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Escave aqui, escave lá!

06/01/2006 00:00

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Créditos da foto: Divulgação
Como vai? Tudo bem? Folgo em saber que temos um futuro na Terra e que, neste futuro, há vida humana, leitores e arqueólogos, isto supondo que o senhor seja um indivíduo da raça humana - eu sou - e que está na Terra. Talvez o senhor seja um andróide habilitado para a leitura do português e, tendo encontrado este texto num fragmento de nosso antigo e saudoso planeta, leia-me em Geronte, lua de Plutão que, fiquei sabendo ontem, tem atmosfera. Nunca se sabe.

No momento em que lhe escrevo, corre a manhã do dia seis do mês janeiro do ano de dois mil e seis da Era Cristã, esta é a medida de tempo mais utilizada no planeta. Escrevo de Porto Alegre, uma cidade no sul do Brasil, posso vê-la pela janela nesta bela manhã de sol. A temperatura atual é de 28 graus Celsius. A água (ainda existe?) ferve a 100 graus.

Minha atual posição no planeta Terra é de 30 graus, 2 minutos e 24 segundos Sul, 51 graus, 13 minutos e 12 segundos Oeste. Se o senhor estiver cavando por aqui, no bairro Rio Branco, encontrará vestígios de residências feitas de tijolos, vidro, cimento armado e concreto, poucas casas e muitos edifícios, alguns parques, ruas e automóveis. É um bairro de classe média, não saberia lhe explicar exatamente o que isto significa, imagino que a classe média, assim como os pandas, esteja extinta. Escave meio grau mais ao norte e poderá encontrar vestígios da Vila dos Papeleiros, edificada às margens do Rio Guaíba (na verdade, um lago chamado de rio) por pessoas muito pobres. Imagino que, ao contrário da classe média, eles ainda existam, a porcentagem de pobres no planeta não pára de crescer, e faz tempo. Não imagino o que possa ter sobrado daquelas construções de madeira, lata, plástico e papel, mas o local não tem praças nem nada que se possa chamar de ruas.

O problema da arqueologia, desculpe as críticas de um leigo, é definir onde se cava. Até os dias de hoje, seus colegas já encontraram muitas antigas civilizações e, a partir de suas descobertas, construímos a imagem de nosso passado. Talvez novas escavações descubram que o Egito e suas pirâmides não passaram de um parque temático erguido na periferia de uma outra civilização, muito mais adiantada. Isto explicaria aquela esfinge. Aventure-se a cavar pelo planeta afora e encontrará sítios arqueológicos tão distintos como o bairro Rio Branco e a Vila dos Papeleiros, em todas as cidades. O mundo em que vivemos está organizado de forma a separar rigidamente os pobres dos ricos, embora os ricos precisem sempre dos pobres por perto (não muito perto) para que realizem os serviços mais pesados. E os pobres precisam dos ricos, pois sobrevivem de suas sobras.

Até agora todas as tentativas de diminuir as diferenças entre pobres e ricos fracassaram. Ao contrário, a concentração da riqueza é cada vez maior. Individualmente, buscamos acumular riquezas, imóveis e objetos variados. Coletivamente, estamos organizados em países com governos, muitos deles escolhidos diretamente pela população, em votações diretas. Os governos, que deveriam ter como função principal regular nossos impulsos de acumulação de bens e distribuir riqueza, acabam invariavelmente agindo de forma a aumentar a concentração de renda ou, pelo menos, mantê-la exatamente assim como está. Sendo assim, é natural que a guerra armada entre pobres e ricos estoure em vários pontos do país e do mundo, todos os dias. E não há sinais de trégua. Quem cansa de esperar por justiça tende a buscar, pelo menos, vingança.

O mundo vive, há quase cem anos, sob o domínio do império americano, que impõe seus interesses comerciais e políticos com a força de suas armas, como fazem todos os impérios. A lista de países que os Estados Unidos da América bombardearam desde o final da 2ª Guerra Mundial, sempre com a desculpa de transformar o país bombardeado numa democracia que respeite os direitos humanos, é bastante longa: China (1945-46, 1950-53), Coréia (1950-53), Guatemala (1954, 1960, 1967-69), Indonésia (1958), Cuba (1959-60), Congo (1964), Peru (1965), Laos (1964-73), Vietnam (1961-73), Camboja (1969-70), Granada (1983), Líbia (1986), El Salvador (1980), Nicarágua (1980), Panamá (1989), Iraque (1991-2005), Sudão (1998), Afeganistão (1998) e Iugoslávia (1999). Milhões de pessoas morreram nestas guerras, a maioria civis e crianças, e nenhum destes países transformou-se numa democracia que respeite os direitos humanos, mas sim em governos que se mostraram muito lucrativos para as grandes empresas e bancos. Não sei o quanto esta lista cresceu até o seu tempo. Ainda existem países?

Em meu país, o Brasil, fundado na tradição da escravatura, já tentamos todas as formas de governo: monarquia (governo vitalício e hereditário), república (governante civil eleito democraticamente, com sistema presidencialista ou parlamentarista) e ditaduras variadas (governante no grito, por força das armas). Nenhuma deu certo. Somos o país mais injusto do planeta, em nenhum lugar como aqui há tanta diferença entre ricos e pobres, o que talvez dificulte a análise de suas descobertas. Cave com critério, há favelas vizinhas de palacetes, crianças morrem de fome por minuto enquanto bolsas para senhoras são vendidas por 5 mil dólares. (Não sei se o dólar ainda existe, mas com o preço de um destas bolsas poderíamos alimentar bem uma família de cinco pessoas por um ano.) Nos tempos atuais (há 16 anos temos numa democracia presidencialista) já testamos governantes de todas as tendências políticas. Todos falharam. Nosso atual governante, Luiz Inácio Lula da Silva, foi o primeiro legítimo representante dos pobres eleito presidente da república em mais de 500 anos de história. Ele governa o país há 3 anos e não há sinais de mudança no quadro de desigualdade social no horizonte da vida de meus netos (espero tê-los). Aliás, não deixa de ser curioso escrever ao senhor no momento em que o Brasil, que há muito se auto-intitula “país do futuro”, deixa de imaginar um futuro coletivo, político. Restou-nos esperar que o tempo passe. Esperança inútil, já que o tempo sempre passa, esperemos ou não.

De qualquer forma, seja cuidadoso em suas escavações. Se puder, leia nossos livros, veja nossos filmes, escute nossa música. Apesar de nossas misérias, buscamos dar sentido à vida produzindo arte e linguagem e só por isso merecemos o poder do planeta. Não fosse nossa habilidade de refletir sobre o real e compartilhar nossas visões de mundo, nossa capacidade mental de imaginar a vida do ponto de vista do outro, as baratas, ainda mais capazes que os pobres humanos para sobreviver de restos, já teriam tomado conta da Terra. Aliás, o que houve com elas?

Espero ter sido útil. E bom trabalho.

Um abraço,

Jorge Furtado

Porto Alegre, 6 de janeiro de 2006.

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