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Entrevista com Marçal Aquino

20/05/2002 00:00

Noite de lançamento de

Créditos da foto: Noite de lançamento de "O Invasor"
O Invasor é a primeira novela de Marçal Aquino, o consagrado contista que recebeu o Jabuti de 2001 pelos contos Amor e Outros Objetos Pontiagudos. É também a terceira parceria do autor com o cineasta Beto Brant (já fizeram juntos Os Matadores e Ação Entre Amigos) que resultou em um filme impressionante que conta com Marco Ricca, Alexandre Borges, Malu Mader, Mariana Ximenes no elenco, além da grande estréia como ator do titã Paulo Miklos.


O livro narra a história de dois sócios de uma construtora que contratam um matador de aluguel para assassinar o terceiro sócio, expondo toda a violência e corrupção das grandes metrópoles brasileiras.




Carta Maior entrevistou Marçal Aquino:


CM - Os roteiros anteriores também trabalham com a violência e, principalmente, com a tensão que esta situação acarreta. Quase nunca a violência crua é explicitada, mas apenas sugerida. Neste sentido, pode se observar que os filmes seguem uma trajetória de complementação deste tema a partir das situações-limite demonstradas?


Marçal - Nunca gostei da violência exibida de forma gráfica. Hoje, pra falar a verdade, salvo raros exemplos, ela me incomoda no cinema. Acho que a TV, com esses programas policiais todos e com aqueles blocos policiais do Jornal Nacional, já ultrapassam - e muito - o índice de exibição tolerável. Numa palavra: a exibição da violência, assim como a manifestação da própria, está banalizada. Quando comecei a escrever O Invasor, em 1997, já tinha isso em mente. Naquele ano, assisti ao filme Funny Games, do Michel Haneke, e isso consolidou esse conceito. No filme, ultraviolento, nada é mostrado, tudo acontece "fora de quadro". A violência, no caso, fica por conta da cabeça de cada espectador. Vi que era por aí mesmo que eu queria transitar. Tanto que o livro e o filme não têm um tiro sequer, embora aborde uma trama de grande potencial de violência. Simbolicamente, a pretensão era mostrar essa violência que está ao nosso lado, potencialmente falando, e com a qual acabamos por nos habituar. Nunca houve a pretensão (minha ou do Beto) de fazer uma trilogia sobre a violência ou coisa parecida. Os filmes foram acontecendo a partir de textos pura e simplesmente. Não havia um projeto conceitual ou coisa que o valha. Tanto que, antes mesmo de O Invasor, havia o plano de uma mudança de rota. Embora ainda não tenhamos definido qual será o próximo projeto com exatidão, dá para adiantar que ele representará uma mudança. Vamos olhar outros abismos - eles são tantos.



CM - O Beto Brant declarou certa vez, que O Invasortinha como foco a elite que não quer abrir mão da concentração de renda. Para você, há relação entre a disseminação da criminalidade na sociedade e a corrosão dos valores sociais com a ganância dessa classe dominante?


Marçal - Acho que, no plano real, as coisas nunca ocorrem de forma isolada. O conjunto é que determina. Então acho que todo mundo tem uma parcela boa de responsabilidade nesse estado de coisas. Não é à toa que, na minha opinião, só haverá possibilidade de alguma mudança na hora em que não restar mais ninguém naquela coisa confortável de pensar "isso não é comigo". O Invasor, o livro, nasceu um pouco dessa inquietação. Me lembro de ter conversado na época com o presidente de uma multinacional, um brasileiro que tinha vivido muitos anos fora e estava de volta ao Brasil. Ele me disse, de forma indireta, que não tinha nada a ver com esse estado de coisas. E resumiu: ia ao escritório de helicóptero, seus filhos iam pra escola em carro blindado e com seguranças. Disse: não tenho contato com a realidade quando não desejo. Eu fiquei pensando: pô, isso é impossível, a empregada dele vem da favela, os seguranças, certamente, são da periferia. Só quando todo mundo tiver realmente uma consciência clara de sua responsabilidade haverá possibilidade de alguma mudança. Caso contrário, a barbárie vai triunfar - como vem fazendo, aliás.


CM - No filme O Invasor, a violência não apenas bate à porta das classes sociais mais aquinhoadas, como também adentra, sem pedir licença, neste perímetro. Para isso, utiliza-se da promiscuidade entre os submundos da classe média-alta e dos marginais ao sistema vigente. A tendência no Brasil é do aumento destas relações limítrofes, entre o legal e o ilegal, ou o hipócrita e o real, ou o moral e o (a)imoral?


Marçal - Não sei qual é o caminho que será trilhado pelo Brasil. Sou pessimista, contudo. Não vejo nada de concreto e duradouro sendo feito. O Brasil é um país que não pensa a longo prazo. Sei que há muitas iniciativas dignas de aplauso. São o que resta de esperança. Mas do ponto de vista oficial, o Brasil segue ao sabor do acaso, sempre tapando buracos de última hora e anunciando planos que, na prática, não se realizam.


Carta Maior - No filme, a linguagem do rap estabelece conexão com a linguagem cinematográfica. Como foi o trabalho no roteiro de conciliação do discurso e do ritmo do rap com as características cinematográficas?


Marçal Aquino - Havia, já no roteiro, a idéia de participação de um rapper, e o escolhido foi o Sabotage. Naquele momento, não tínhamos ainda idéia de como o Beto usaria a música, isto é, no Invasor ela aparece de forma explícita como elemento narrativo. Surgiu na hora em que ele começou a pensar o filme. De qualquer forma, sabíamos que a "fala" do Anísio teria de passar por uma sintonia fina, adequando-a à periferia, de onde o personagem é originário. Então, com o Sabotage, isso foi facilitado. Ele filtrou todas as falas do Anísio a partir do enunciado no roteiro. Ou seja, a participação dele foi fundamental para dar aquela verossimilhança toda, que o Paulo Miklos, como grande artista que é, incorporou na boa.


CM - A história da filmografia nacional denota a busca de uma identidade nacional, de um Brasil que não é visto, mas que, pela descrição do local, extraem-se as características comuns do nacional, como a solidariedade, a alegria, o despeito. Nos seus filmes, os marginais da sociedade vêm à tona, e apresentam uma faceta que não corresponde à imagem criada a respeito deles. Existe este elo que une os brasileiros em torno de um ideal diverso da realidade vivida?


Marçal - Existe a lenda de que brasileiro não gosta de ver miséria na TV ou no cinema. O que interessa é o sonho, a fantasia. Talvez no caso das novelas isso seja verdade. Mas no caso do cinema, acho bobagem. O que tentamos evitar é a glamurização do marginal e das tensões violentas que regem as relações hoje em dia. O cinema americano é mestre nisso. Veja o caso de O Invasor, em que o registro é quase documental, daí o incômodo que o filme causa em algumas pessoas. Os filmes que se aprofundam nisso correm o risco de um desempenho fraco em termos de bilheteria. É que grande parte do público, domesticada por filmes fáceis (o mainstream americano, enfim) resiste à idéia de sair de casa pra ser afrontado no cinema, por um cinema que provoca desconforto e leva à reflexão. No fundo, o modelito que predomina é aquele em que o cara está de bobeira no shopping e depois de passear, jantar, vira pra namorada e diz: vamos pegar um cineminha? Sem se preocupar muito com o que está sendo exibido.


CM - As dificuldades de captação de recursos na cinematografia nacional são notórias. Em relação a vocês, qual é o papel do bom argumento para a arregimentação de dinheiro para rodar a película, já que vocês fazem esta linha independente, evidenciada pelos roteiros premiados em concursos e festivais nacionais e internacionais?


Marçal - Uma boa história, antes de tudo, é o que faz valer a pena preparar um projeto e tentar a captação. Histórias indigestas, porém, costumam enfrentar a má-vontade de quem decide onde as empresas vão colocar a grana que se beneficia de incentivos fiscais. Pessoalmente, não me preocupo com isso - seria uma forma disfarçada de censura. Tento contar a história em que acredito - Beto idem. E aí corremos atrás.




CM - Ainda sobre a captação de recursos. Até que ponto a legislação cultural brasileira é adequada e incentiva a produção nacional? Os incentivos promovidos pelo governo são acessíveis?


Marçal - Essa é uma pergunta complicada de responder. Caberia mais ao pessoal que se envolve com produção. De todo modo, a legislação está sendo modificada neste momento - o FHC assinou medida ontem. É prematuro falar qualquer coisa sem saber como vai ficar o quadro.




CM - Recentemente, o presidente da República baixou o Decreto 4.196, que fixa o número de dias para a exibição de obras audiovisuais cinematográficas brasileiras durante o ano de 2002. O número de dias dedicados à exibição de filmes nacionais deve ser proporcional ao número de salas de cinema pertencentes a uma mesma empresa. O que você acham desta medida? Ela incentiva a produção nacional? O mercado brasileiro está preparado para esta demanda?


Marçal - Hoje, há uma demanda represada de filmes, que não encontram canais para exibição. É que o cara não tem como competir com blockbusters como, por exemplo, Homem Aranha. Cinema, para o exibidor, não vamos esquecer, é negócio. A verdade é uma só: há um patamar mínimo de público que o filme tem de fazer semanalmente. Caso contrário, ele dança, dá lugar a filmes mais rentáveis. E ainda há uma parcela do público que não vai ver filme brasileiro por puro preconceito. Enfim, o problema tem inúmeras facetas. É preciso atacá-las num conjunto. Não serão medidas isoladas que salvarão o cinema brasileiro. Por outro lado, acredito que jamais teremos uma indústria cinematográfica. Isso só existe nos EUA e na Índia (onde existe a Bollywood). França, Itália e Alemanha, por exemplo, não dispensam a presença do Estado como fomentador da produção de filmes.Por que aqui seria diferente? O que pode se fazer, eu acho, é melhorar as condições de distribuição e exibição - e daí talvez essa obrigatoriedade de dias de exibição seja uma medida eficaz (e parcial no sentido de melhorar as coisas).


CM - Em produções anteriores, o trabalho de locação e de finalização de roteiro gerou um volume de textos que foi lançado em forma de contos: Faroestes. Neste último trabalho, houve também excedente de produção de textos? Há algum novo livro em vista?


Marçal - Tenho uma novela policial pronta pra ser lançada, Cabeça a Prêmio. Era o livro que eu teria publicado agora em abril se não tivesse decidido concluir e lançar O Invasor. Essa novela, uma história do amor impossível entre um pistoleiro e uma cafetina, deve sair agora só no ano que vem - não dá pra lançar dois livros no mesmo ano. No momento, trabalho numa novela que sai do registro policial. É uma história de desintegração familiar, que está me permitindo investigar temas que sempre me interessaram, como, por exemplo, o racismo. Mas está bem no começo ainda, e nem eu sei direito onde vai dar (é assim que trabalho: sem saber direito como é a história; prefiro descobrir enquanto escrevo - daí a magia).




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