Mídia

Espero que se divirta

05/04/2005 00:00

Chico Anysio

Eu sempre achei a arqueologia uma beleza. Na minha primeira visita a Roma eu fiquei deslumbrado com as catacumbas, o Coliseu, o Fórum Romano, todas aquelas maravilhas arqueológicas que nos faziam imaginar como teria sido o tempo glorioso de Roma, com suas sete entradas, um lugar para onde todos os caminhos levavam.

Os arqueólogos são pessoas que eu sempre considerei como especiais, pois eles são os desbravadores do passado, os homens que acham um osso e sabem a quem aquele osso pertencia e quantos anos de idade ele tem. Se for de dinossauro, eles sabem se era de um dinossauro macho ou fêmea. Uma coisa inacreditável.

Ao mesmo tempo, imagino que, no passado, não havia cemitérios, pois nunca foi encontrado nenhum e olha que os arqueólogos fuçam em todas as partes, buscam em todos os caminhos. É uma coisa como o cemitério de elefantes, que ninguém sabe onde fica, já que nunca se encontrou um elefante morto à nossa frente, obstruindo o nosso caminho. E os caçadores estão fazendo seguidos safáris e o que mais procuram é um elefante morto, para roubar o marfim.

Mas e no futuro? O que terão os arqueólogos do futuro para encontrar e fazer com que as pessoas deslumbrem-se? É claro que, no passado distante, não havia esta profissão, porque o passado distante me parece que não teve passado, já que a memória da história vai aos romanos, aos gregos, passa pelos fenícios e pelos caldeus, pelos mongóis, aquela patota de Gengis Khan, pelos vikins... chega aos chineses, mas daí não passa. Não acho que tudo tenha começado com os chineses, mas que eles não têm um passado, não têm mesmo. Foram eles que vieram inventando tudo, a começar pelo macarrão e acabando na pólvora, que acaba com tudo.

OK. Antigamente não existiam os arqueólogos, mas hoje eles estão aí e, no futuro, com certeza também estarão. E encontrarão... o quê?

As ruínas de Las Vegas permitirão que eles encontrem um ringue de box, um esporte no qual, “naquela época, dois homens eram colocados num quadrado, sem que pudessem sair dali e esmurravam-se até que, preferencialmente, um derrubasse o outro.” Roletas e mesas de jogo serão encontrados nas ruínas de Las Vegas, mas o mais interessante será o que os arqueólogos do futuro encontrarão nas ruínas de Brasília. Um enorme salão, “uma espécie de anfiteatro, onde 514 homens se reuniam para resolver seus problemas particulares e criar problemas para o país.”

Excursões e mais excursões serão feitas para que o povo veja como se cuidava dos que no passado roubavam o povo daquele tempo.

Numa cadeira ainda bem conservada, um arqueólogo do futuro encontrará o esqueleto de Severino Cavalcanti, único esqueleto do mundo com uma barriguinha proeminente e a mão cheia de cédulas – o que no passado era usado como dinheiro.

Espero que se divirta. Tanto quanto hoje nós nos irritamos.


N.E. (post scriptum) - Este texto foi publicado em abril de 2005. Mais de cinco meses antes da renúncia de Severino Cavalcanti ao cargo de Presidente da Câmara e ao de Deputado Federal, após ter ficado demosntrado publicamente seu envolvimento com o recebimento de propina para privilegiar a concessão do restaurante da Câmara, num escândalo, caro Arqueólogo do Futuro, que ficou conhecido como Mensalinho por sua contemporaniedade ao Mensalão, escândalo que abalou todo o Congresso Nacional... mas isso jé é uma outra história!

Leia as cartas de leitores sobre este texto clicando AQUI

VEJA O ESPECIAL AO ARQUEÓLOGO DO FUTURO

Conteúdo Relacionado