunda-feira. Lá, na Argentina, teria sido condenado à prisão perpétua. Vai cumprir uns bons anos de cadeia, e depois volta às ruas: pelo tratado de extradição, não poderá ficar preso mais do que trinta anos. Como ficou três preso no Brasil, sai da cadeia daqui a vinte e sete. Se estiver vivo, terá 93 anos da idade.

Norberto Raúl Tozzo, major do Exército. Em 1976 ele tinha 31 anos. E jovens, muito mais jovens que ele, eram os 24 presos políticos que ele tirou da cadeia e mandou fuzilar, no dia 13 de dezembro de 1976, na província nortenha do Chaco. Pela lei argentina, não teria perdão. Pela lei brasileira, ele só foi extraditado porque dos que mandou matar, quatro nunca apareceram. Ou seja, não foram oficialmente mortos. Daí ele ter sido responsabilizado no Brasil por seqüestro continuado, seja lá o que isso for. Porque pelos outros fuzilados, estaria, no Brasil, tão livre quanto eu e você: o crime teria prescrito. É o que reza a nossa Lei de Anistia.

2. Dia desses, a Argentina condenou à prisão perpétua Juan Agustín Oyarzábal, de profissão delegado de polícia. Atividade: assassino, torturador, violador de presas políticas. Junto com ele foram condenados outros três policiais, um sargento e um coronel do Exército. Houve ainda um tenente, condenado a uma pena mais branda: doze anos de cadeia. Agora, são 240 os repressores dos tempos da ditadura militar condenados por crimes contra a humanidade: tortura, seqüestro, assassinato, violação. Que lá, como no resto do mundo, são crimes que não prescrevem.

O processo de Oyarzábal e companhia durou um ano. Chamou a atenção porque entre as pessoas que ele e seu grupo mataram estava o poeta Francisco Urondo, baleado em Mendoza no dia 17 de junho de 1976, mesmo dia em que Ângela Raboy, sua mulher, foi seqüestrada e desapareceu para sempre. A filha deles, Ângela, tinha onze meses de vida. Pouco depois foi encontrada pela família, numa creche. Aos 16 anos finalmente soube sua verdadeira história, e que seus pais não tinham morrido – conforme ela havia ouvido a vida inteira – num acidente de automóvel: tinham sido assassinados. De certa forma, Ângela teve sorte: em pelo menos 500 casos como o dela, os bebês foram entregues a policiais e militares. A imensa maioria deles – uns 400 – continua vivendo com outro nome. São centenas de pessoas que vivem uma vida inventada, não sabem quem são.

No rastro de horror, a ditadura militar argentina que durou de 1976 a 1983 ceifou alguns nomes essenciais da cultura contemporânea do país. Foram mortos o escritor Haroldo Conti, o cineasta Raymundo Gleyzer, o jornalista Enrique Raab, o jornalista e também escritor Rodolfo Walsh. O exílio foi tão grande que durante longos anos, parte do que havia de melhor nas artes e na cultura do país vivia no exílio: os cineastas Pino Solanas e Eduardo Mignogna, o poeta Juan Gelman, os escritores David Viñas, Hector Tizón, Daniel Moyano, Antonio di Benedetto, um sem-fim de atores, atrizes, compositores, cantores, pintores. Muitos dos que ficaram foram mortos.

Entre eles, Francisco Urondo – o Paco Urondo que escrevia poemas delicados e angustiados, às vezes furiosos. ‘Do lado de lá da grade está a realidade, deste lado da grade também está/ a realidade; a única coisa irreal é a grade’, diz um de seus derradeiros escritos, quando o país parecia um cárcere imenso.

Paco foi também militante político. Já antes do golpe de março de 1976 havia passado para a clandestinidade, o que significava, para quem, como ele, integrava os Montoneros, passar para a ação armada. Eram tempos de desespero. Tempos de morrer. Sabia que estava condenado. O que muitos amigos perguntam até hoje é por que os líderes Montoneros, sabendo disso, como ele sabia, deixaram que ficasse na Argentina.

Paco Urondo fez parte de uma geração brilhante da poesia argentina contemporânea. Apostou a vida, e explicou: “Minha confiança se apóia no profundo desprezo/ por este mundo desgraçado./Darei a vida/ para que nada continue como está”.

Em tempos normais teria sido preso e julgado. Em tempos normais não teria empunhado uma arma. Em tempos normais não teria sido morto a sangue frio. Passados 35 anos da sua morte, seus assassinos foram julgados, tiveram pleno direito à defesa – coisa que ele não teve – e foram condenados.

Francisco Urondo, o Paco dos amigos, apostou a vida e perdeu. O mundo continua desgraçado, mas a Argentina não continuou como estava. Francisco Urondo, o poeta militante, não pôde ver nada disso.

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