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E se for possível clonar seres humanos?

01/06/2006 00:00

Mayana Zatz *

Remetemos ao Arqueólogo do Futuro nossas reflexões sobre a clonagem humana, suas impossibilidades técnicas, até o momento, e muitas dúvidas éticas, além de algumas especulações sobre aspectos cotidianos em que a clonagem pode gerar situações realmente inusitadas, como, por exemplo, deparar-se com antecedência com a decrepitude do futuro.

Clonar seres humanos? Hoje seria uma loucura! As experiências com animais que foram clonados depois da ovelha Dolly mostraram que além da eficiência ser baixíssima (ao redor de 1%) praticamente todos os animais que foram clonados a partir de células diferenciadas, não embrionárias, tiveram problemas graves tais como envelhecimento precoce, gigantismo, malformações múltiplas, problemas imunológicos, musculares e muitos outros. Pelo menos um terço deles teve morte prematura, inclusive a ovelha Dolly.

É por isso que as academias de ciência de 63 países posicionaram-se contra a clonagem reprodutiva humana. É um risco que não podemos correr. Mas não podemos nos iludir. Trata-se de um processo irreversível. Com certeza, há cientistas tentando, às escondidas, e talvez algum dia seja possível clonar seres humanos sem riscos de malformações ou doenças. E, então, surgirão as inúmeras questões éticas: por que clonar? Quem deveria ser clonado? Quem irá decidir?

O sonho da vida eterna sempre foi perseguido pelo ser humano. Tanto é, que existem malucos que pagaram uma fortuna para ter seu corpo congelado em nitrogênio líquido. Essas pessoas muito provavelmente pagariam também para ter um clone de si mesmo, pela ilusão de ter uma cópia de si mesmo que “garantisse” a sua continuidade biológica.

Podemos imaginar várias outras situações. Por exemplo, um casal cujo filho morreu em um acidente e quer o filho de volta. Sabemos que um clone nunca será igual, da mesma maneira como gêmeos idênticos também não o são. Mas se o filho ainda era um bebê ? Nesse caso, não haveria muito como comparar o clone com o bebê falecido. Por que não ter outro ao invés de tentar clonar o que morreu, pensarão muitos de vocês. Mas quem somos, afinal, para julgar? Só quem perdeu um filho sabe a dor que isso representa.

Uma outra situação seria de uma mulher que não pode ter filhos, porque teve que retirar os ovários, ainda jovem, devido a um acidente, um câncer ou algum outro motivo. A partir de uma célula diferenciada dessa mulher, seria possível produzir um clone dela que seria inserido em um útero. O único objetivo desse feto clonado seria o de produzir os óvulos que ela deixou de fabricar. Isso porque, no sexo feminino, todos os óvulos são produzidos na fase fetal. A gestação seria então interrompida, os óvulos do feto retirados e então eles poderiam ser fertilizados por espermatozóides, como ocorre na fecundação assistida e formar embriões. Esses seriam então implantados em um útero e poderiam gerar um bebê normal. Ou seja, não seria fabricado um clone daquela mulher, mas a técnica de clonagem reprodutiva seria usada para permitir que ela engravidasse. Você acharia isso ético ou antiético? Se hoje, em muitos países do mundo, permite-se interromper uma gestação, só porque ela não é desejada, porque não gerar um feto para permitir o nascimento de um filho? Será que os conceitos de ética serão os mesmos daqui a 50 anos?

Muito mais polêmico seria clonar um indivíduo adulto para ajudar casais estéreis a ter filhos, como defende o médico italiano Severino Antinori. Clonar a mãe ou o pai? Tira-se par ou ímpar e a sorte determina que o clone será feito a partir de uma célula do marido . Para uma mulher apaixonada, ter o marido em dose dupla e, além disso, uma versão mais madura e outra mais jovem, deve ser uma situação maravilhosa. Mas e se acontecer o contrário? Imagine-se que o casal separe-se, com um divórcio litigioso, depois de muita briga. Além de odiar aquele ex-marido ela agora tem que agüentar uma cópia dele?

Ou então, o rapaz conhece aquela moça linda e é uma paixão à primeira vista. Não demora muito e ele a pede em casamento e quer conhecer a sua família. Ela então lhe conta um segredo: foi clonada a partir da mãe . E, ao conhecer o clone que a originou, 30 anos mais velha, o choque é inevitável. É assim que ficará aquela mocinha linda, trinta anos mais tarde?

E como se sentiria a pessoa que gerou o clone? Deve ser como aquela sensação de ver uma roupa em um modelo e imaginar-se igual. Até olhar-se no espelho...

A verdade é que, toda vez que olhamos para os nossos pais, vemos neles coisas que não gostamos: rugas, calvície, pneus de gordura, reumatismo . E pensamos: isso não vai acontecer comigo. E quando se é jovem, então, mais ainda: não acreditamos que, algum dia, também ficaremos velhos. Mas e se tivéssemos sido clonados? Estaríamos nos vendo 30-40 anos mais velhos. Não haveria como escapar . Será que no futuro, caro Arqueólogo, estaremos preparados para isso?

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(*) Mayana Zatz é professora titular de Genética, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano e pró-reitora de Pesquisas da Universidade de São Paulo.

N.E.: Imagine-se endereçando uma mensagem a um arqueólogo do futuro, fornecendo-lhe dados sobre a realidade atual que lhe servissem de apontamentos para o entendimento de nossos dias. A Carta Maior apresenta espaço dedicado a esta inusitada empreitada, com a publicação mensal de textos de importantes intelectuais, cientistas e artistas endereçados ao Arqueólogo do Futuro.

O texto de estréia foi de Niéde Guidon, arqueóloga. Em seguida, tivemos o de Eduardo Gaelano, pensador e escritor uruguaio. Depois, o de Moacyr Scliar, médico, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, o de Jorge Timossi, vice-presidente do Instituto Cubano do Livro e diretor da Agência Literária Latino-americana, o de Mirian Goldenberg, doutora em Antropologia Social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o de Maurício de Sousa, o genial criador da Turma da Mônica, o de Emir Sader, sociólogo e professor da UERJ, o do Chico Anysio, humorista, escritor e pintor, o de Ferreira Gullar, poeta, o de Flávio Wolf Aguiar, escritor e professor de Literatura Brasileira da USP, o de Marcio Souza, escritor amazonense, o de Viviane Mosé, filósofa e divulgadora da filosofia, o de Elizabeth Ginway, brasilianista e estudiosa de ficção brasileira, o de Augusto Boal, teatrólogo criador do Teatro do Oprimido, o de Frei Betto, teólogo e escritor, o de Alfredo Bosi, escritor e professor de literatura brasileira, o de Jorge Furtado, cineasta, o de Bernardo Kucinski, jornalista e professor da ECA-USP, o de Soninha, radialista vereadora em São Paulo, o do escritor Ruy Castro e o do sociólogo Renato Ortiz. Todos estes textos podem ser visitados a partir do link abaixo:

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