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Eduardo Galeano, as palavras andantes

01/10/2004 00:00

Verena Glass

¿Para qué escribe uno, si no es para juntar sus pedazos?
(Eduardo Galeano)



Há algo de muito metafísico em torno do Galeano. Quer dizer, é como se ele fosse algo único e diferente para cada um que o lê, como se ele fosse capaz de fazer soar dentro de nós as cordas da nossa alma que poucos sabem tocar.


Por exemplo comigo. Tinha 14 anos quando me caiu nas mãos seu livro Dias e noites de amor e de guerra. Era uma tarde de vento forte e nuvens pretas, eu estava no ônibus e abri o livrinho. Lembro-me de que começou a me dar uma febre, o coração disparou, e era como se o vento que soprava lá fora tivesse entrado no meu estômago. Entre todas as “primeiras vezes” na minha vida, a primeira vez com Galeano sem dúvida foi uma das mais marcantes. E não tem por onde, a ventania que soprou daquela vez continua lá quando ele fala para mim, por vezes enchendo os olhos de lágrimas ou o coração de entusiasmo, por vezes revoltando os sentidos, por vezes...


O jornalista uruguaio Eduardo Galeano, que, em 1971, aos 31 anos, escreveu As veias abertas da América Latina, uma das obras mais importantes da nossa época, é um desses patrimônios do nosso continente que correu todos os seus países, suas guerras, seus amores, sua gente e seus sonhos. “Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede”, escreveu ele no livro Mãos ao alto: a escola do mundo às avessas (1998). E, caramba, dos milhares de sonhos que temos nós, milhares de pessoas, parece que Galeano sabe de cada um deles.


Se considerarmos que os grandes pensamentos e os grandes sentimentos são atemporais, intrínsecos ao homem e ao mundo, e se, por ventura, estivéssemos preocupados se nos entenderão nos tempos por vir, poderíamos respirar aliviados, porque o mundo do futuro certamente saberá sentir-nos por meio de Galeano, que fala de mulher, futebol, política, religião e espírito, arte, amizade, amor e guerra como você e eu. Só que ele sabe melhor como contar o que sentimos e pensamos.






Veja texto de Eduardo Galeano




Na arca do arqueólogo:


Veja texto de abertura de O ARQUEÓLOGO DO FUTURO




Veja texto de Niéde Guidon










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