Mídia

Entramos no reino da razão cordial

02/05/2007 00:00

Leonardo Boff

Da História, aprendemos que não aprendemos nada da história. Mas aprendemos tudo do sofrimento. E aprendemos.

Sabíamos dos alertas dos cientistas e sábios que nos advertiram acerca do aquecimento global que ocorria de forma irrefreável. Devíamos proteger e cuidar de todos os ecossistemas, da imensa biodiversidade da Terra, da água potável cada vez mais escassa. O que não podíamos era romper o limite do intransponível.

Eis que nos inícios de fevereriro de 2007, o organismo da ONU que envolveu mais de 2.500 cientistas de 130 paises, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) comunicou-nos a trágica notícia: acabávamos de romper a barreira de não retorno. A Terra encontraria um novo equilíbrio subindo sua temperatura entre 1,4 até 6 graus Celsius, estabilizando-se provavemente por volta de 3 graus Celsius.

Caso isso viesse a ocorrer, representaria a inauguração da era das devastações. Se nada fizéssemos até os anos 2030-2040 conheceríamos a tribulação da desolação. Pelo final do século XXI, teríamos uma Planeta devastado, grande parte de nossas florestas dizimadas, a biodiversidade tremendamente reduzida e milhões de pessoas teriam desparecido. Nos recantos ainda habitáveis, viveriam milhões de pessoas acotoveladas, com outros milhões de refugiados do clima, forçando os limites do espaço, na busca desesperada de alimentos e de chances de sobrevivência.

Mas eis que algo inaudito aconteceu. Estava dentro das possibilidades humanas a emergência da cooperação e da razão cordial, mas que, na civilização imperante, marcada pela competição e pela razão instrumental, tinha poucos espaços de realização. Agora, face ao iminente perigo de que não houvesse uma Arca de Noé que salvasse alguns e deixasse perecer os demais e de que todos igualmente poderíamos perecer, verificou-se uma lenta, mas progressiva transformação no estado de consciência da humananidade.

Tomamos consciência de que somos uma única e grande família habitando uma única Casa Comum, o planeta Terra. Temos que nos salvar a nós mesmos e o nosso habitat humano.

Governos, grandes instituições multilaterais, empresas globais, movimentos sociais mundiais, igrejas, religiões, centros de pesquisa e universidades, articulações de camponeses do mundo inteiro e outros grupos menores, mas não menos importantes, começaram a fazer encontros para buscar caminhos salvadores. Houve muitas discussões, contraposições, propostas e contrapopostas. Mas todos viam a urgência de encontrar pontos mínimos comuns. Ao redor deles, dever-se-ia elaborar um consenso geral.

A primeira coisa que constataram foi que dispomos de meios técnicos e econômicos mais do que suficientes para enfrentar com sucesso o risco. Apenas faltava o consentimento de todos para participarem do projeto-salvação-da-vida-e-da-Terra. Todos teriam que fazer alguma renúncia e oferecer todo tipo de colaboração.

Quando grande é o perigo, grande também é a chance de salvação submetida à condição de que todos queiram ser salvos. Quem é tão inimigo de si mesmo e da vida a ponto de sucumbir ao apego aos bens materiais que, na verdade, apenas pesam, que não nos podem assegurar a vida e nem podemos levá-los conosco junto com a morte?

Mesmo com a relutância de um bom número de milhardários, todos convieram na seguinte decisão, baseada na sabedoria antiga da humanidade: quando estamos todos em perigo de vida, tudo fica comum. Então os bens de todos os países e das pessoas deveriam servir a todos no propósito de salvar a todos e o nosso querido planeta.

Esta decisão implicava fazer uma moratória no desenvolvimento e no crescimento. Parar para permitir universalizar todas as conquistas em benefício de todos a começar pelos mais retardatários e pobres. Viu-se que com os capitais acumulados nos bancos mundiais, nos bancos centrais de cada pais, nas bolsas do mundo inteiro e nas contas de grandes ricos e de todos, haveria tantos meios capazes de dar casa, saúde, educação e lazer a todos os seres humanos.

Logicamente esta moratória implicaria fechar milhões e milhões de postos de trabalho. As fábricas cessariam de produzir. Mas com os fundos globais da humanidade todos poderiam ganhar salário de subsistência e de decência. Não apenas para não morrer, mas para viver desafogados e felizes. Fariam os trabalhos de manutenção das cidades, das ruas, dos serviços essenciais, das fábricas e edifícios públicos. Grande parte do trabalho seria feito no resgate da natureza levando a sério os quatro erres: reduzir, reutilizar, recliclr e rearborizar.

Ninguém seria perdulário ou viveria no luxo. O projeto de vida é viver na simplicidade voluntária. Mas todos decentemente, podendo comer três ou mais vezes ao dia de forma mais que suficiente. O efeito seria um bem-estar inimaginável e anulariam-se as causas principais que levam ao conflito e à vontade de dominação de uns sobre outros.

Todos decidiram fazer uma retirada sustentável das atividades que implicavam degradação da natureza. O propósito coletivo era regenerar a Terra das feridas inflingidas e prevenir feridas futuras. Era o império da ética do cuidado e da compaixão.

Mais ainda, cientistas dos mais sérios. sugeriram utilizar a tecnologia mais avançada, a nanotecnologia, para reduzir o aquecimento da Terra. Descobriram que milhões de nanopartículas de ferro colocadas nos oceanos diminuiriam o calor das águas ao mesmo tempo que estimulariam os corais e os planctons a produzirem mais oxigêncio. Colocadas na estratosfera, refletiriam os raios solares para fora da Terra e assim a resfriariam. Haveria riscos com esta nanotecnologia, cujos efeitos finais ainda não controlamos. Mas face à iminência do perigo coletivo, fomos obrigados a aceitar certas ameaças.

As religiões, as igrejas e as tradições espirituais esqueceram suas diferenças e juntas colocaram-se a serviço da vida e dos valores que mais protegem a vida como a reverência e o respeito, a colaboração de todos com todos e a profunda compaixão por aqueles que ainda continuam sofrendo por causa da condição humana deficiente. Com isso, criou-se uma aura espiritual nas sociedades que facilitou a aceitação das diferenças e o apreço dos valores dos mais diferente povos. Elas nos convenceram de que realmente somos irmãos e irmãs de uma mesma família habitando a mesma Casa Comum.

As quatro virtudes básicas do convívio humano foram cultivadas com extremo empenho: a hospitalidade de todos com todos, o respeito por todas as diferenças de raça, de religião, de cultura e de valores, a convivência irrestrita que levou a superar a intolerância e o fundamentalismo e, por fim, a comensalidade: todos sentados ao redor da mesma mesa planetária, como irmãos e irmãs em casa, desfrutando da generosidade dos bens da mãe Terra.

Todos se puseram a venerar a Fonte originária de onde nos vêm todas as coisas, valorizando os diferentes nomes que cada grupo humano lhe deu: Javé, Olorum, Tao, Shiva, Tupã, Deus. Essa crença ensinou os seres humanos a confiarem o seu futuro a um Maior e sentir-se carregados na palma de sua mão. Seu desígnio não é a morte, mas a vida, não o caos mas o sentido. Eles detém a última palavra.

Assim todos, confiados na salvação da humanidade e da Terra, inauguram o reino da razão cordial.

E todos começaram a dançar e a louvar, a louvar e a celebrar, a celebrar e magnificar a alegria de estarem juntos, irmanados entre si e reconciliados com a Terra, contentes por terem ainda futuro e por estarem certos de que a aventura terrenal e cósmica pode seguir pelos séculos sem fim.


Conteúdo Relacionado