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Empresa dos EUA gastou milhões em uma ''guerra suja'' no Facebook contra Maduro, Morales e López Obrador

Facebook removeu uma rede de contas e páginas falsas criada pela CLS Strategies, empresa que gastou 3,6 milhões de dólares para forjar falsos perfis que apoiavam o governo que emergiu do golpe na Bolívia e as oposições da Venezuela e do México

07/09/2020 15:17

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
A empresa CLS Strategies, com sede em Washington, oferece aos seus clientes o serviço de realização de campanhas para melhoria da imagem ou reputação, gestão de crises, desenho de roteiros para empresas ou sindicatos, e também para conseguir mudanças legislativas de acordo com seus interesses ou aconselhamento de comunicação nas redes sociais.

Para clientes especiais – como a oposição venezuelana, a oposição mexicana ou os partidários do golpe que derrubou o governo de Evo Morales na Bolívia –, a CLS Strategies também tem outro catálogo de táticas de “guerra suja” e operações de desinformação disponíveis nas redes sociais para manipular opinião pública.

O mais recente relatório do Facebook sobre atividades fraudulentas em sua plataforma detalha os serviços ocultos que a CLS Strategies desenvolveu nesses países latino-americanos.

Isso inclui “a ‘amplificação’ artificial das mensagens e slogans de seus clientes, a criação de páginas se passando por mídia independente, organizações da sociedade civil e páginas de fãs políticos e a geração de atrativos para levar os usuários da plataforma para sites sob seu controle”.

Para conseguir isso, a empresa criou uma rede de contas falsas no Facebook e no Instagram, que fingiam ser “cidadãos locais” da Venezuela, México e Bolívia, para “confundir as pessoas sobre quem estava por trás dessas atividades”.

“Algumas dessas páginas também se apresentavam como partidos políticos, incluindo o uso de erros tipográficos para enganar as pessoas e fazê-las acreditar que eram autênticas”, afirma o relatório do Facebook. A rede social eliminou 55 contas e 46 páginas falsas que foram criadas no Facebook, e outros 36 perfis fraudulentos no Instagram que participaram dessas atividades. Sua investigação encontrou ligações com a CLS Strategies em todos eles, o que viola as regras de “interferência estrangeira” da plataforma.

A empresa de Washington conquistou uma audiência considerável para sua “rede tóxica”: mais de meio milhão de pessoas seguiam uma ou mais dessas páginas que fingiam ser meios de comunicação, partidos políticos, organizações da sociedade civil ou páginas de seguidores de certos políticos. No Instagram, pelo menos 43 mil usuários seguiam um ou mais perfis impostores. Para chegar a esses números, a rede gastou 3,6 milhões de dólares em publicidade com as ferramentas do Facebook, “pagos principalmente em dólares”.

A favor do golpe na Bolívia e da oposição na Venezuela e no México

O Facebook detalha que a principal atividade das contas falsas estava centrada na Venezuela, com ramificações no México e na Bolívia. “Esta atividade parecia se concentrar em eventos públicos e eleições em seus países-alvo. As pessoas que realizaram esta atividade publicaram notícias e comentaram sobre eventos atuais relacionados à política e representantes públicos, eleições ou crises”, dizia o relatório. Na Venezuela, a rede fraudulenta apoiou a oposição, criticou Nicolás Maduro e o regime chavista. No México, os ataques foram dirigidos contra o partido Morena (Movimento de Regeneração Nacional), liderado pelo atual presidente Andrés Manuel López Obrador. Já na Bolívia, sua missão foi apoiar o governo que emergiu do golpe contra o ex-presidente Evo Morales, em 2019.

O objetivo era gerar descontentamento nos simpatizantes de seus rivais e dar uma imagem de caos. “Na Bolívia, não aceitamos traficantes nem covardes”, diz um vídeo publicado pela página “Bolivianas Libres”, criada em Washington pela CSL Strategies, e que designava membros do governo de Evo Morales como “mafiosos e corruptos”.

“Na semana passada o TSJ (Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela) nomeou os novos reitores do CNE (Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela), violando a Constituição da República, onde se indica que a AN (Assembleia Nacional) é a instituição designada para esta tarefa. Um exemplo claro de como Maduro controla os poderes na Venezuela. O que você é capaz de fazer para garantir que as leis sejam respeitadas na Venezuela?”, diz outra das publicações que o Facebook revelou como exemplo de ações em rede. O texto é acompanhado por uma caricatura de Nicolás Maduro com três cabeças.

Juan Cortiñas, diretor da CLS Strategies, não negou o envolvimento de sua empresa na rede fraudulenta eliminada pelo Facebook. Pelo contrário, em um comunicado, ele tenta responsabilizar uma mudança de política por parte da rede social pelo aparecimento da sua empresa no relatório sobre a manipulação. “A CLS Strategies tem uma longa tradição de trabalho internacional, incluindo mídias sociais, para promover eleições livres e abertas, e se opor a regimes opressores. Levamos a sério nosso compromisso de aderir às políticas de rápida mudança do Facebook e outras plataformas de mídia social”, disse o comunicado.

Cortiñas é ex-assessor de imprensa de um deputado do Partido Republicano dos Estados Unidos, e se recusou a responder perguntas diretas da imprensa sobre os clientes que contrataram esses serviços de “guerra suja” nas redes sociais em países latino-americanos, e tampouco aceitou esclarecer qual foi o seu investimento total, tendo em conta que a CLS Strategies investiu 3,6 milhões de dólares só nas campanhas em Facebook e Instagram. Ele preferiu enfatizar que o Facebook não bloqueou todas as atividades da consultoria, como fez com outras empresas cujo método de negócio era baseado na manipulação.

O surgimento deste caso da CLS Strategies como autora de uma operação de intoxicação coincide com a publicação de alguns contratos que a mesma empresa assinou com o governo que assumiu após o golpe na Bolívia, para “lavar sua imagem” após a chegada ao poder através da força. A consultoria teria cobrado cerca de 90 mil dólares para realizar esse trabalho durante três meses, entre dezembro de 2019 e março de 2020.

Esta campanha para melhorar a reputação do golpe na Bolívia, e do governo interino de Jeanine Áñez, também contou com dezenas de milhares de novas contas no Twitter, criadas nos dias em que a oposição do país ameaçava o presidente de intensificar a violência nas ruas. Sua missão era enviar mensagens ao exterior, usando boatos e desinformação para influenciar a opinião pública internacional.

*Publicado originalmente em elDiario.es | Tradução de Victor Farinelli



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