Mídia

Era uma vez um império que fazia cinema

15/02/2013 00:00

Oscar

Créditos da foto: Oscar
Buenos Aires - Os prêmios do Oscar foram entregues pela primeira vez em 16 de maio de 1929. O contexto político e social não poderia ser mais significativo: faltando poucos meses para o grande crash de outubro daquele ano, os Estados Unidos estavam montados na maior bolha especulativa de sua história, a Europa era agitada por crises políticas e a periferia do mundo pouco sabia do significado da palavra Hollywood - ainda que muitos já percebessem no que consistia aquele novo poder norte-americano.

O prêmio de melhor filme foi vencido por Wings, um melodrama de William Wellman sem importância hoje, mas cuja história é reveladora do papel desempenhado pelo cinema norte-americano na maior parte do século XX. O filme conta a história de dois homens (Jack Powell e David Armstrong) que disputavam o amor de uma mesma mulher (Jobyna Ralston), até que a Segunda Guerra Mundial estourasse e os sentimentos patrióticos superassem as disputas amorosas. No final todo mundo acaba feliz, os homens compreendem que nenhuma mulher vale mais do que a amizade desenvolvida por eles na guerra e que matar o inimigo é mais importante do que qualquer zelo doméstico.

Desde que formulou uma extraordinária maneira de narrar histórias, no início do século XX, com base na síntese extrema dessas histórias, na maior importância das imagens do que do texto, e na construção de heróis facilmente assimilados, o cinema americano cumpriu dois papéis políticos vitais: enviou uma mensagem de unidade nacional para a conturbada América da época, construindo uma poderosa mitologia patriótico, e estabeleceu um modelo ideal de narrativa, repleto de densos valores morais, a se tornou o padrão de contas histórias na periferia do mundo. O novo império político e econômico havia encontrado no cinema um instrumento de poder mais suave e de primordial importância.

Ao glamour de novas estrelas, que começaram a brilhar mais fortemente com filmes os sonoros dos anos 30, se opôs, a partir de 1933, uma história muito mais crua e menos suave: a propaganda nazista delirante orquestrada por Joseph Goebbels. Como Hollywood, Goebbels também pretendia criar heróis e celebrar os valores patrióticos - mas sem levar em conta que os principais recursos artísticos alemães haviam rumado para o exílio e estavam à disposição dos EUA. Iluminadores, atrizes, diretores, muitos dos grandes mestres de esplendor preto e branco do cinema norte-americano nos turbulentos anos 40 haviam vindo da Alemanha para deixar uma forte marca estética em Hollywood.

A história americana se torna tão poderoso, especialmente após a vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, que não demora para se tornar o modelo por excelência e ser copiado pela incipiente indústria cinematográfica da periferia, especialmente na América Latina. Para perceber essa influência, basta o exercício de se olhar, e misturar, os filmes produzidos naqueles vinte anos cruciais, sobretudo pelas poderosas indústrias mexiana e argentina: é sempre a mesma iluminação, o mesmo uso da música, dos temas amorosos, a construção dos herois.

Hollywood impôs, desse modo, uma narrativa poderosa que se reproduziu internamente em cada país, graças à numerosa trupe de imitadores que surgiram em todos os cantos. Em 1956, como uma espécie de resposta indireta aos primeiros questionamentos europeus - principalmente franceses - a essa narrativa invasiva, a Academia estabeleceu definitivamente o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Esse prêmio havia sido dado pela primeira vez em 1947, quando os EUA fazia sua estreia como nova potência hegemônica global, mas não se firmou até meados dos anos 50.

Em um primeiro momento, o prêmio foi usado para recompensar o melhor do cinema europeu contemporâneo. Honrando De Sica, Fellini, Buñuel, Truffaut ou Bergman, Hollywood permitiu um toque de arte diferente ao que ela própria produzia, e tentava desviar as críticas sobre sua narrativa mais ideológica. O chamado Terceiro Mundo, entretanto, não mereciam sua atenção. Com exceção de um filme japonês e algum diretor de cinema europeu que filmava em países africanos, a periferia do mundo não ganhou nenhum prêmio da Academia até 1985, quando o argentino Luis Puenzo venceu com 'La historia oficial', um duro relato sobre aqueles que desapareceram durante a ditadura militar do general Videla. E teve de esperar até a primeira década deste século para ver produções premiadas de África do Sul, Taiwan e Bósnia-Herzegovina.

Hoje em dia, a Academia padece da mesma anemia de poder que pouco a pouco se apoderou do império americano. Embora não tenha deixado de impor densos valores culturais para o mundo, o glamour de suas estrelas já não brilham como antes, e seu modelo de narrativa já não produz tanto impacto. Vítima de seu próprio sucesso, Hollywood tem a cada ano mais dificuldade para renovar suas expectativas em um mundo em que as histórias se tornaram mais dispersas e menos hegemônicas, graças à proliferação de novas tecnologias de comunicação. "And the Oscar goes to..." a periferia do mundo, que ainda tem muito a dizer e não pode e não quer fazer isso usando os códigos de Hollywood.



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