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Facebook aceita desinformação de indústria de combustível fóssil, diz estudo

O grupo de estudos InfluenceMap acusa gigantes petrolíferas de usarem o Facebook para defender petróleo e gás como parte da solução para a crise climática

12/08/2021 15:10

Relatório constatou que 25 organizações da indústria de petróleo e gás pagaram pelo menos US$ 9,5 milhões para colocar mais de 25 mil propagandas na plataforma do Facebook no ano passado nos EUA (Mateusz Stodkowski/Sopa/Rex/Shutterstock)

Créditos da foto: Relatório constatou que 25 organizações da indústria de petróleo e gás pagaram pelo menos US$ 9,5 milhões para colocar mais de 25 mil propagandas na plataforma do Facebook no ano passado nos EUA (Mateusz Stodkowski/Sopa/Rex/Shutterstock)

 
O Facebook deixou de impor suas próprias regras e não coibiu uma campanha de desinformação da indústria de petróleo e gás na campanha presidencial estadunidense do ano passado, segundo uma análise divulgada nesta quinta-feira.

O estudo, feito pelo grupo de estudos InfluenceMap, baseado em Londres, identifica um aumento na propaganda da ExxonMobil e de outras companhias de combustível fóssil no site da rede social visando influenciar o debate político sobre políticas relacionadas às mudanças climáticas.

InfluenceMap advertiu que a indústria de combustíveis fósseis deixou de negar a crise climática e passou a usar as redes sociais para promover petróleo e gás como parte da solução. O relatório também denuncia o que seria o papel facilitador do Facebook na disseminação de falsos argumentos sobre o aquecimento global ao não aplicar suas próprias regras e suspender propagandas enganosas.

“Apesar do apoio público do Facebook à ação climática, ele continua a permitir que sua plataforma seja usada para a divulgação de propaganda de combustível fóssil”, segundo o relatório. “O Facebook não apenas impôs de maneira inadequada suas políticas de propaganda, está claro que essas políticas não estão acompanhando a necessidade de urgente ação climática”.

O relatório constatou que 25 organizações da indústria de petróleo e gás pagaram pelo menos US$ 9,5 milhões para colocar mais de 25 mil propagandas na plataforma do Facebook no ano passado nos EUA, que foram visualizadas mais de 431 milhões de vezes. Apenas a Exxon gastou US$ 5 milhões.

“A indústria está usando um leque de táticas de mensagem que são mais sutis do que uma declaração explícita de negacionismo sobre o clima. Entre as táticas mais significativas estão a de vincular o uso de petróleo e gás à manutenção de um alto padrão de vida, promover o gás fóssil como alternativa verde e divulgar ações voluntárias realizadas pela indústria para combater as mudanças climáticas”, denuncia o relatório.

Foi percebido um aumento em gastos com propaganda no Facebook em julho de 2020, imediatamente depois que o então candidato presidencial Joe Biden anunciou um plano de US$ 2 trilhões para a promoção de energia limpa. Os gastos continuaram altos até depois das eleições quatro meses depois.

“Isso sugere que a indústria de petróleo e gás usa propaganda no Facebook de forma estratégica e por objetivos politicamente motivados”, acrescentou.

O InfluenceMap descobriu 6.782 publicidades da indústria de energia no ano passado no Facebook promovendo gás natural como energia limpa ou como combustível de baixo carbono, apesar de o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU, ter uma posição contrária.

A pesquisa constatou que a Exxon em particular usou o site da rede social para defender que a manutenção do uso de petróleo é acessível, confiável e importante para que os EUA não fiquem dependentes de suprimento de energia de outros países.

O InfluenceMap também acusou a companhia de divulgar propaganda enganosa buscando transferir da indústria a responsabilidade pelo corte da emissão de carbono para as escolhas no estilo de vida dos estadunidenses comuns. A Agência Internacional de Energia, explicou o relatório, calcula que as metas globais para a redução de emissões dependem fortemente de a indústria de energia adotar tecnologias verdes, enquanto apenas 8% da redução virá de escolhas de consumidores, como realizar menos viagens aéreas;

“Essas mensagens muitas vezes fazem parte de um pacote de publicidade promovendo as companhias de petróleo e gás como amigas do meio ambiente e a importância do combustível delas para a manutenção de uma alta qualidade de vida”, acrescentou o relatório.

O InfluenceMap também destacou o papel desempenhado por grupos financiados pela indústria, liderados pelo American Petroleum Institute, que gastaram US 3 milhões em publicidade no Facebook no ano passado apresentando as companhias de combustíveis fósseis como amigas do meio ambiente.

O InfluenceMap mostrou que enquanto o Facebook removeu algumas propagandas por fazerem falsas afirmações ou por não advertirem que elas tratavam de política ambiental, ele permitiu que outras permanecessem sem serem contestadas.

O Facebook informou ao Guardian que tomou medidas contra alguns grupos publicando propaganda a favor de combustível fóssil e que várias publicidades foram rejeitadas por não se identificarem como sendo de caráter político.

“Rejeitamos publicidade quando nossos parceiros independentes de checagem a consideram como sendo falsa ou enganosa, e agimos contra páginas, grupos, contas e websites que continuamente compartilham conteúdos classificados de falso”, disse um porta-voz do Facebook.

No ano passado, um grupo de senadores dos EUA manifestou em carta ao executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, preocupação pelo fato de a plataforma permitir que afirmações claramente falsas sobre mudanças climática fossem postadas sob a alegação de serem ‘opinião’.

“Dada a longa e problemática história do Facebook com a desinformação, é muito preocupante que agora o Facebook considere que desinformação sobre o aquecimento global seja ‘imune a checagens’”, expressaram os senadores, entre eles Elizabeth Warren.

“A crise climática é importante demais para se permitir que mentiras descaradas se espalhem pelas redes sociais”.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Carlos Alberto Pavam



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